Continuamos a publicar pequenas peças teatrais escritas por argonautas, trabalhos inéditos, nunca levados a cena. Hoje apresentamos um segundo texto de Hélder Costa, um argonauta que, como dissémos, dispensa apresentações. Depois de “Raquel e Jacob”, de Hélder Costa, de “Palavra de Mulher”, de Rachel Gutiérrez, de “Penhasco”, de Fernando Correia da Silva, de “O Triângulo das Bermudas e o Infinito”, de Sérgio Madeira, vamos hoje começar a ler “ O Abrigo”, de Hélder Costa. Sendo relativamente curto este trabalho, excede a extensão que fixámos para cada post desta rubrica. A organização do espectáculo, dividido em cenas que se podem considerar ter autonomia temática, facilita a segmentação.
O Abrigo
Personagens principais
O animador / cantor
A actriz
O pintor
O Padre
O general
Madame Romy
Manuel Silva
Dr. Rato Tangerina
José Shell
A senhora
O Dr. Juiz
O Papa
VÍDEOS INTERNACIONAIS
. USA
. JAPÃO
. VATICANO
. MAFIA
. SANTA RUSSIA
. ARABES
CANÇÕES / POEMAS
1. Pimba ( animador / cantor)
2. Poema ( actriz)
3. Viva a Cova da Iria (grupo)
4. Fado dos Tristes ( animador / cantor)
5. O Futuro (grupo)
6. Reza a S. Lazaro e Loyola ( colectivo com publico)
(Português) – apresentação
1. ESTAMOS SALVOS
Trata-se de uma espécie de prólogo do espectáculo. Desenvolvimento de acções com o público: alguns escolhidos para identificação, possível imposição de vestuário (capa, por ex.), actores amáveis e solícitos.
Iluminação psicadélica. Som de ficção futurista.
O cenário pode ser o interior de uma caixa metálica com porta central e escadaria para números de music-hall.
Quando o público acaba de entrar, acende-se uma tabuleta “estamos salvos”, começa música revisteira e inicia-se o espectáculo.
2. NÓS SOMOS A RESERVA DO FUTURO
(Música revisteira)
ANIMADOR – Ora muito boa noite (risos), já vejo que tenho aqui velhos amigos… bem, comecemos o show. Dizem que a hora não é de graças, porque há quem fale em desgraças (ri). Mas como a nossa desgraça se transformou em graça… (risos). Sabem que os pretos dormem com dois copos de água à cabeceira… um está cheio, outro está vazio… um é para quando têm sede, o outro é para quando não têm… (risos).
Obrigado, obrigado… gostaria de estar mais tempo convosco, mas the show must go on… o nosso primeiro artista, o êxito do último verão…
(bigode, franja, fica cantor de “charme”)
CANTOR– Muito obrigado a todos, e especialmente para si. O vosso afecto e carinho emociona-me. Principalmente porque foi com esforço que atingi este ponto invejável, o de ser quem vos diverte em horas que, para alguns não serão agradáveis. E a gente não tem inveja deles, pois não? (risos, bravos).
Foi num dia já longo
De solidão
Que o meu corpo sentiu
O calor da tua mão
Foi um arrepio! Foi um arrepio!
Meu ser, meu querer,
Meu prazer,
Querer é poder!
Querer é poder!
A areia e a lua,
E a espuma e o mar
O cardume de peixe,
Você não me deixe,
Você não me deixe!
(Dança, histeria e bravos)
ANIMADOR – Passamos imediatamente ao contacto com outros Abrigos Internacionais. Como sabem, uma nuvem inesperada e misteriosa espalhou-se por todo o planeta, criou epidemias incuráveis e uma verdadeira catástrofe na terra e no mar, eliminando sementeiras, árvores, peixes…no Universo, a fome e a morte.
Padre – tudo isso é castigo Divino.
José Shell – querido senhor padre, Deus não seria tão impiedoso…estamos a assistir a uma selecção da espécie humana de que falava Darwin e que Malthus exigia. Há gente a mais neste mundo. Infelizmente, apesar das razias provocadas pelas doenças mais modernas, a Humanidade continua a crescer, e a Natureza impõe as suas regras…
Padre – sr. José Shell…
José Shell – sr. Arquitecto…
Padre – desculpe, sr. Arquitecto…essa descrença no poder Divino…essa insistência em falar desse Darwin, esse ateu que negou a Bíblia, desprezou Adão e Eva e nos insultou como descendentes dos macacos!
Sr. Silva – (tipo macaco) essa agora! Macacos! Eu nem gosto de amendoins!
Animador – O problema é difícil. Tenhamos calma, nós saberemos responder. Nesta rede de Abrigos está o que de melhor triunfou nas modernas civilizações.
Temos aqui os responsáveis pela reconstrução do futuro. Vejamos como eles se preparam para esse enorme desafio.
Já temos em linha o primeiro Abrigo, o Abrigo dos EUA
(Imagem vídeo. Sua fusão e transformação com imagens teatrais, e regresso ao vídeo para o final da emissão).
(USA)
ABRIGO EUA
Coelhinha Playboy – Welcome everybody to USA Abrigo! Tudo ok? Em directo, para vós alguns dos momentos mais emocionantes imaginados para o nosso Abrigo. Bye bye e divirtam-se.
(Em cena dois cowboys na clássica cena do duelo)
VOZ OFF – O Abrigo dos EUA tinha de ser o Abrigo das mais elevadas concepções da democracia e da liberdade. Pátria do triunfo do individuo-oásis onde todos têm uma oportunidade, alfobre de vencedores, bandeira do império dos nossos dias, nesta rua estreita, decalcada dos míticos westerns, vemos o duelo que está eminente.
Em directo para todos os Abrigos, a rede NVS ( Shelter vision network) transmite o primeiro dos duelos do Abrigo. Alguns cidadãos cultivavam entre si, há muitos anos, ódios de morte completamente inconciliáveis. Nós sabíamos desse problema e estimulámos esta solução final. Para isso tivemos o apoio das respectivas famílias e o patrocínio da Coca Cola. Em escritura assinada no notário do Abrigo, ficou estipulado que a família do assassinado é obrigada a desafiar o vencedor do duelo. Com esta medida, o Abrigo evita que fiquem ódios entre famílias que estimulam bárbaros desejos de vingança durante séculos. Porque a verdade é que uma das famílias terá de ficar completamente eliminada.
E assim daremos mais um passo para a felicidade universal quando o Abrigo for reaberto. Teremos eliminado raivas, frustrações, complexos. Preferimos homens e mulheres felizes, cultivámos a orgulhosa e triunfante família americana.
O duelo vai começar.
Que vença o melhor.
(Tiros. Cai um dos cowboys. Acorre árbitro, com apito, boina Joker, tshirt “Duel in Shelter”, levanta o braço ao vencedor. Vem a correr outro inimigo que mata o vencedor, e a acção repete-se mais vezes.
Ao mesmo tempo, sinos, rezas e padre Quaker carregam os que morrem para fora da cena.
Majorettes animam o duelo.
Paris Hilton aparece em cima de um elefante cor de rosa.
O vencedor recebe uma taça, grinaldas do Hawai, molho de notas, beijos de coelhinhas play-boy, posa para fotografias e para televisão, etc)
COELHINHA PLAY -BOY – Por agora, é tudo. Segue-se reportagem com o carrasco do Empire State Building, o maníaco que pendurava os homens pelo sexo. Infelizmente este programa só é distribuído por assinantes. See you later. Bye bye.
(português)- poesia, pintor, Mad. Romy, prémio Guillot
(Protestos no Abrigo português. Assobios, etc.).
VOZES – E a gente não vê? É sempre a mesma coisa. Somos uns pindéricos. Não pagamos a assinatura, não vemos o melhor.
– calma! Calma!
ANIMADOR – E agora que tivemos a felicidade de participar – embora de longe – nesta inventiva e comunicativa forma de desenvolvimento de democracia, tenho o prazer de vos apresentar um poema pela nossa mais celebrada actriz… um poema do nosso famoso e incomparável futuro prémio Nobel.
ACTRIZ – Partículas formas irreais sonhos noite
Assim
Pois
Nunca constante sandálias mato peixe cólera assim mais ante após até.
(Bravos e palmas off)
ANIMADOR – E agora um leilão de um quadro… já imaginaram o valor futuro dos quadros do Abrigo? Connosco, o grande pintor do nosso tempo… AVELAR!!!!! comprar AVELAR é ficar a ganhar!!!
PINTOR (com uma moldura) – A realidade é irreproduzível. Interessante é a imagem real que é fixada. A pintura do futuro é outra. TEM a ver com o consumidor do quadro, livre e não subordinado a qualquer escola, moda ou imposição estética. É a que será vista por trás de uma simples moldura. Assim cada um pode ter o quadro que quiser. Basta pôr a moldura em cima.
É evidente que terá de ser uma moldura AVELAR, devidamente registada, numerada e de pouquíssima produção.(Exemplifica com imagens, caras…)
(Bravos off)
ANIMADOR – Extraordinário! Sempre surpreendente. Bem, o leilão está aberto…
PINTOR – Devo dizer que trouxe outras pinturas tradicionais que também podem agradar. Não tenho grande stock, felizmente consigo vender tudo.
VOZES – Eu tenho um quadro seu. Eu também! Eu também!
ANIMADOR – Comprar AVELAR é ficar a ganhar! Preço base, Sr. AVELAR?
PINTOR – 10.000 dólares… como é uma invenção absolutamente inédita… só faço esse preço por estar com velhos clientes e amigos.
Voz – é muito caro…
Animador – neste Abrigo o dinheiro passou a ter o seu verdadeiro e único valor : dar felicidade.
M. Romy – havia quem dissesse que o dinheiro não dá felicidade (risos)
Animador – e é verdade. Mas dá outras coisas: barcos, casas…
M. Romy – mulheres, rapazinhos…
Pintor – não se esqueçam que eu pinto as molduras…
ANIMADOR – Caros abrigados. Ouviram o preço base. Não é nada se pensarmos na valorização das molduras no tempo de Paz…
M. ROMY – 20000 DÓLARES!
VOZ – 25000 dólares!
M. ROMY – 26000 dólares!
VOZ – 30000 dólares!
Animador – SR. AVELAR!
PINTOR – É pouco.
ANIMADOR – Vamos lá, o pintor Avelar merece mais.
M. ROMY – 40000.
VOZ – 50000.
M. ROMY – 100000! 100000 dólares e por favor não me piquem mais. Eu quero ficar com o quadro.
(Bravos off)
Dr. Rato Tangerina – com certeza querida madame Romy. Espero que me convide para ir ver o quadro a sua casa…
ANIMADOR – Todos os abriguistas compreendem este desejo de madame Romy… inclusivamente o dr. Rato Tangerina, brilhante organizador do nosso Abrigo…minha querida senhora, o quadro é seu…
MADAME ROMY – Que bom! que bem que vai ficar na minha futura casa de repouso.
ANIMADOR – Diga-nos madame Romy… a senhora pretende voltar a organizar as magníficas casas de repouso que possuía?
MADAME ROMY – Com certeza. As únicas coisas importantes no mundo são a inteligência e o amor. Cultivo essas duas artes com o maior empenho. Tenho imensa pena que as meninas das minhas casas não me pudessem acompanhar no Abrigo…
ANIMADOR – Boas raparigas!?
MADAME ROMY – Boas raparigas graças a mim. Eu ensinei-lhes tudo: a arte da sedução, como vestir, como conversar, como praticar o sexo de diferentes formas, como tolerar os gostos dos clientes – e alguns eram bem difíceis – olhe…
ANIMADOR – Madame Romy, por favor, não entremos em confidências que podem ser incómodas no Abrigo…
MADAME ROMY – Eu nunca cairia em qualquer inconveniência. Julga que eu não tenho educação, julga que eu sou alguma sopeira?
ANIMADOR – Desculpe…
MADAME ROMY – Ordinário. É o que dá trazer para o Abrigo qualquer bicho careta! Nem no Abrigo nos safamos!
José Shell – Madame Romy em nome do entendimento necessário entre pessoas que foram seleccionadas para estarem aqui, e por isso, certamente com muito valor, peço-lhe compreensão…
MADAME ROMY – Se é o senhor que me pede…o famoso arquitecto José Shell… o futuro prémio Nobel…(risos).
ANIMADOR – aproveitamos para apresentar o sr. Arquitecto José Shell, futuro prémio Nobel…
( aplausos)
J. Shell – Muito obrigado, muito obrigado, não gosto destas coisas, sou muito tímido, prefiro o silêncio, o meu trabalho sofrido e incessante…não, ao contrário do que podem pensar eu nunca uso computador, continuo a escrever à mão, longas horas de esforço, difícil, ponho notas e renotas, letras miúdas encavalitadas, o meu cérebro, a minha imaginação torturam-me, sofro, quase desisto mas insisto, o sangue ferve, a minha fronte transpira, é a verdade que fica escrita na folha em branco, é um choque quando releio, serei um génio? como é possível, serei eu que escrevi isto, eu tive sensibilidade para isto…
(aplausos)
Não, não, por favor…deixem-me falar sobre o prémio Nobel…
É uma honra mas estou com vários problemas de ordem moral e estética para receber esse prémio.
É evidente que o prémio Nobel da literatura descambou numa sinistra operação de propaganda do esquerdismo e do anarquismo, a prova foram os prémios para Dario Fo, Garcia Marquez, José Saramago, Gunther Grass, Harold Pinter e outros… Ainda por cima tinham tido o descaramento de dar prémios a gajos que escreviam teatro! Como se alguém lesse teatro!
Dr. Rato Tangerina – problema bicudo! Ler teatro! Não basta aturar aquelas secas quando vamos ver essas peças que somos obrigados a ir ver, porque se não formos parece mal, porque vai lá estar este e aquela, porque são muito modernos, porque…
Dr. José Shell – como o dr. disse, tudo isto é um problema bicudo. A única saída é criar um prémio mais apelativo, quer dizer com mais dinheiro, e então esse prémio Nobel deixa de ter importância. Criámos um Comité Internacional de escritores, poetas, professores universitários e antigos Presidentes da República, com a designação “A letra pela letra”, que elaborou um plano fantástico de financiamento e marketing para o futuro prémio.
VOZES – que nome? Que nome?
Dr. José Shell – Calma, meus amigos. Primeiro, oiçam o plano. Prémio Nobel, vem de Alfred Nobel. Quem foi? .Alfred Nobel foi um cientista sueco que inventou a dinamite, a mais terrível arma de destruição. Foi o maior inimigo do género humano, destruindo-o, esfacelando-o, e depois sem vergonha nenhuma, decide deixar a sua herança para premiar benfeitores da humanidade! Acham bem esta hipocrisia?
Sr. Silva – vocês nem imaginam a como está o preço da dinamite que eu tenho de usar nas obras.
Dr. José Shell – (Puxou de um papelinho e leu):
– “defendo o princípio do suplício único para todos os condenados à morte, independentemente da sua categoria social e com um género de morte que abrevie o sofrimento”.
– Estas palavras foram ditas por Mr Guillot em plena Assembleia Francesa em 1791. Foi então que um tal Louis criou o aparelho Louison, Louisette – ou navalha de barba nacional, mais tarde conhecida por guilhotina em homenagem ao ilustre deputado que a transformou em aparelho legal.
A eficácia desta norma de justiça social é inegável. Reparem: quando a cabeça está colocada na luneta, formada pelas aberturas semicirculares das duas travessas, e perfeitamente imobilizada, a pressão sobre um simples botão faz descer rapidamente o cutelo, que de um só golpe separa a cabeça do corpo. Um cesto de verga, colocado do lado direito, recebe a cabeça e outro, do outro lado, recebe o corpo do condenado.
Simples e eficaz.
(Aplausos, sussurros de admiração)
– E quanto ao mérito da invenção?
Além de milhares de populares e criminosos, também sentiram a guilhotina Luís XVI, Maria Antonieta, Lavoisier, Danton, Madame Dubarry, Robespierre, Saint Just, Babeuf…” e por aqui se prova o carácter amplamente democrático e moderno da guilhotina. Por isso, o futuro prémio de literatura, posteriormente alargado à Ciência e a outras especialidades, será o prémio Guillot.
– Uma última nota para terminar: o sr. Guillot, um verdadeiro humanista, não gostava que lhe fosse atribuída a paternidade do invento e até se ofendeu com uma versalhada do português Bocage,
Dizem que um médico fora
Inventor da guilhotina
Deu bem rapidez à morte
Mostrou saber medicina.
Vozes e gargalhadas – BRAVO ! Viva o arquitecto José Shell !
Viva o futuro prémio Guillot !
Viva! Viva!
(português) – família do Manuel Silva

