
Se a democracia representativa é um sistema tão bom, como se explica que gente como esta que nos governa seja escolhida? Listas propostas por partidos que nos têm dado motivos para neles não acreditarmos, são preferidas às de outros. Delas saem maiorias parlamentares e governos… Os presidentes da República são apoiados pelos mesmos partidos e nós escolhemos entre os propostos o que nos parece menos mau. Um artigo de Baptista-Bastos circula pela Internet. Faz um retrato perfeito de Cavaco Silva – iletrado, manhoso, rancoroso e não só…. Como pode ter sido eleito e, o que é pior, reeleito?
O excelente jornalista diz « O possidonismo da sua estrutura comportamental pode ser aferido naquela cena irremediável, em que, de mão dada com a família, sobe a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, no Palácio de Belém, quando venceu as presidenciais. (…) O homem confunde Thomas Mann com Thomas More; ignora que Os Lusíadas são compostos por dez cantos; omite o nome de José Saramago, por torpe vingança, na recente viagem à Colômbia, enquanto o Presidente deste país nomeou o Nobel português com satisfação e realce; não se lhe conhece o mais módico interesse pela leitura; e, quando primeiro-ministro, recusou à viúva de Salgueiro Maia uma pensão, que, jubiloso e feliz, atribuiu a antigos torcionários da PIDE». Baptista-Bastos podia ter acrescentado que a pensão que Cavaco atribuiu aos agentes da PIDE, pode ser levada à conta de camaradagem, pois Cavaco terá colaborado com a «prestimosa corporação», ainda que por «motivos académicos».
Lembrando presidentes da I República, como Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, António José de Almeida – a sua cultura e integridade moral, chega-se à conclusão de que regredimos, apesar de o analfabetismo ser agora residual e há cem anos afectar quase 80% da população. Dir-se-á que é um problema geral – e, de facto, por esse mundo fora, abundam os exemplos de governantes que não possuem um mínimo de qualidades que os qualifiquem para os cargos que exercem. Baptista-Bastos continua «Ouvi e li o que disse o dr. Cavaco e não fiquei nem surpreendido nem chocado. É a criatura que há, o Presidente que se arranja, irremissível e sombrio. Medíocre, ressentido, mau-carácter, incapaz de compreender a natureza e a magnitude histórica da revolução.» (…) «E sempre agiu e se comportou consoante a estreita concepção de mundo com que foi educado. A defesa da direita mais estratificada está-lhe no sangue e na alma, além de manter, redondo e inamovível, um verdete avassalador pela cultura. » . Um retrato perfeito, repito.
Cavaco Silva está em lugares destacados da hierarquia da República há quase 40 anos. Parece preparar-se para bater o recorde de Salazar que (não contando as duas semanas em que, em 1926 foi ministro das finanças, entre 1928 e 1968 ocupou as cadeiras do poder.
Até cair de uma cadeira de praia.
