POESIA AO AMANHECER – 201 – por Manuel Simões

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FERNANDO PESSOA / ALBERTO CAEIRO

XLVIII

Da mais alta janela da minha casa

Com um lenço branco digo adeus

Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.

Esse é o destino dos versos.

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos

Porque não posso fazer o contrário

Como a flor não pode esconder a cor,

Nem o rio esconder que corre,

Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência

E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?

Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.

Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.

Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.

Submeto-me e sinto-me quase alegre,

Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!

Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.

Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

(de “O Guardador de Rebanhos”)

Segundo uma carta de Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro, o heterónimo Alberto Caeiro nasceu próximo de Lisboa em 1889 e morreu em 1915. Ainda segundo essa carta, Caeiro teve três discípulos, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e o próprio Fernando Pessoa. Grande número de poemas de “O Guardador de Rebanhos” teria sido escrito no famoso dia 13 de Março de 1914.

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