Recuperamos este texto de António Sales já antes publicado no Estrolabio. Por que razão se escreve? A interrogação colocada pelo título é de difícil resposta – cada escritor terá a sua explicação. Esta é a do António Sales.
Porque escrevo?
Não sei da mesma maneira que não sei porque fui sempre um amante da leitura e de jovem comecei a minha biblioteca. Em minha casa não existia um livro. Bom, existia a bíblia, missais de minha mãe, John, o Chauffeur Russo, Sou Maria, Saber Viver e o Coliseu Infantil. Felizmente ainda conservo todos.
Sem grandes delongas direi simplesmente que escrevo porque me apetece. Muitas vezes estou com a caixa craniana avariada e vai disto, ponho-me a escrever. È mais barato que ir ao médico e não tem despesa de farmácia para medicamentos. Dá-me prazer, digo, criar vidas ou tão prosaicamente desabafar comigo mesmo através da escrita que é uma espécie de confissão. Como jamais admiti sequer poder-me confessar ao padre, provavelmente mais por uma questão de fé que de pudor, prefiro confessar-me à escrita, ou seja, a um outro eu que não a mim mesmo. Muito embora pareça que escrevemos para nós, isso não é verdade porque fazemo-lo para um outro personagem em abstracto.
Escrever é assim uma espécie de loucura de um sujeito criador de universos onde existe sem existir, ama sem amar, sofre sem sofrer, ataca sem matar. Escrever é uma rota que isola mente e espírito transportando-os a um planeta imaginário suficientemente absorvente para eu me isolar do planeta real. Mas também é recordar, registar a vida em que participo com outros colegas interpretes desta gigantesca comédia humana (vai um chavão!) Escrever é um acto de inconfessáveis intimidades e reflexões que normalmente conduzem quem escreve ao desespero de transmitir, através dos olhos críticos da alma, as tristezas do mundo.
Quando escrevo salto o meu rio sem ponte para a outra margem. Aí me deixo ficar com um sorriso nos olhos a perscrutarem a pequenez de tudo quanto existe nesta margem onde realmente existo.
Nessa outra está o meu sol e a minha lua que iluminam uma ilha de solidão onde me divirto escrevendo.