Da Galiza, mensagem : Vacas – por Isabel Rei

Da Galiza mensagem

Vacas

Abofé que punha “Salgueirinhos”! O que? Cuida essa língua que ainda levas umas vareadas. Isto é uma trangalhada, o neno vai perdido. Que não, o letreiro dizia “Salgueirinhos”. Sei que é um mercado onde a gente merca. O que? Tenho medo. Acouga, que não é nada. Epa, e esse rebúmbio ao longe? Chist! Deixai de latricar que ainda nos zorregam uma boa.

Vistes aqueles dous rifando? Que espetáculo, parecem bestas. E quantos postos de lambetadas. E de apeiros de lavrança. E os parrulos, olhai os parrulinhos! E vós aí adiante, não vedes o homem? O neno parece um pouco nervoso. Não o vejo, não. Isto está ateigado de gente. Aqui não se vê nada. Pois será doado saber quem é, terá pinta de indiano, chapéu e traje branco, sapato fino, tabaco do bom.

Olha essas como nos miram, parece-me que as conhecemos de algo. Essas?, são as choromicas que andavam na erva seca. As da veiga de baixo? Essas. Também andam aqui. Velaí o homem, parece que lhe caem as báguas. E o neno? Está mais feliz que um paporruivo. Mas não vai abraçar o pai? Vê-lo aí vai correndo, coitado. Vinde à sombra da cerdeira, com este calor é como se nos fosse cair o céu na cabeça. Cá! O que? A bubela, ali, na pola mais alta! Não a vês? Oi, que raio, comadre.

Está mais magro. E o traje não é tão branco. A última vez que o vi marchava vulto ao lombo, sem tirar a vista do caminho. E o filho que era um rilhote agora já é um moço. Pensades que o quererá? Vai-no querer mais que a nada, não vês como o agarima? Que joia de neno, listo como um alho, ainda me lembra quando gaveava carvalho arriba na procura dos ninhos de bubela. Tão novinho! E a pobre mãe, doente, sem poder sair da cama. E ele tão boínho a lhe preparar a comida com o que apanhava nas leiras. Por dizer verdade, as leiras estavam um pouco a monte. Fazia o que podia, pobrinho. Desde que morreu ela, já nunca mais foi por nós, não sei que lhe deu hoje. Pois não sei, mas eu quero voltar à casa. Eu também. E eu.

Então voltamos à casa, filho. Pai, a mãe morreu. Morreu? E na casa já não há nada, trouxe as vacas. As vacas? Sim, aquelas ao pé da cerdeira, para as vender.

Isaac Dias Pardo_1920_2012 
Isaac Dias Pardo (1920-2012)

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17 Comments

  1. tiro o chapéu (que não gasto…) lendo o teu texto, recendente de enxunlhoso “Léxico da Galiza”, virtuosa narradora-poeta: parece-me ter voltado aos meus pagos, nos anos de picarinho, a me banhar em pelote com os meus rilhotes, nos pegos do rio, a saltar pelas poldras…

    uma regalia pròs olhos, espero que gostem tb os nossos leitores do S…

    aperta!

  2. António, Salgueirinhos é o mercado de gado de Compostela, mas também pode ser o nome de muitos outros lugares.
    Carlos, com efeito, o léxico da Galiza é o instrumento, ainda que as vacas são as protagonistas. Lembras daquele Sagarana, a conversa de bois? Pois isto são uma espécie de memórias dumas vacas lavregas…
    Pedro, muito me alegra que gostes. Oxalá outr@s paisan@s teus gostem também. Para a procura concreta de alguma palavra será preciso consultar um dicionário galego.
    Obrigadíssima a todos, caros. Permiti-me uma questão, que não sei se está fora de lugar dado que este é um comentário-resposta à vossa amabilidade, por que raio não comentará nenhuma mulher?

  3. Permet-me que et feliciti per aquest text, i, sobretot, deixa’m felicitar el teu poble per tenir una llengua tan rica i versàtil i escriptors que en saben treure melodies tan belles i tan ben harmonitzades.
    El teu text m’ha resultat ben pròxim per dues raons que no m’ha calgut anar a buscar al fons de la memòria, perquè han sorgit com una resposta espontània amb l’estímul de la lectura. La primera és un text de Salvador Espriu, no pas per analogies de cap mena, sinó pel to, per aquesta manera de narrar des de la conversa. De seguida que he començat a llegir he recuperat l’experiència lectora de la narració espriuana: “Tereseta que baixava les escales”.
    La segona raó ha estat per l’estímul d’un mot: el verb “agarimar”. De seguida m’han vingut al cap els meus divuit anys tot just estrenats i un meu viatge solitari a Galícia. En una llibreria de Santiago m’hi vaig estar bona estona remenant llibres, descobrint noms i versos de poetes, fins que em van venir als ulls els primers versos d’un poema:
    Agarimantes coixegas, moixenas
    no teimoso cristal, bulinte espello
    dos vimios confidentes pola beira.
    Sobre de nós, dondo silenzo, o ceio.
    […]
    Era el poema “A pesca (Pastoral)” del recull “De min e da sôma” d’Eduardo Blanco Amor. El vaig comprar i el vaig llegir amb delectança moltes vegades, fins que va quedar desat en algun racó de la meva biblioteca. Els versos no els vaig oblidar, i, a desgrat de la inseguretat ortogràfica, els podria escriure de memòria encara ara, després de molts anys.
    De seguida que he acabat de llegir el teu text i els comentaris que ha suscitat, he desenterrat aquell “Cancioneiro”… L’he trobat molt malmès. És un volum d’Ediciones Galicia que es clou amb aquesta acreditació, en castellà: “Este libro “Cancioneiro”, Ediciones Galicia, estuvo al cuidado de I.S. i se terminó de imprimir el 18 de enero de 1956, en la Imprenta López, Perú 666″. Ediciones Galicia és el segell editorial del “Centro Gallego de Buenos Aires”, on es va imprimir el volum.
    He rellegit, amb la mateixa fruïció, el poema que Blanco Amor va escriure en 1948 :
    […]
    Tremantes de tolicie, prata e riso
    o peixe e ti, nos verdes solagados,
    xa as guirlandas da morte en rodopío,
    foron a dar nas redes dos meus brazos.
    Com sol passar quan es sacseja la memòria al cap dels anys, he trobat enmig de les pàgines del llibre un parell de fulls manuscrits a llapis, amb la meva lletra adolescent -ampul·losa, arrogant; ben diferent, si no en la forma sí en el caràcter, de la lletra menuda i continguda que l’edat m’ha anat imposant. En un dels fulls, llegeixo la traducció -al castellà- d’un dels poemes del recull. A l’altre, els dos primers versos i la meitat del tercer d’aquest poema que em va enamorar per sempre… Havia oblidat completament aquell intent desafortunat. Probablement és aquesta la causa de l’oblit…
    [Amb el “Cancioneiro” he retrobat dues edicions de “Nós”. I he pensat que, probablement, Castelao reclamava, des del fons del teu text, el record que li pertoca.

  4. Gràcies, Josep, pel seu comentari tão belo. Este é um desses momentos em que desejaria poder responder em catalão, mas reconheço que me é impossível e não quero botar mão do maquinal tradutor google. Nestas ocasiões sente-se claramente quanto o ler é diverso do escrever. Posso ler e entender o seu catalão, mas não posso imitá-lo na escrita. De qualquer maneira, muito obrigada pelo generoso comentário.
    Castelão, por força, tinha de ser ainda mais triste do que eu, com todo o que passou na vida e as suas convições tão fortes a chocarem com as longas realidades de pedra. Josep, não conheces o “Memórias dum neno labrego”? Por esse título não o acharás nenhures, trata-se do livro de Neira Vilas publicado na Espanha como “Memorias dun neno labrego” ou em Portugal pelo desnecessário título, “Memórias dum menino camponês”. Desnecessário título? Sim, porque nega as palavras escolhidas pelo autor galego, nega as palavras galegas da língua que também eu uso neste texto, sem vergonha e sem pudor. Porque a minha linha é a de abrir fronteiras mentais, e o léxico está a resultar uma boa ferramenta para isso.
    De novo muitíssimo obrigada. Grande abraço.

    1. No he llegit l’obra de Neira Vilas, tot i que en tinc notícia. Se’n va fer una traducció al català l’any en la col·lecció Moby Dick, adreçada a joves lectors, cap als anys vuitanta o primeria dels noranta. Però, no l’he llegida. Com que m’has posat la mel a la boca, en buscaré l’edició en gallec i la llegiré. Quan ho faci, ja trobarem espai aquí per a parlar-ne.

      1. Os parrulos são os patos, os patinhos simpáticos, admirados por crianças e gado bovino. 😉
        Choromicas é aquele ou aquela que anda queixando-se por qualquer cousa.
        boínho é o diminutivo de “bo”/”bom”, bonzinho.

    1. É como se passou, para mim, com o Aquilino Ribeiro.
      Algumas palavras a pedir dicionário, mas o texto lê-o qualquer um que saiba português.

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