REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Thatcher disse que nós estamos sem alternativas — o progresso exige que provemos que ela estava  errada

Autor: Fabius Maximus

Parte I 
Resumo: As pessoas na periferia da Europa estão a sofrer  com a falta de alternativas. Isso leva-os a  duas terríveis alternativas : sofrer anos de austeridade (e sem nenhum  fim à vista) ou protestar  inutilmente (talvez o niilismo). Na verdade, o Ocidente como um todo está perante  uma falta de alternativas. Aqui vamos discutir esse problema e mostrar as possíveis soluções.

Conteúdo

1. A importância das alternativas

2. Nós ansiamos por  mudança. E nós queremos …

3. O que vem a seguir?

4. Para mais informações

 (1) A importância de alternativas

“Não há nenhuma alternativa”.

” Cada  sociedade tem as suas leis, ou não as tem. Se as não tiver, não pode haver nenhuma ordem, nenhuma certeza, nenhum sistema que se descortine nas suas práticas. Se as tem, então elas são como as outras leis do universo—seja-se   inflexível, sempre activo e não haver  excepções. “

— Herbert Spencer Social Statics (1851), foi ele que lançou as bases para o conservadorismo moderno. Ele também terá sido o autor da frase  “a sobrevivência do mais apto”, em 1864.

“Porque realmente não há nenhuma alternativa.”

—  Slogan criado pela antiga primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher, sobre a necessidade de adoptar medidas económicas neoliberais e conservadoras para a manutenção do capitalismo.

A evolução social  anda  muito mais rápido do que a evolução darwiniana por causa do seu caracter teleológico.  Quando as pessoas têm em  perspectiva uma sociedade melhor, por vezes, elas estão  dispostas a arriscarem-se em  grandes e rápidas mudanças para a alcançar. Mas isso requer uma alternativa que lhes pareça  melhor do que o que elas têm, que ela seja atingível e seja  praticável. Caso contrário o progresso em termos  políticos  evolui muito lentamente  ou estagna  por completo. Por exemplo, as monarquias funcionaram muito mal na  Europa durante o milénio em que elas foram a forma política dominante. Havia alternativas (por exemplo, a República de Veneza, a Confederação Suíça), mas não foram consideradas realistas por uma suficientemente grande combinação de  elites e das  massas. Várias estruturas de crenças impediram  a experimentação com outras formas de política.

  • Uma crença de que a sociedade é um todo orgânico, como um corpo, com órgãos diferenciados (como se descreve na peça de  Shakespeare Coriolano 1. 95-156).
  •  O comportamento dos romanos era o de obedecer incondicionalmente aos governantes.
  •  O direito divino dos Reis.

O potencial para fazer cair estes regimes  veio com a grande  influência que ao longo de muitos anos exerceu  o trabalho filosófico que começa com o Príncipe de Maquiavel e com Leviathan  de  Thomas Hobbes (veja-se Wikipedia) em 1651. Uma vez o primeiro regime caído  em 1783, o processo evolutivo acelerou-se a uma  velocidade fantástica — com a maioria das monarquias a serem substituídas nos  140 anos seguintes.

O desenvolvimento do marxismo (e dos seus sucessores) acelerou de novo o ritmo da evolução social, de tal forma  que o conflito entre diferentes formas sociais banhou todo o século 20 em  sangue e numa  uma escala que raramente se viu em toda a  história. O resultado deu um vencedor claro: várias combinações de capitalismo de livre mercado e de democracia representativa (cada  com  uma grande variedade de formas). Várias   lutas são ainda travadas na  retaguarda e até mesmo com  alguma intensidade, como por  exemplo a luta entre cristãos evangélicos e os muçulmanos salafistas –  mas a sua dificuldade em lidar com a modernidade dá-lhes baixas probabilidades de ganhar o poder.

Mas o que acontece à medida que as contradições e as falhas se acumulam nas repúblicas do mercado livre? Em que direcção é que aponta a seta da evolução ? Qual é o modelo político que irá motivar  e direccionar a reforma social?

 (2) Nós ansiamos pela mudança. E nós queremos

… “O que podemos estar a testemunhar  não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a passagem de um período particular da história do pós-guerra, mas o fim da história como tal: isto é, o ponto final quanto à evolução ideológica da humanidade e a universalização da democracia liberal ocidental como forma final de governo humano “.

– “O Fim da História?”, Francis Fukuyama, The National Interest, Verão 1989

 “”Pense sobre a estranheza da situação de hoje. Há quarenta anos atrás, nós estávamos a debater o que seria o futuro: comunista, fascista, capitalista, o quer que seja. Hoje, ninguém debate estas questões. Nós silenciosamente aceitámos que o capitalismo global está aqui e que está para ficar. Por outro lado, estamos obcecados com catástrofes cósmicas: toda a vida na Terra que se poderia  desintegrar  simplesmente  por causa de algum vírus, um asteróide que pode atingir a terra, e assim por diante. Por outras palavras, o paradoxo é que é muito mais fácil imaginar o fim da vida na Terra do que uma bem mais modesta mudança radical do capitalismo. “

– Slavoj Žižek em Žižek! (2005 documentário)

Desejamos que os nossos sistemas políticos e sociais possam funcionar melhor, mais honesta e mais eficientemente. Desejamos que funcionem melhor do que no passado, melhor do que eles possam provavelmente funcionar no  mundo real. Mas como é que se podem fazer essas reformas?

•Algumas pessoas procuram as reformas através das reformas religiosas (por exemplo, libertários, a olharem para o dia  em que as pessoas possam viver em paz e prosperidade sem governo).

• Alguns procuram as transformações políticas simples, quase mágicas (por exemplo, a Convenção Constitucional, em que pessoas bem pensantes esperam por em prática  o que eles não conseguem través da política convencional).

• Alguns procuram um líder para conseguir as mudanças que nós não podemos entrever , através do carisma dele (ou dela) para superar os problemas para os quais – eles que não jogam xadrez – não são capazes de encontrar uma solução. Este estado de espírito leva a desejarem situações que são irrealistas  e, em seguida, são sujeitos a grandes desilusões. A esquerda está no meio deste processo com Obama, esperando que com  o seu segundo mandato ele revele a  sua verdadeira dimensão  política (como o Partido republicano antecipou  mas prevendo um  resultado que está totalmente errado).

• Outros desesperam e falham nas suas responsabilidades políticas como cidadãos (participando apenas através dos protestos).

(continua)

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