A POESIA GALEGA – por Celso Emilio Ferreiro

Hoje, Dia das Letras Galegas, parece-nos importante recordar esta comunicaçãoImagem1 apresentada pelo poeta Celso Emilio Ferreiro no Congresso “40 anos de  poesia em Espanha: entre realismo e vanguarda”, organizado pela Bienal de Veneza de 1976, e depois publicada pela revista “Vértice”, 1ª. série, nº 390-391, de Setº- Outº de 1976). A Celso Emilio Ferreiro (1912-1979) foi dedicado o Dia das Letras Galegas de 1989. Esta comunicação foi-nos enviada por Manuel Simões que conheceu pessoalmente o grande intelectual que foi Celso Emilio Ferreiro.

Para falar da poesia galega – tão escassamente difundida fora do seu âmbito linguístico – convém começar por um pequeno prólogo que permita ao leitor, não familiarizado com o tema, interpretá-lo com um mínimo de conhecimentos históricos.

Galiza é uma das terras de  mais acusada personalidade da marca hispânica. Um pequeno país finistérrico, protagonista de grandes feitos, entre os quais se destaca o de ter germinado a lenda de Santiago Apóstolo, enterrado ali e cujo mito produziu as grandes peregrinações medievais que mudaram o conceito de Europa. Como têm reconhecido ilustres historiadores, não existe em todo o Ocidente um fenómeno religioso que tenha provocado repercussões políticas e sociais semelhantes às que produziu a crença de que num vale galego – que depois se chamaria Compostela – jazia sepultado um discípulo de Jesus. A Europa, repito, nasceu peregrinando a Compostela.

No chamado “caminho francês” surgiram as lendas épicas do ciclo carolíngio. As peregrinações foram as vias de penetração cultural mais importantes daqueles tempos. Ser peregrino era um título ilustre e somente podia chamar-se assim quem viajava até à Galiza, como afirma Dante em Vitta Nuova («In modo stretto, nos s’intende peregrino, se non va verse la casa di Santo Jacopo, e riede»); e quando o poeta descobre no Paraíso a figura do Apóstolo, exclama: «mira, mira ecco el barone per cui laggiù si visita Galizia…». Mas a história da Galiza começa muitos séculos antes. Se a história de um povo se inicia quando o seu nome aparece escrito pela primeira vez num texto, temos que reportar-nos aos tempos de Políbio, Possidónio e Estrabão que falaram do solar galego e dos “Kallacoi”. E se aceitarmos a tese de alguns eruditos que identificam as ilhas Cassitérides com as que enfeitam a costa atlântica galega, então a primeira menção de Galiza refere-se ao século VI, antes da nossa era, e aparece no poema “Ora Marítima” de Rufo Festo Avieno que relata um périplo do navegante Eutimenes. Pois bem, este pequeno país possui uma língua e uma literatura próprias.

Uma língua que, com o catalão e o castelhano, forma os três idiomas hispânicos filhos do Lácio. Uma língua muito antiga. Hoje sabemos que houve uma lírica espanhola, cujos restos conservados nas jaryas das moaxás hebraicas de fins do século X são cantigas moçárabes procedentes de  uma língua primitiva muito semelhante ao galego… Foi seu antecedente? Não o sabemos, quer dizer, não o sei eu, mas sabe-se que a língua galaica teve uma época de preponderância sobre as que se estavam forjando coetaneamente nas marcas ibéricas. A afirmação de Menéndez Pelayo ao dizer que «o primeiro instrumento do lirismo peninsular não foi a língua castelhana, nem tão-pouco a catalã, mas a língua que, indiferentemente para o caso, podemos chamar galega ou portuguesa», não é mais do que uma repetição do que no século XVI escreveu o marquês de Santilhana na sua tão citada carta ao Condestável de Portugal: «Aqueles declamadores e trovadores, quer fossem castelhanos, andaluzes ou da Estremadura, compunham todas as suas obras em língua galega ou portuguesa». Esta língua, que D. Julio Cejador classificou de «dulcíssima como nenhuma outra da península», não é um dialecto, como vulgarmente se entende no sentido inculto de fala corrompida e atrasada; nem tão-pouco o é no mais científico de língua viva sem cultivo literário, pois tem-no e muito ilustre: quando a língua castelhana começava a dar os seus primeiros balbucios, a Galiza já cantava na sua, através deses monumentos da literatura universal que se chamam cancioneiros da Vaticana, Ajuda e Colocci-Brancuti.

O uso literária desta língua durou até ao século XV, no fim do qual decaiu como instrumento literário (não como língua falada entre os galegos) para voltar a ressurgir nos começos do séc. XIX, ainda que totalmente alheia à tradição medieval por se desconhecer então a sua existência, uma vez que ainda não tinham sido descobertos os cancioneiros. Devemos este ressurgimento ao Romantismo que propiciou o florescimento da poesia galega contemporânea ao favorecer a reabilitação literária de uma língua que era o produto espontâneo do espírito colectivo de um povo perfeitamente diferenciado. Como a Provença e a Catalunha, o Romantismo deu o impulso definitivo para pôr de pé a consciência da língua própria e tornar realidade a consolidação de uma nova literatura.

Ao chegar aqui, cabe explicar algo verdadeiramente curioso que ocorre com o uso da língua no contexto social da Galiza. Ao desvanecer-se a sua preponderância, a língua galega ficou vinculada quase exclusivamente aos camponeses que formavam 80 por cento da população. Sobreviveu também na classe média e na pequena burguesia das vilas de formação rural. Os demais componentes sociais do país – poucos em número, mas poderosos – desertaram da cultura autóctone por considerá-la degradada e imprópria de gente elevada, passando-se para a língua castelhana, sinónimo de riqueza, posição social e elegância; quer dizer, de todos aqueles valores que o capital determina. Por isso o fenómeno de anexação começa pela cultura. Quando um galego-falante abandona a sua classe por ter melhorado o seu status económico, a primeira coisa que faz é desprender-se do idioma que lhe era habitual. Como o castelhano, como disse, pressupõe a língua das classes superiores, o traidor crê que frequentando esta língua ascende de categoria e aumenta a sua qualificação social. Em termos gerais, pode dizer-se que a fronteira social-classista é delimitada, em primeiro lugar, pela fronteira idiomática, fenómeno singular que não se repete na Catalunha nem no País Basco, donos também de culturas e línguas próprias.

Esta situação já existia, mais ou menos, quando os nossos três grandes do século passado (Rosalía de Castro, Curros Enríquez e Eduardo Pondal) decidiram converter em instrumento de arte esta língua proletarizada. Ontem, como hoje, escrever em galego significa assumir uma atitude que implica, desde logo, uma maneira de entender a cultura e a realidade espanholas como um todo plural e multiforme. Por outro lado – e isto é necessário tê-lo em muita conta – o idioma galego não é apenas apto para trazer por casa. É uma língua que nos permite o entendimento e comunicação com mais de cem milhões de homens porque é a mesma que, com pequenas variantes, se fala em Portugal, no Brasil e nos países africanos de expressão portuguesa.

Tem-se dito que a nota característica da poesia galega é o lirismo. Tal afirmação é, pelo menos, um tanto discutível. Se aceitarmos que a poesia lírica é aquela em que predomina o subjectivo sobre o objectivo, o sentimento sobre o pensamento e o intimismo individualista sobre a solidariedade, é necessário convir que esta interpretação desconhece o facto de uma grande parte – e não a menos valiosa, certamente – da poesia galega nascer no campo da problemática e não participar em absoluto dos pressupostos líricos, entendidos como alheios ao mundo dos conflitos sociais.

Por outro lado, se admitirmos que, ao longo da sua trabalhosa vida, a Galiza nunca foi um país edénico mas um “habitat” hostilizado pela história, devemos aceitar que a tese do lirismo como único valor que define a poesia galega significa, de algum modo, uma acusação de frivolidade contra poetas supostos capazes de tocar a cítara neutral, indiferentes às atribulações do seu povo. A inexacta definição dos pro-líricos está sobejamente desmentida pelo facto histórico de que a beligerância e a pugnacidade já brotam – logo depois da formação da língua literária – nos cancioneiros anteriormente aludidos.

Com efeito, as cantigas de escárnio e maldizer medievais representam já uma amostra protestatária onde se distingue o sentimento dos explorados contra os poderosos, revelando as misérias dos senhores, as necessidades dos fidalgos e o escasso espírito cristão das dignidades eclesiásticas. E em Rosalía encontramos a rebeldia suscitada por situações injustas, rebeldia assumida deliberadamente, que até raciocina e justifica no prólogo de Follas Novas, ao dizer que o poeta não deve prescindir do meio em que vive nem da natureza que o rodeia, nem ser alheio ao seu tempo, nem deixar de reproduzir a eterna queixa «que exala o nosso povo». Atitude que, numa forma muito mais beligerante e categórica, também assume Curros e depois Cabanillas, com todos os seus seguidores e epígonos, numa tradição que chega até aos nossos dias.

A poesia aparecida depois de 1936 está em parte implicada no novo conceito de problemática e da linguagem, mas também, na sua totalidade, nos  pressupostos da anterior porque a realidade que lhe serve de fundo contém elementos de fixação que não diferem, senão aparentemente, dos que afectaram os poetas precedentes. A atmosfera é a mesma e, por conseguinte, não se configura um divórcio agudo entre o movimento actual e a tradição que, como ficou dito, significa uma identificação, digamos visceral, com a terra e o seu destino.

Equivocar-se-á profundamente aquele que, para julgar a poesia actual da Galiza – e a poesia galega de todos os tempos –, recorrer ao fácil procedimento de compará-la com a que produzem os poetas de Paris, Barcelona ou Madrid, porque, como muito bem disse María Victoria Moreno, «se a literatura galega dos séculos XIII e XIV representava uma fisionomia peculiar em relação ao resto das literaturas europeias, isto mesmo a caracteriza quando ao despertar do seu silêncio (séc. XIX) o faz entroncando consigo mesma, quer dizer, com a sua temática ancestral: culto da natureza, amor, solidão, denúncia social… Isto é o que, “mutatis mutandis”, se viu na Idade Média, se viu no Romantismo e se vê na obra dos poetas actuais».

Pode afirmar-se que a poesia galega, mais do que preocupar-se em estar em dia com as correntes modernas, se preocupa, sobretudo, em corresponder ao clima histórico, social e linguístico da Galiza e em ser uma resposta válida ao seu presente, que está muito longe de ser edénico.

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