AS FRONTEIRAS POROSAS DA POLÍTICA BRITÂNICA COM A CITY

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Marc Roche

Andrew Mitchell

Carta da City:  Um simples item descoberto em Financial News, o semanário financeiro que é autoridade na City  e eis-nos intrigados,  muito intrigados! Andrew Mitchell, antigo ministro responsável pela disciplina dos  parlamentares conservadores, uma posição-chave no governo britânico, juntou-se à equipe de Montrose Associates.

É uma empresa de informações  económicas, fundada por ex-empregados do banco de negócios Lazard. E à força de nos interrogarmos, descobre-se que aquele que foi um brilhante ministro do desenvolvimento internacional também trabalhou no banco  Lazard em duas ocasiões, entre 1975 e 1987 e entre 1997 e 2009.

Este novo exemplo de aparelho institucional  “à  trotskista ” praticado pelo  mundo  financeiro  é ainda  tanto mais significativo que David Cameron poderia nomear   Mitchell para a posição de Comissário Europeu britânico em 2014.

Andrew Mitchell. E se, a este respeito, se falássemos  de um novo livro intitulado De la malédiction des ressources naturelles à la malédiction financière que publicam  em formato digital Nicholas Shaxson et John Christensen ? A indústria financeira é tão poderosa  e incontrolável que mina a democracia. Capturando os Estados, os bancos apreenderam a capturar o poder político”, explicam-.nos os dois cruzados da luta pela transparência financeira,  a propósito dos  políticos ou dos altos  funcionários recrutados à sachola pela  oligarquia financeira.

A ouvir os dois especialistas,  o vai-e-vem, entre a política ou os altos funcionários públicos e o mundo bancário, a existência de paraísos fiscais ou a chantagem para a deslocalização permitiu a  Wall Street como à City de usufruirem e de se libertarem  das fronteiras, das regulamentações ,  dos interesses  colectivos.

A agenda de moradas e telefones 

Os acólitos  atacaram o antigo primeiro-ministro Tony Blair, o homem que  ilustra até ao nível mais caricatural possível o conluio entre a política e o dinheiro. Este, o homem  que ocupou o nº10 de  Downing Street, entre 1997 e 2007 foi capaz de rentabilizar de modo impressionante  a sua imponente agenda de moradas e telefones. O banco JPMorgasn e a  Companhia de seguros Zurich  foi assim e por isso que o recrutaram [a vários milhões de dólares por ano cada uma destas empresas ].

Com o resultado que se adivinha: na lista  “Rich list 2013”  do Sunday Times dos homens políticos britânicos mais ricos, o mentor do New Labour, que tem bem metido nos bolsos [fundos]  os seus princípios e as suas ideias morais, alcança o décimo quarto lugar, com um ganho pessoal  estimado em alguns 30 milhões de libras (35,6 milhões de euros).

No Reino Unido, Tony Blair está longe de ser um caso isolado. O antigo  vice-primeiro ministro, arquitecto do New Labour, Lord Mandelson, [um homem que não era comprável pelos lobi’s com objectos de luxo,  com férias bem passadas algures nas caraíbas em iates e encontros com a família Rotschild, ou será que talvez eu esteja a sonhar? Talvez.]  e este lord é ele mesmo o presidente da secção internacional do banco Lazard.

Antigo director  dos Jogos Olímpicos de Londres, Paul Deighton, que passou 22 anos no Goldman Sachs, é Secretário de Estado das Finanças. O secretário-geral do governo, responsável pela administração de Whitehall, Jeremy Heywood, é um trânsfuga  do Morgan Stanley. O antigo primeiro-ministro conservador John Major está a trabalhar  em tempo integral no   fundo de investimento Carlyle…

Respeito da ética

O que  faz um jornalista que investiga ligações perigosas imputadas à City? Ele telefona para  a City Corporation of London, o organismo  administrativo da primeira praça financeira europeia. Na sua obra de denúncia  Shaxson e Christensen empenhadamente desacreditam esta instituição muito poderosa e muito rica.

O poder político dos bancos já é o que era desde a crise financeira de 2008, este é o leitmotiv cheio de  argumentos da Corporação. Os  “ex” mostram-se  menos úteis face aos governos e aos reguladores sensíveis à  impopularidade dos profissionais da  finanças, tomados como os grandes responsáveis  pela crise. A agenda com as moradas e telefones já não é o suficiente  face  a uma nova geração   de decisores  menos impressionados com o know-how dos pequenos génios do dinheiro .

Clientes, nomeadamente os  fundos de aplicações (fundos de pensões, fundos de riqueza soberana, fundações, etc.) exigem o cumprimento da ética. Além disso, na sequência do desejo de  Evelyn Rothschild e Martin Taylor, muitos antigos banqueiros estão na vanguarda da luta contra os excessos da finança de  casino. E assim por diante.

Para lá de todos estes argumentos, a City  é intocável. Ele representa 10% do produto interno PIB britânico e 4% da força de trabalho, o que não é nada insignificante  nestes tempos de escassez de empregos e de PIB.  No entanto, a  hora agora é de  economias no “Square Mile”  a zona da City ,  de acordo com o Financial Times, um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça permite à empresa Dialit comercializar cápsulas de café compatíveis   com as cápsulas das máquinas de café Nespresso.

As doses  são 30% menos caras  que as da Nestlé. Os Contabilistas da City em mangas de alpaca e nas suas “caixas” envidraçadas rejubilam nas suas gaiolas de vidro  com a perspectiva das economias feitas sobre os aromas subtis dos  cafés Roma, Ristretto ou Volluto oferecidos aos clientes. Digam-me depois notícias…

Marc Roche,  Les frontières poreuses de la politique britannique avec la City, Le MONDE, Paris,  30.04.2013

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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