POESIA AO AMANHECER – 196 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

TEIXEIRA DE PASCOAES

(1877 – 1952)

A SOMBRA DE DEUS

(fragmento)

E vi fazer-se, em mim, aquela Noite

Originária; a Noite primitiva

Que era o mundo em espírito somente,

Verbo por encarnar em forma viva,

Em tenra cor alegre e palpitante…

Sonho, amor, esperança adormecida,

Vaga penumbra de oiro madrugante…

A Noite, virgem Mãe da Criação,

Das almas, dos fantasmas e de aquelas

Edénicas manhãs…

Manto de sombra

Que em suas dobras escondia estrelas!

(…)

Ó misteriosas névoas indecisas…

Fantásticas saudades, que desejam

Achar as formas nítidas, precisas,

Que encontraram as pedras e os metais!

Assim o mundo, ó Deus, é tua sombra!

E tudo quanto, neste espaço, existe

é a tua estranha dor e imperfeição:

Tua parte mortal, nocturna e triste

E frágil, mentirosa e transitória!

E onde estás, mais presente e verdadeiro

E mais vivo, talvez, que em tua glória,

Em teu deslumbramento e luz divina!

(de “As Sombras”)

Poeta controverso, indefinível entre um romantismo tardio e um simbolismo pouco ortodoxo, ligado a marcas nacionalistas (veja-se “A Arte de Ser Português”). Poeta do saudosismo – é dele o texto “O Espírito Lusitano e o Saudosismo” -, «do visionário e da errância incerta» (Maria Alzira Seixo). Autor de uma vasta obra poética, de que são exemplo os volumes “Terra Proibida”(1899), “As Sombras” (1907), “Senhora da Noite” (1909), “Cantos Indecisos” (1921), “Versos Pobres” (1949) ou “Últimos Versos” (1953).

Leave a Reply