Mia Couto é o vencedor da 25.ª edição do prémio, que distingue um autor da literatura portuguesa. O Prémio foi criado em 1988 por Portugal e pelo Brasil para distinguir um autor de língua portuguesa que, “pelo valor intrínseco da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum”. Em 1991, outro escritor moçambicano, José Craveirinha, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o mais importante prémio literário da língua portuguesa.
O anúncio do vencedor foi feito ontem, no Rio de Janeiro, onde o júri se reuniu. O júri integrou os escritores José Eduardo Agualusa e João Paulo Borges Coelho, o jornalista José Carlos Vasconcelos, a catedrática Clara Crabbé Rocha, o crítico Alcir Pécora e o embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras Alberto da Costa e Silva. A reunião decorreu no Palácio Gustavo Capanema, sede do Centro Internacional do Livro, Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Em 2012 foi atribuído ao escritor brasileiro Dalton Trevisan e no ano anterior ao escritor português Manuel António Pina. Ferreira Gullar (2010), Arménio Vieira (2009), António Lobo Antunes (2007), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Pepetela (1997), José Saramago (1995) e Jorge Amado (1994) também já foram distinguidos com o Prémio Camões que, na primeira edição, reconheceu a obra de Miguel Torga. Em 2006, o escritor angolano José Luandino Vieira recusou o prémio.
Ainda no passado sábado dia 25, o argonauta Manuel Simões, Professor jubilado de Língua e Literatura portuguesa numa nota sobre a literatura moçambicana, dizia: «Já depois da independência revela-se então o grande romancista Mia Couto, com “Vozes Anoitecidas” (1986) e “Cronicando” (1987), a que se seguiu uma série de obras que o impuseram como autor de dimensão verdadeiramente internacional».
http://aviagemdosargonautas.net/2013/05/25/nota-sobre-a-literatura-mocambicana-por-manuel-simoes/

Perguntas à língua portuguesa*
Mia Couto
Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Meu anjo-da-guarda, felizmente, nunca me guardou.
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Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocámos essoutro português – o nosso português – na travessia dos matos, fizemos com que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
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