REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota

Combater a Novilíngua neoliberal – sobre uma intervenção de Pierre Lévy

Texto enviado por Philippe Murer, Membro do bureau du Forum Démocratique, Président de l’association Manifeste pour un Débat sur le libre échange,

26 Abril de 2013

novilíngua

Enquanto tomava o pequeno-almoço vi hoje, dia 2 de Maio, uma reportagem na Televisão sobre a Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra,  e alguém naquela reportagem fazia lembrar que naquela maternidade as pessoas eram tratadas de doentes, e não de utentes como agora se diz. Lembrei-me deste texto que tinha recebido de Philipe Murer e fui traduzi-lo. Aqui está a mostrar que o fenómeno da Novilíngua é mesmo um fenómeno muito generalizado, hoje.

Júlio Marques Mota

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Pierre Lévy, Editor-chefe do jornal “Bastille, République, Nation” foi convidado na quinta-feira passada pela Associação dos “amigos do tempo das cerejas”. Nesta conferência, ele concentrou as suas observações sobre a linguagem usada pelos neoliberais que está em vias de desapropriar as pessoas das suas próprias palavras. É absolutamente importante combater essa opacidade intencionalmente mantida para que o povo ignore ou se desinteresse do seu próprio destino, incapaz de o compreender. E ainda persiste a esperança porque muitas vezes é suficiente mostrar o interior de um texto para provocar a sua destruição,  como foi o caso com o ‘não’ dado ao Tratado Constitucional,  o que se demonstrou em 2005.

Actualmente, é preocupante observar a progressão neoliberal no seio do espaço linguístico, pois que a subversão das nossas palavras pelos nossos adversários é sua própria vitória. Pensar com os conceitos dos outros já é um sinal de derrota.

Pierre Lévy mostrou assim como é que um plano de despedimentos se tornou um plano social e depois um plano para a salvaguarda do emprego. Os termos utilizados correspondem ao inverso da realidade. Os empregos do futuro são muitas vezes empregos sem futuro ou pelo menos de espera, por ausência de propostas de verdadeiros empregos sustentáveis. O plano de salvamento da Grécia, o de resgate como também se diz, é na verdade um plano de resgate dos credores, o que coloca Atenas em situação de morte clínica.

No mesmo espírito, o plano de modernização social e de salvaguarda do sistema de protecção coincide com o seu recuo para não dizer que coincide com o seu desmantelamento. Attali emitiu o seu relatório sobre a liberalização do crescimento enquanto se tratava sobretudo de atacar o estatuto dos funcionários ou os benefícios dos assalariados.

O termo de competitividade tende a ajustar-se perigosamente em muitas áreas, tais como hospitais, universidades, tribunais? Os utilizadores dos serviços públicos tornam- se clientes…

O confronto entre patrões e sindicatos também é uma enviesada , porque em vez de tratar esta relação como uma relação de forças, isto é, como luta de classes, a Novilíngua neoliberal utiliza termos como parceiros sociais e como diálogo social, como a relação entre parceiros sociais, o que sugere que os ‘parceiros’ têm os mesmos interesses. Estes termos colocam os dirigentes sindicais numa situação delicada.

Pierre Lévy

Quanto à dívida, o problema é idêntico. Os jornais alemães utilizam as palavras da montanha da dívida o que tem um ar ou uma intenção de assustar. Face à gestão da dívida, o uso dos termos de países virtuosos aparece como perigoso uma vez que ninguém quer parecer um país de vício. Os países são colocados numa situação de aluno face a Bruxelas, desde que por vezes se trata de entregar o seu texto para evitar ser classificado entre os maus alunos da UE.

A relação de pais e alunos também foi criada aquando da vitória do ‘não’ ao Tratado da União Europeia, onde os apoiantes do ‘Sim’ estimavam ter tido falta de pedagogia,  reenviando assim o povo ao papel de conjunto de  “malandros” que precisam de ser ensinados. A UE deseja igualmente por em prática campanhas educativas. O Parlamento já não representa o povo, mas educa-o.

As reformas estruturais neoliberais são facilitadas pelo uso de eufemismos que podem levar a pensar que se trata de reformas marginais. Assim, as políticas de austeridade são transformadas no controle das finanças públicas ou de  ajustamento orçamental.

Os termos implícitos também são utilizados para promover a implementação das políticas neoliberais. Assim, o uso da palavra saneamento para evocar as finanças públicas pode levar a sugerir que elas não são sãs. O colocar os funcionários em dieta significa implicitamente o que eles vivem na opulência.

A moderação salarial refere-se a mesma ideia sobre os assalariados. No mesmo espírito, políticas de privatização consistem em fazer ‘respirar’ o sector público e as políticas de desmantelamento do código laboral consistem a atacar as “rigidezes” deste último.

A relação ao emprego também é descrito de uma maneira particular, uma vez que tem “alcançar” um emprego como se isso fosse uma oportunidade excepcional. Para o conseguir, é solicitado que se seja flexível, ou seja, para se adaptar  aos constrangimentos horários ou às restrições geográficas do seu empregador, ser ágil, demonstrando, por exemplo, a sua capacidade em ter um emprego por 2 meses em Riga ou em Lisboa.

Os conflitos militares também são suavizados pela Novilíngua neoliberal. Assim, os bombardeamentos são substituídos por ataques cirúrgicos e as bombas que falham o seu alvo como sendo “rebarbas” ou efeitos colaterais. As operações militares são consideradas operações de manutenção da paz. Os adversários tornam-se os Estados preocupantes contra os quais se utiliza por vezes termos como “derrapagem” ou “provocação”.

Finalmente, o problema da anglicização permanece delicado por várias razões. Em primeiro lugar a sua tradução pode às vezes ser problemática como a palavra ‘people’, que tanto pode significar povo como população e que cria confusão, pelo menos em francês onde o segundo termo substitui o primeiro. Essa evolução tende a fazer ressurgir o individualismo fazendo emergir as comunidades à custa do povo como uma unidade indivisível. Por outras palavras: dividir e reinar.

Inglês tornou-se a língua das elites. Le Monde publica assim, quase que diariamente um título em inglês o que significa implicitamente que não é concebível que os seus leitores sejam incapazes de dominar a língua de Shakespeare. Esta progressão do Inglês, portanto, é particularmente preocupante. Alguns querem mesmo que essa língua seja ensinada desde a pré-primária e que os cursos universitários em Inglês se tornem a regra. Isto espelha a realidade em Portugal, veja-se as Universidades, onde  um dos aspectos publicitários é terem aulas em inglês, facto tanto mais grave quando o défice em português é muito elevado. Talvez se considere a língua de Camões como um produto em saldo.

À chegada, parece que querem fazer com que as pessoas sejam desapossadas das suas palavras para que não somente estas não possam mais falar sobre o seu futuro e para que, além disso,  não se esteja com capacidade de as poder compreender . Os neo-liberais parecem aproximar-se cada vez mais do seu objectivo, que é o de fazer desaparecer a ideia de que as pessoas podem assumir o controle do seu futuro.

Os jornalistas têm um papel importante na disseminação dessa Novilíngua. Da mesma forma, a existência de clubes tidos como elitistas promovem essa propagação uma vez que as elites utilizam estes mesmos termos ao falar entre eles.

O perigo é que o aparecimento desta Novilíngua que exclui os povos conduz ao aparecimento de falsos conceitos como o de povo europeu que teria uma consciência Europeia enquanto que por causa da sua história, a França está muito mais próxima de um país como a Argélia que de um país como a Estónia. Assim como a Alemanha estaria mais perto da Turquia que da Irlanda.

Pierre Lévy decidiu terminar o seu discurso com as palavras de François Hollande: “o que nos ameaça hoje não é mais a desconfiança dos mercados mas a dos povos”. Não é a criarem estruturas tecnocráticas e antidemocráticas que essa desconfiança vai cair. Os povos devem retomar a sua palavra e recuperar a sua soberania.

Theux

http://forumdemocratique.fr/2013/04/26/combattre-la-novlangue-neoliberale-pierre-levy/

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