DESLUMBRAMENTO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Eu, João Ramalho, nasci em Vouzela. Despeço-me de Catarina, a minha esposa, e parto para Lisboa. O motivo? Padre: essa é matéria que não vem ao caso. Pecados, se os cometi, foi aqui e não em Portugal, e pecados é o que devo confessar. Abalo de Vouzela, coração apertadinho… Suponho, e bem, que nunca mais tornarei a ver a Catarina, pois o meu destino é o Brasil tão distante. Mas, ao chegar a Lisboa, logo me animo. Não só por causa das novas da expedição de Fernando Noronha que, esse sim! veramente cristão-novo e mercador, o que não obstou que El-Rei D. Manuel, o Venturoso, lhe tivesse arrendado as terras de Vera Cruz desde 1502 a 1505 para o abate e recolha de pau-brasil, então muito procurado para a tingidura de panos. E foram 20 mil quintais que renderam 5 por 1. Pensei que o nome do pau-brasil lhe viesse da cor de brasa, mas um marinheiro bretão, com quem fiz amizade, conta-me que na sua terra, e na sua língua, corre a antiga lenda que O’brazil é o nome verdadeiro da Ilha do Paraíso, e que tinham sido os afortunados portugueses a descobri-la, e por isso está ele em Lisboa na esperança de poder ser engajado numa viagem ao Paraíso.  

Arribo a esta costa do Brasil em 1511, talvez em 12, ou 13, não sei ao certo, com tantos anos em cima do lombo a memória já me vai falhando. Bem acolhido sou por António Rodrigues, o degredado português a quem todos chamam, ou chamavam, o “bacharel de Cananéia”, e que há muito tempo vive entre os índios tupiniquins da beira da praia. Apadrinha-me e logo me parece que demandei veramente o Paraíso pois, ao acolherem-me, os índios começam por me dar mulher nova, escorreita e muito limpa, e eu estou na casa dos 20 anos, deslumbramento…

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