MULHERES – A VIOLÊNCIA CONTINUA – 3 – por Rachel Gutiérrez

(Continuação)

É desse pesadelo que as norte-americanas querem despertar

Imagem1Artigo VII Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Como se não bastassem tantas notícias estarrecedoras sobre adolescentes ou mulheres adultas vítimas de violência e de abusos sexuais em tantos lugares do mundo, eis que no dia 8 de fevereiro de 2013, o correspondente da Al-Ahram Weekly e do jornal O Globo, do Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Rasheed Aboualsamh, comenta em longo artigo as notícias sobre um xeque da Arábia Saudita que estuprou e torturou a própria filhinha, Lama, uma criança, causando-lhe a morte. Divorciado da mãe da menina, uma egípcia, o xeque ficou com a guarda da criança, que passou a espancar com “fios elétricos e cabos de metal, além de estuprá-la”. Diante de tais notícias, sentimos vergonha de pertencer a esta espécie chamada humanidade. “A tortura de Lama durou meses até que o pai”, Fayan al-Ghamdi, “precisou levála para um hospital para tratamento de suas feridas.

Ela ficou na UTI do hospital por oito meses. Morreu em outubro de 2012, em consequência dos ferimentos. Tinha apenas cinco anos.” Fayan só ficou preso quatro meses e, uma vez solto, um juiz declarou que não podia condená-lo à morte, como se imaginou que aconteceria, “por causa de sua interpretação de um Hadith (ensinamento do profeta Maomé) que diz que pais não podem ser 19 mortos por matarem seus próprios filhos”.

E na Arábia Saudita, onde a lei permite que um assassino pague uma indenização à família da vítima para se livrar da pena de morte, bastou ao xeque Fayan al-Ghamdi pagar 50 mil dólares à mãe de Lama para que tal sentença não o atingisse.

Apesar do clamor público e dos esforços de duas ativistas sauditas, uma das quais, Manal al-Sharif, ficou conhecida no mundo por liderar uma campanha pelo simples direito das mulheres de dirigir carros, nada mudou ainda no país cuja lei de tutela mantém as mulheres na condição de menores perante a lei e as submete aos “cuidados” falocráticos do “parente masculino mais próximo, seja ele pai, irmão, esposo ou filho homem”.

É desse pesadelo que as mulheres da Arábia Saudita precisam despertar.

Artigo V – Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

E na África do Sul, segundo notícia do dia 9 de fevereiro de 2013, do canal de TV norte-americano CNN, a cada quatro minutos uma mulher é estuprada, o que atinge 71% da população feminina. E um em cada quatro homens já estuprou alguma mulher, sendo que de cada sete, um já tomou parte em grupo de estupradores. A Agência Reuters noticiou também que nesse dia, em Johannesburgo, centenas de homens e mulheres sul-africanos compareceram ao funeral de uma jovem de 17 anos brutalmente estuprada e assassinada. Numa pequena cidade do Cabo Ocidental, Anene Booysen foi encontrada, por guardas da segurança, mutilada e abandonada perto de sua casa. “Seu estômago fora cortado até os genitais” e os médicos do hospital para onde foi levada não conseguiram salvá-la.

Antes de morrer, porém, Anene foi capaz de identificar um de seus malfeitores e o irmão dela declarou que mantinha relações de amizade com o suspeito: “éramos como irmãos”!

É desse pesadelo que as mulheres da África do Sul têm urgência de despertar.

O presidente Jacob Zuma, que se disse muito chocado e indignado, exigiu as sentenças máximas para os assassinos e sugeriu que se organize uma campanha “para dar fim a essa praga em nossa sociedade”.

Lindiwe Mazibuko, uma jovem líder parlamentar da oposição, que pertence à Aliança Democrática, declarou que denúncias não bastam e que as punições insuficientes garantem aos estupradores uma sensação de impunidade, o que os leva à repetição interminável dos crimes. E Debo21 ra Patta, uma repórter, disse, por sua vez à CNN que é urgente uma mudança radical na educação dos rapazes, “que só aprendem a competir e a brigar e não respeitam nada”.

Repitamos o Artigo III da Declaração Universal dos Direitos Humanos: Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

Outras notícias chegam da Irlanda, onde no dia 20 de fevereiro de 2013, o primeiro-ministro Enda Kenny viu-se obrigado a pedir desculpas a milhares de mulheres que foram vítimas de discriminação, exploração e maus tratos. “É preciso remover o estigma das 10 mil mulheres residentes nas lavanderias de Mary Magdalene. Lamento que isso nunca tenha sido feito”, disse Kenny. Entre 1922 e 1996, numa “Irlanda severa e intransigente”, mais de 10 mil mulheres consideradas “imorais”, foram internadas para trabalhar gratuitamente, sendo exploradas como escravas por quatro ordens religiosas, nas lavanderias dos Conventos de Mary Magdalene. As vidas daquelas mulheres foram destruídas pela intolerância e crueldade dessas ordens religiosas que não lhes perdoavam o fato de terem perdido a virgindade, ou de serem mães solteiras, ou simplesmente porque, sendo filhas de pais separados, não tinham quem as protegesse.

É desse pesadelo que as mulheres da Irlanda acabam de despertar.

(Continua)

2 Comments

  1. Segundo li hoje, grupos feministas boicotaram o Facebook dada a tácita cumplicidade que esta rede social demonstrava ao não filtrar conteúdos nocivos que incitavam ao ódio e promoviam a violência de género. O Facebook vai procurar implementar novas soluções de aplicação imediata para “assegurar que tal não volte a suceder na comunidade” virtual. a moderação desses conteúdos e para a denúncia de quem usa a rede para incitar ao ódio. De facto, a natureza humana permanece imutável. O desenvolvimento das ciências e das tecnologias, a erradicação do analfabetismo, o acesso à cultura e à informação, conquistas da Humanidade que faziam pressupor um acréscimo de consciência cívica, de compaixão, de respeito pelo outro, todos esses avanços não conseguem alterar comportamentos de uma crueldade que não se encontra noutras espécies animais, que matam para sobreviver – o homem é o único animal que é cruel pelo prazer de fazer mal. Por isso, é tão importante este livro de Rachel Gutiérrez, este manifesto contra a violência que sobre as mulheres recai, mesmo em países supostamente mais avançados culturalmente. Nunca é demais denunciar esses crimes hediondos.

  2. Outra notícia de hoje, colhida no Expresso online e transcrita sem revisão:

    17:20 Quinta, 30 de Maio de 2013

    Um escritor saudita começou uma campanha através do Twitter para estimular os seus seguidores a molestarem mulheres que trabalhem como caixas em supermercados. Abdullah Mohammed al-Dawood sustenta que, desta forma, elas sentir-se-ão obrigadas a deixar de trabalhar e permanecerão em casa.
    Al-Dawood, que é escritor de livros de autoajuda, possui mais de 98 mil seguidores na rede social. Esta semana, com a hastag #harass_female_cashiers (#moleste_mulheres_caixas, em tradução literal do inglês), começou a campanha que visa manter as mulheres em casa para proteger a castidade.
    O escritor inspirou-se numa antiga e obscura história do islamismo, como relata o “Financial Times”. Um famoso guerreiro chamado Alzubair não queria que a esposa saísse de casa para rezar na mesquita. Então, uma noite, escondeu-se numa rua e molestou-a à sua passagem. Assustada com o ataque e sem conseguir identificar o agressor, e mulher correu para casa e decidiu que não sairia nunca mais, dizendo que “não há lugar mais seguro do que nossa casa e que o mundo lá fora é impuro”.
    Ainda de acordo com o mesmo jornal, a campanha de Al-Dawood dividiu opiniões. Alguns seguidores apoiaram a iniciativa e declararam ser contra a criação de uma lei contra o assédio sexual em locais de trabalho. Um dos seguidores chegou a dizer que uma lei como esta “só incentivaria a libertinagem consensual”.
    Mas também houve quem se levantasse contra a iniciativa de Abdullah Mohammed al-Dawood. A bloguista americana Susie Khalil, que vive na Arábia Saudita e é casada com um cidadão local, classificou a atitude como um retrocesso. No seu blogue , declarou que o escritor “deveria ser preso por promover violência contra mulheres”.
    Durante anos, as mulheres sauditas trabalharam em locais segregados e fechados e só recentemente foram autorizadas a trabalhar em lojas e locais públicos.

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