AS NOSSAS FÉRIAS NO FUTURO QUE AÍ VEM!
por Carlos Pereira Martins
Daqui a poucas dezenas de anos, resolvi surpreender o amor da minha vida e oferecer-lhe umas férias de Verão fora do vulgar. Nada de Algarve, Caraíbas ou Maldivas. Fomos passar férias… ao Espaço!
Começámos modestamente, com um saltinho à Lua. Hoje em dia já é tão banal como apanhar um voo low-cost para Barcelona. O problema surgiu quando a minha cara-metade, equipada com umas chanatas espaciais dois números acima do recomendado, tropeçou ao sair da nave. Eu ainda tentei agarrá-la, mas a gravidade reduzida não ajudou e fomos os dois disparados em direcção a Mercúrio.
A vantagem é que Mercúrio é quentinho. Tão quentinho que ela aproveitou para desinfectar logo os joelhos da queda sem precisar de álcool nem pensos rápidos.
No meio da confusão, a minha mala de viagem ficou esquecida na Lua. Como não me apetecia passar o resto das férias vestido com o mesmo fato espacial, rumámos a Vénus para comprar muitas camisas para toda a viagem. É verdade que as temperaturas por lá são ligeiramente superiores às recomendadas para fazer compras, mas ao menos havia saldos interplanetários.
Quando a situação acalmou, olhei para ela com ar romântico e disse:
— Meu amor, quero levar-te… a Marte!
Ela ficou emocionada. Eu também. Afinal, não é todos os dias que se consegue fazer uma declaração romântica que simultaneamente é uma proposta turística.
Como a viagem tinha de ser em grande, seguimos para Júpiter. E que grande é Júpiter! Aquilo não é um planeta, é praticamente um condomínio fechado cósmico. Tão grande que a sua massa ultrapassa a de todos os outros planetas juntos. Funciona ainda como um autêntico aspirador espacial, apanhando meteoritos e porcarias que andam à deriva. Uma espécie de empregado de limpeza do Sistema Solar.
Numa das noites passadas por lá, a minha companheira sonhou com o jardim lá de casa. A sonhar, começou a gritar:
— Aterra! Aterra!
Ora, o nosso módulo espacial era totalmente automático e levava tudo demasiado à letra. Resultado: interpretou aquilo como uma ordem oficial e regressámos imediatamente à Terra. Nem deu tempo para reclamar.
Como já andávamos a pensar em casar, decidimos então fazer as coisas como deve ser. Voltámos a descolar e fomos directamente a Saturno.
E que escolha magnífica!
Saturno tem um sistema de anéis fabuloso, composto por gelo e poeira. Fiz logo as contas: alianças ao preço da chuva! Nada de gastar fortunas em ouro. Além disso, o planeta vem equipado com dezenas e dezenas de luas, em cortejo!
Quem precisa de convidados quando pode ter um cortejo nupcial inteiro formado por satélites naturais? Nem os bilionários mais extravagantes da Terra conseguem organizar um casamento assim.
Depois do noivado espacial, rumámos a Urano. Como sou Belenense e tenho um fraquinho por tudo o que é azul, senti-me imediatamente em casa. A atmosfera rica em metano dá ao planeta aquele tom azul-claro lindíssimo. Estava nas minhas sete quintas. Ou melhor, nas minhas sete galáxias.
Só faltavam dois destinos para completar a colecção.
Primeiro Neptuno, o planeta mais distante do Sol. Um gigante gelado onde o frio faz os Invernos portugueses parecerem tardes de Agosto. Depois, Plutão, o eterno injustiçado. Já foi planeta, depois deixou de ser, passou a planeta anão, mas continua a ser um sítio fascinante. É como aquele tio da família que já não é administrador da empresa, mas continua a aparecer em todas as fotografias de Natal.
Quando finalmente terminámos a viagem e regressámos a casa, perguntaram-nos:
— Então, como correram as férias?
Eu respondi:
— Foram inesquecíveis. Perdemos uma mala na Lua, trouxemos camisas de Vénus, quase ficámos retidos em Júpiter, casámos em Saturno, passeámos pelo planeta azul e acabámos nos confins gelados do Sistema Solar.
— E valeu a pena?
Olhei para ela, sorri e disse:
— Claro que valeu. Afinal, não há melhor maneira de provar que o amor é infinito do que percorrer o Universo inteiro só para passar férias juntos.

