SANT’ANA DO LIVRAMENTO – por Rachel Gutiérrez

Sant’Ana, para mim, nunca foi do Livramento, será sempre a Sant’Ana da velha casa da Rua dos Andradas, onde nasci, onde vivi os anos mágicos da infância e comecei a descobrir o mundo, um mundo cada vez mais vasto depois que tive acesso à biblioteca de meu pai.

Sant’Ana é a Praça General Osório, com a Igreja Matriz, com o coreto que um dia se transformou em obelisco; é “a linha” que se fez Parque Internacional;Sant’Ana com sua irmã Rivera, desde sempre igual e diferente, que nos limita e expande ao mesmo tempo.

Ser da fronteira já é trazer no sangue a viagem e a descoberta, o olhar atento ao outro e o prazer da novidade. É trazer no sangue o gosto de partir, mas Sant’Ana permanece como um marco na colina, que anuncia o longe e protege o vale. Meu pai me ensinou a apreciar seus belos arredores, sua topografia e as infinitas nuances de seu verde. Seu céu tantas vezes de um azul puríssimo, despejado, provocava numa velha amiga a vontade de ser pássaro.

Plantada no vale, suas antigas casas baixas parecem brotar da terra, dessa terra que produz a riqueza e alimenta sua vida elementar e simples. Mas Sant’Ana também é fantasia: é o jogo e suas histórias, o Cassino, o comércio, a aventura; o dia febril e a noite boêmia; sua hora da sesta e suas festas e bailes.

De repente, com os olhos da memória sou uma câmera e filmo duas figuras lúdicas, quase patéticas: um homem de fraque que toca uma flauta pelo meio da rua e, alguns passos atrás, sua companheira vestida de bailarina. Fazem “reclame” das Casas Pernambucanas. Posso ouvir o som da corneta de guampa e o velho refrão do Pinga: “Mocotó com leite, dá força e dá vigor…” e sinto que a criança em mim ainda vive encantada, à sombra dos cinamomos da Rua Silveira Martins, ou de bicicleta, respirando fundo o cheiro dos eucaliptos ( como sempre recomendava minha mãe) na estrada do Armour. Eis-me de novo menina aprendendo a nadar, no açude do Wilson, ou tocando piano na “Audição”, sob os olhos e ouvidos atentos e nervosos de D.Alice e de D.Maria.

Sant’Ana inclui o Gran Cine Américacom suas intermináveis matinês, que ainda alongávamos ficando para a SesiónVermouth.

Sant’Ana são tantos amigos mortos! Os apaixonados por música: Luis Alberto Serralta, o Dr. Ciro Menna e o Carlos Vidal. Roque Pastore, que sabia assobiar tantas árias de óperas. E o General Malta, revezando-se ao piano com o delegado, que quanto mais bebia melhor tocava. Meu pai e o General tocando “Apanhei-te Cavaquinho” a quatro mãos. O churrasco sob a parreira, risos, vozes alegres e o Tabu, o lindo collie que se comprazia em assustar os passantes, no portão.

Sant’Ana cresceu e transformou-se. Há estradas novas, ruas novas – uma delas tem agora o nome de meu pai – , casas e prédios que eu não podia imaginar. Às vezes passo longos anos sem visitá-la, mas quando volto, o aconchego das casas amigas e o carinho dos que me recebem tornam a visita uma celebração e uma festa.

Por tudo o que Sant’Ana significa para mim, serei sempre grata a uma falha do microfone, no Palácio do Comércio, quando Pama, a amiga maior, me “apresentou” ao público que foi me prestigiar numa palestra e lançamento de meu primeiro livro, em novembro de 1985. Eu acabara de dizer: “Aqui, em Sant’Ana, não sou a escritora nem a conferencista, sou a filha do Arthur e da Ondina…”. Felizmente, o som falhou permitindo que eu controlasse as lágrimas e que tudo voltasse a ser calmo naquele alegre reencontro.

abril, 1987.

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