EDITORIAL – VIVA ESPANHA! MORRA ESPANHA!

Imagem2A propósito da eliminação do Barcelona pelo Bayern, já antecedida da eliminação do Real Madrid pelo Borussia Dortmund, falava-se de humilhação alemã imposta a Espanha. A imprensa do estado alemão embandeirou em arco e não poupou nos adjectivos. Ora, na verdade, o que ontem aconteceu foi que uma equipa dum clube da capital da Baviera eliminou uma equipa dum clube da capital da Catalunha. Sob o actual mapa da Europa que guerras, revoluções, tratados, pactos, foram desenhando sobretudo a partir de 1918, subjazem fronteiras ancestrais – aquilo a que se chamava (e chama) a Europa das cem bandeiras.

Viajando pela blogosfera e analisando sites e blogues onde esta questão das nacionalidades oprimidas é abordada, logo deparamos, a par da defesa da restauração das independências, posições contrárias, no sentido da manutenção dos estados forjados por condicionalismos políticos decorrentes de circunstâncias históricas. Um dos casos mais controversos, e que dá lugar a troca de comentários truculentos, é o da Catalunha. Aparecem catalães a defender o conceito de Espanha e a afirmar que os catalães são espanhóis por opção. Na verdade, os comentários em sentido contrário – no da afirmação da vontade independentista – são em maior quantidade e, geralmente, mais bem argumentados.

Hoje passa mais um ano sobre os acontecimentos de 2 de Maio em Madrid, no ano de 1808, quando o povo madrileno, face à atitude colaboracionista das autoridades, se levantou contra a ocupação das forças napoleónicas, dando lugar a uma repressão feroz e ao massacre dos insurrectos – Goya deixou-nos o testemunho dramático desse acontecimento. Entre outras descrições do 2 de Maio, lembramos as de Benito Pérez Galdós em El 19 de Marzo y el 2 de Mayo e a de Arturo Pérez-Reverte em Um Dia de Cólera.

Sabe-se qual é a posição do nosso blogue nesta matéria – somos pela independência de todas as nações europeias que, submetidas a domínio estrangeiro, vêm as suas culturas, idiomas e história, subordinados à cultura, língua e tradições do ocupante. Mas temos a opinião de que existe um genuíno patriotismo espanhol e que, começando por ser uma utopia, o  conceito de Espanha, ao longo dos 500 anos da imposição da utopia, se enraizou, criando uma realidade que hoje não podemos ignorar. Realidade que, no entanto, só será legítima quando deixar de se impor a outras. Espanha só ganha o direito moral de existir quando reconhecer o direito das outras nações peninsulares à independência total – quando os “espanhóis” saírem da Catalunha, da Galiza, do País Basco, quando restituírem os territórios roubados a Portugal e a Marrocos, poderão dar largas ao seu patriotismo e exaltar os valores da sua cultura. Até lá, Espanha será um  conceito amaldiçoado por uma grande parte dos habitantes desta Península onde a existência do estado espanhol é uma fonte inesgotável de problemas.

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