Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Thatcher disse que nós estamos sem alternativas — o progresso exige que provemos que ela estava errada
Autor: Fabius Maximus
Parte I
Resumo: As pessoas na periferia da Europa estão a sofrer com a falta de alternativas. Isso leva-os a duas terríveis alternativas : sofrer anos de austeridade (e sem nenhum fim à vista) ou protestar inutilmente (talvez o niilismo). Na verdade, o Ocidente como um todo está perante uma falta de alternativas. Aqui vamos discutir esse problema e mostrar as possíveis soluções.
Conteúdo
1. A importância das alternativas
2. Nós ansiamos por mudança. E nós queremos …
3. O que vem a seguir?
4. Para mais informações
(1) A importância de alternativas
“Não há nenhuma alternativa”.
” Cada sociedade tem as suas leis, ou não as tem. Se as não tiver, não pode haver nenhuma ordem, nenhuma certeza, nenhum sistema que se descortine nas suas práticas. Se as tem, então elas são como as outras leis do universo—seja-se inflexível, sempre activo e não haver excepções. “
— Herbert Spencer Social Statics (1851), foi ele que lançou as bases para o conservadorismo moderno. Ele também terá sido o autor da frase “a sobrevivência do mais apto”, em 1864.
“Porque realmente não há nenhuma alternativa.”
— Slogan criado pela antiga primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher, sobre a necessidade de adoptar medidas económicas neoliberais e conservadoras para a manutenção do capitalismo.
A evolução social anda muito mais rápido do que a evolução darwiniana por causa do seu caracter teleológico. Quando as pessoas têm em perspectiva uma sociedade melhor, por vezes, elas estão dispostas a arriscarem-se em grandes e rápidas mudanças para a alcançar. Mas isso requer uma alternativa que lhes pareça melhor do que o que elas têm, que ela seja atingível e seja praticável. Caso contrário o progresso em termos políticos evolui muito lentamente ou estagna por completo. Por exemplo, as monarquias funcionaram muito mal na Europa durante o milénio em que elas foram a forma política dominante. Havia alternativas (por exemplo, a República de Veneza, a Confederação Suíça), mas não foram consideradas realistas por uma suficientemente grande combinação de elites e das massas. Várias estruturas de crenças impediram a experimentação com outras formas de política.
- Uma crença de que a sociedade é um todo orgânico, como um corpo, com órgãos diferenciados (como se descreve na peça de Shakespeare Coriolano 1. 95-156).
- O comportamento dos romanos era o de obedecer incondicionalmente aos governantes.
- O direito divino dos Reis.
O potencial para fazer cair estes regimes veio com a grande influência que ao longo de muitos anos exerceu o trabalho filosófico que começa com o Príncipe de Maquiavel e com Leviathan de Thomas Hobbes (veja-se Wikipedia) em 1651. Uma vez o primeiro regime caído em 1783, o processo evolutivo acelerou-se a uma velocidade fantástica — com a maioria das monarquias a serem substituídas nos 140 anos seguintes.
O desenvolvimento do marxismo (e dos seus sucessores) acelerou de novo o ritmo da evolução social, de tal forma que o conflito entre diferentes formas sociais banhou todo o século 20 em sangue e numa uma escala que raramente se viu em toda a história. O resultado deu um vencedor claro: várias combinações de capitalismo de livre mercado e de democracia representativa (cada com uma grande variedade de formas). Várias lutas são ainda travadas na retaguarda e até mesmo com alguma intensidade, como por exemplo a luta entre cristãos evangélicos e os muçulmanos salafistas – mas a sua dificuldade em lidar com a modernidade dá-lhes baixas probabilidades de ganhar o poder.
Mas o que acontece à medida que as contradições e as falhas se acumulam nas repúblicas do mercado livre? Em que direcção é que aponta a seta da evolução ? Qual é o modelo político que irá motivar e direccionar a reforma social?
(2) Nós ansiamos pela mudança. E nós queremos
… “O que podemos estar a testemunhar não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a passagem de um período particular da história do pós-guerra, mas o fim da história como tal: isto é, o ponto final quanto à evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma final de governo humano “.
– “O Fim da História?”, Francis Fukuyama, The National Interest, Verão 1989
“”Pense sobre a estranheza da situação de hoje. Há quarenta anos atrás, nós estávamos a debater o que seria o futuro: comunista, fascista, capitalista, o quer que seja. Hoje, ninguém debate estas questões. Nós silenciosamente aceitámos que o capitalismo global está aqui e que está para ficar. Por outro lado, estamos obcecados com catástrofes cósmicas: toda a vida na Terra que se poderia desintegrar simplesmente por causa de algum vírus, um asteróide que pode atingir a terra, e assim por diante. Por outras palavras, o paradoxo é que é muito mais fácil imaginar o fim da vida na Terra do que uma bem mais modesta mudança radical do capitalismo. “
– Slavoj Žižek em Žižek! (2005 documentário)
Desejamos que os nossos sistemas políticos e sociais possam funcionar melhor, mais honesta e mais eficientemente. Desejamos que funcionem melhor do que no passado, melhor do que eles possam provavelmente funcionar no mundo real. Mas como é que se podem fazer essas reformas?
•Algumas pessoas procuram as reformas através das reformas religiosas (por exemplo, libertários, a olharem para o dia em que as pessoas possam viver em paz e prosperidade sem governo).
• Alguns procuram as transformações políticas simples, quase mágicas (por exemplo, a Convenção Constitucional, em que pessoas bem pensantes esperam por em prática o que eles não conseguem través da política convencional).
• Alguns procuram um líder para conseguir as mudanças que nós não podemos entrever , através do carisma dele (ou dela) para superar os problemas para os quais – eles que não jogam xadrez – não são capazes de encontrar uma solução. Este estado de espírito leva a desejarem situações que são irrealistas e, em seguida, são sujeitos a grandes desilusões. A esquerda está no meio deste processo com Obama, esperando que com o seu segundo mandato ele revele a sua verdadeira dimensão política (como o Partido republicano antecipou mas prevendo um resultado que está totalmente errado).
• Outros desesperam e falham nas suas responsabilidades políticas como cidadãos (participando apenas através dos protestos).
