
Há quem defenda que todos os estados, todas as fronteiras políticas, são artificiais. É um ponto de vista respeitável e que se ajusta às ideias mais progressistas – o internacionalismo proletário, a união de todos os explorados… Após a Comuna de Paris, em 1870, houve um avanço do internacionalismo, sendo quase consensual que o socialismo só podia triunfar se generalizado – coisa que a História, de certo modo, confirmou pela negativa. O socialismo não triunfou em coabitação com o capitalismo – a Guerra Fria foi ganha pela poderosa internacional dos interesses capitalistas. E a crise que o sistema atravessa parece ser uma implosão, um apodrecimento da estrutura de um modelo económico que desencadeado há cinco séculos pelos Descobrimentos, parece ter atingido um ponto crítico.
Já tenho ouvido defender estados artificiais como o estado espanhol, por exemplo (e é o exemplo que mais nos toca), com esse argumento – “todos os estados são artificiais”. É uma falácia, pois podemos desejar que, um dia, as fronteiras desapareçam e apenas haja um estado chamado Planeta Terra, mas isso não nos impede de reconhecer que neste ano de 2013 esse desiderato é uma utopia. Charles Fourier, o ideólogo dos falanstérios, dizia que só pode amar a Humanidade em geral quem exprime esse amor, amando uma pessoa em particular. Eu diria que só pode sentir o internacionalismo quem ama o seu povo, a sua cultura e preserva a sua independência.
O estado espanhol é uma herança de um nacionalismo tacanho e repressivo, integrista, católico, no pior sentido de todos estes termos. Em artigo que publicamos amanhã, Josep Vidal conta-nos como uma dignitária do estado se associou a uma homenagem à Divisão Azul. Como se sabe, a Divisão Azul foi um corpo militar enviado por Franco para lutar ao lado dos nazis. Como é possível? Como pode um estado democrático celebrar gente que ostentou a suástica e lutou pelo III Reich?
O PP de Rajoy é um herdeiro da Falange, como o PSD de Coelho (e de Cavaco) é um herdeiro da ala liberal do partido único salazarista. Felizmente, aqui a escória fascista, que existe, não está tão à vontade. Não houve aqui o descaramento de criar uma Fundação Salazar, enquanto aqui ao lado, existe uma Fundação Francisco Franco. Ou seja, gente que nega a democracia e condena os direitos que ela concede, usa esses direitos para exaltar o seu ideal obscurantista. Usa a luz para voltar às trevas.
Não sabemos se a maioria dos catalães, bascos e galegos querem ser independentes e essa é uma condição para que a independência seja possível em cada uma dessas nações. E para que essas maiorias existam, é preciso que os povos tomem consciência da sua identidade, se orgulhem da sua cultura e da sua história. Nesse caminho, o papel da língua e da literatura, é central. É uma luta permanente. Hoje, Dia das Letras Galegas, damos o nosso modesto contributo para essa luta e saudamos os irmãos galegos, desejando-lhes que a sua vitória sobre o centralismo não tarde.

Gostei muito do que acabei de ler.
Sempre defendi que a cada Nacionalidade deve corresponder um Estado com representação plena na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O caso português posterior à Descolonização – uma só Nacionalidade num só Estado – deve ser defendido como o melhor dos exemplos da organização política dos Estados.Hoje em dia reconhecer a validade das velhas ocupações militares ou dos inaceitáveis direitos ditos dinásticos a que foram sujeitas imensas Nacionalidades europeias deve ser considerado atentatório da Democracia, logo da Paz.
No que não consigo dar-te o meu acordo é na condição dum prévio plebiscito para saber qual a vontade da população. As Nacionalidades que foram oprimidas não precisam de fazer consultas e, mesmo se tiver crescido uma onda maioritária de colaboracionistas a insistência numa restauração não precisa de consulta a quem quer que seja. A alienação não merece excessos de consideração.
Em 1640, depois de sessenta anos de ocupação, teria sido necessário que os Conjurados fizessem um inquérito antes de atacar?
A Assembleia Nacional Francesa, em 10 de Julho de 41, declarou morta a Terceira República e Pétain inventou um estado fantoche em Vichy. O General De Gaulle, antes de rebelar-se, deveria ter feito um inquérito à opinião pública francesa? Os revoltosos da Tétchenia (?) têm a maioria da população do seu lado? Fará falta?
As zonas do mundo que não conhecem a Democracia têm sido condenadas pelas opiniões públicas duma grande parte da população mundial que exige ver revogada qualquer outra modalidade que não democrática de entender a governação, porém, quando quaisquer Nacionalidades, por infelicidade, não conhecem o direito natural de não serem Independentes, escreves tu, vão precisar saber quais os apetites duma maioria.
Portugal, face à sua História mais recente, tem obrigação de defender activamente o desmembramento das várias ficções estatais que abundam pelo mundo – na Europa de sobremaneira – e estar na defesa extreme de todas e quaisquer independências.O verdadeiro internacionalismo exige que queiramos para as outras Nacionalidades o mesmo que queremos para a nossa. Este conglumerado de estados que infesta a Euroa dos nossos dias só tem mostrado quanta infelicidade tem trazido às populações. É que na Europa há “Cem Bandeiras”. Abração do CLV
Meu Caro Leça da Veiga, compreendo e, de certo modo, concordo – os princípios não devem ser referendados. Mas, vamos suopor, que um dado povo, de uma nação subjugada por outra, prefere manter a situação de dependência (maquilhada sob a designação de federalismo ou algo semelhante) a ser totalemnte soberana? Vamos supor que há 20% de independentistas, 30% de indiferentes e 50% de «federalistas» e que os votos expressos são maioritariamente pela «federação»? Num caso destes, com que direito e em nome de que princípio se podia optar pela independência total? Que mecanismos existiriam para impor esse princípio correcto? E quem decide o que é correcto? Não vejo outro caminho senão o da luta cultural, transformando os «federalistas» (continuo a usar o modelo hipotético) em independentistas, através de um esforço persitente de consciencialização dos valores culturais e históricos. O orgulho nacional não pode ser imposto. A Europa das cem bandeiras também tinha estados artificiais.