COMENTÁRIOS À RODA DE UM LIVRO – Somerset Maugham e Maquiavel – por João Machado

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Maquiavel e a Dama, um livro de Somerset Maugham, uma velha edição da colecção Miniatura, de Livros do Brasil uma tradução de Érico Veríssimo. No início do anos 50, a colecção Miniatura difundia grandes escritores. Traduções bem feitas, por vezes de escritores brasileiros, com revisão para a norma portuguesa. Capas sóbrias, desenhadas pelo excelente Bernardo Marques. Um luxo por apenas 12$50…

Julgo que nos anos quarenta, William Somerset Maugham (1874-1965) escreveu um romance com Maquiavel (1469-1527) comoImagem1 personagem central, inspirado na peça que este escreveu, La Mandragola. Partindo do enredo da peça, Somerset Maugham por seu turno tece um enredo, em que Maquiavel tem um papel central, o do pretendente a sedutor, mas dá à história um tom humorístico, pondo o cínico e experimentado florentino a ser ultrapassado na recta final de um modo divertidíssimo, por outro candidato, muito mais jovem. Este romance que, vocês têm de ler se ainda não o fizeram, foi traduzido para português por Erico Veríssimo, em 1948. Em Portugal saiu na colecção Miniatura, em data que não consigo precisar. Também não consegui descobrir o título em inglês (terá sido Then and Now? Este romance foi publicado em 1946, e nunca o encontrei).

Somerset Maugham foi um autor extremamente prolífico, que escreveu peças de teatro, romances (os mais famosos foram Of Human Bondage e The Razor’s Edge), e contos. Nesta última modalidade foi um mestre, e deixou centenas deles, alguns deles muito famosos como The Lunch. Teve colaborações em jornais, revistas, etc. Foi sem dúvida um escritor de grande talento, que dominava as melhores técnicas da sua arte. Muito observador e perspicaz, chegou trabalhar com os Serviços Secretos do seu país, tendo escrito Ashenden, com base nesta experiência. Como curiosidade, já li uma referência sobre a influência que este trabalho terá tido sobre Ian Fleming, o criador de James Bond. Mas alguns opinam que Somerset Maugham, culto e talentoso como era, no seu trabalho não foi um escritor original, inspirando-se por vezes na obra de outros autores, como Dickens e Wilde.

De qualquer modo, este romance, Maquiavel e a Dama, é extremamente agradável e lê-se com grande facilidade. Um aspecto de grande interesse é a reconstituição do ambiente e da vida da época que o autor nos oferece, acompanhada de elementos históricos importantíssimos, nos quais o enredo se encaixa facilmente. Consegue-se ter uma imagem de Maquiavel muito verosímil, dando-lhe uma faceta humana, sem de modo nenhum o querer transformar num bom rapaz (que ele realmente nunca deve ter sido). A propósito, recordo-lhes que La Mandragola é tida como uma das melhores comédias escritas no século XVI, e que o ensaísta inglês Macaulay (1827) chegou a opinar que Maquiavel, se se tivesse dedicado ao teatro, poderia ter sido um dos maiores dramaturgos de todos os tempos. Terá exagerado, na medida em que Maquiavel fez outras incursões no teatro, que não foram tão felizes. Mas ele dedicou-se foi à política. Ainda, a propósito, para os que gostam, descubram o que o historiador inglês Lorde Acton (1834-1902) escreveu sobre Maquiavel, na introdução a uma edição de Il Principe, de 1891, da Clarendon Press, Oxford.

É preciso lembrar que Maquiavel foi o primeiro pensador que analisou a política e os fenómenos sociais, sem se apoiar na ética ou na jurisprudência. Foi contra os princípios aristotélicos dominantes na altura em que viveu, segundo os quais a política era uma mera extensão da ética. Acho que o Somerset Maugham, de um modo afável e divertido, nos dá neste romance uma ideia muito razoável do homem e da época.

7 Comments

  1. Não indicar a data de publicação, era uma falha frequente nas edições anteriores à imposição do International Standard Book Number, ISBN, número Padrão Internacional de Livro: o sistema identificador único para livros e publicações não periódicas e que em 1972 passou a ser obrigatório. Essa falha, provoca frequentes problemas a quem faz qualquer tipo de investigação bibliográfica. No caso vertente, “Maquiavel e a Dama” é a tradução de “Then and Now” que Somerset Maugham escreveu em 1946. Essa indicação consta do colofon da edição portuguesa. Quanto à data dessa edição da colecção Miniatura, apenas se pode deduzir que deverá datar de 1951, 1952 ou mesmo 1953. Na contracapa anuncia o livro que se seguirá – “Escola de Mulheres” ,de Gide, e diz assim: «Considerado o primeiro prosador da sua geração, André Gide, morto recentemente em plena glória, foi um verdadeiro mestre na arte de escrever». Sabendo-se que Gide morreu em 1951, só resta interpretar o que se considerava “recentemente”…

  2. Somerset Maugham foi um dos meus grandes companheiros do final da infância e da adolescência, nas edições da Livros do Brasil, de que tínhamos tudo – quer nos livros grandes (suponho que era a colecção “Autores de Sempre”), quer na colecção Miniatura. Espicaçado pelo artigo e comentário, fui verificar o que ainda possuiria deste autor e… conclui que não tenho nada! O meu pai, quando se separou da minha mãe, deixou muitos livros lá por casa, mas terá levado os preferidos. Deixou todos os livros de bolso (policiais e de FC, da LB, e outros, como os da Inquérito…): só que, tendo levado a colecção Miniatura para uma casa que aluguei na Ericeira, mais para as visitas lerem e eu reler um ou outro, um acidente acabou com quase todos eles (tenho ido readquirindo alguns, mas não muitos).
    Quer dizer que terei deixado de ler Maugham há 50 anos, sendo essa a idade aproximada da memória que tenho dele. Mas a que conservo é a de um magnífico narrador, não vislumbrando onde estará a “falta de originalidade”, bem como outros “defeitos” com que alguns intelectuais da penica tentam desvalorizá-lo, segundo fui tendo notícia ao longo dos anos. Nem todos os bons escritores têm de ser “inovadores” e nalguma coisa ele terá incomodado os bem-pensantes, já que me recordo de que alguns dos seus livros foram censurados e publicados com cortes, depois recuperados em edições posteriores (posso estar a exagerar, mas recordo-me pelo menos de um – “Mrs. Cradock”?).
    Deixo aqui a minha homenagem a esse meu companheiro de primeiras e aliciantes leituras – com as quais algo terei aprendido e integrado na construção do que fui sendo – e o meu cauteloso vómito despejado sobre os pseudo-exigentes que enxameiam a crítica e os estudos literários (cauteloso, para não ser atingido por algum salpico já contaminado pelo contacto com as suas infectadas meninges). SM não é assimilável a nenhum dos numerosos autores de “bestas-selas”, tipo Dan Brown, Paulo Coelho ou – porque não? – José Rodrigues dos Santos…

    1. Quase que podemos formar um clube de leitores de Somerset Maugham. Como dizes, Paulo, um autor não tem de ser sempre inovador, nem tem que ser celebrado só após a morte – o êxito que foi tendo desde cedo, a adaptação de muitos dos seus romances ao cinema, deviam incomodar muita gente. É num dos seus contos (não recordo o título) que ele narra a tragédia de um autor a quem a crítica persegue com o elogio ao primeiro livro. Homem idoso, com uma obra vasta e carregada de prémios, continua a ser referido como o autor do tal livro que publicou aos vinte anos. Não sei até que ponto não será uma ironia autobiográfica. Servidão Humana é um livro inesquecível, tal como O Fio da Navalha. Outros, menos extensos e que foram publicados na Miniatura, são também notáveis Paixão em Florença, O Véu Pintado, Maquiavel e a dama… José Rodrigues dos Santos tem uma coisa a seu favor – recomendou publicamente a leitura dos livros de Somerset Maugham.

  3. Concede-se o ponto a favor do JRS, de quem, aliás, como jornalista, só não tenho uma excelente impressão porque sou extremamente exigente e JRS, como a esmagadora maioria dos seus colegas de profissão, não consegue evadir-se da teia de “evidências” e lugares-comuns urdida pelo “pensamento dominante” – e básico -, que oferece ao pessoal que está convencido de integrar o “poder” (1.º, 2.º, 3.º ou 4.º…) ou a “inteligentzia” local – de todas as espécies, profissões e graus académicos – uma papa já deglutida que esse pessoal rumina alegremente, como se estivesse a degustar iguaria fresca e de “gourmet”. São muitíssimo raros os profissionais de todos os ramos capazes de se soltar dessa teia. Ainda ontem, fui obrigado a deixar de ver o “Prós e Contras”, já nauseado, depois de verificar que – à excepção do Tiago Rodrigues e de uma sindicalista (cuja linguagem, no entanto, se colou demasiado à “lição bem estudada” – o que, apesar de tudo, já merece um S+) – todos os intervenientes com presumível capacidade intelectual para terem um discurso coerente se atolavam num pântano de tolices. A idiota da apresentadora não conseguia ajudar um interveniente com dificuldades de linguagem a clarificar o que pretendia exprimir – bem pelo contrário – e perguntava, com aquele ar de permanente atonia com que foi bafejada por sarcásticos deuses, se “a acção do Governo era ideológica” (!); e o João Tordo (Zeus me valha) exprimia a opinião de que a dita cuja “nada tinha de ideológico, porque não sabiam o que andavam a fazer” (esse foi o tiro de partida para a minha fuga precipitada). À excepção do Tiago, ninguém alí devia saber o que significa ideologia e (mais uma vez, com a excepção do Tiago, que falou de “políticos” do PS, PSD e CDS e suas constantes viagens entre cargos políticos e empresas – de sectores por eles tutelados ou por eles privatizadas e etcs.) tudo se referia, acefalamente, a uma mítica “classe política” (também não conheceriam o conceito de “classe” – seja social, profissional ou o que queiram…).
    Bem: ponto concedido, ler o JRS é que não me peçam! Acho que já contei que fiquei vacinado, depois de ler o primeiro capítlo de um romance de sua autoria, em que participava um camião – mais o motorista, um “chefe de operações”, carregadores e coisas carregadas e carregáveis – em que o camião passou o capítulo todo a ser tratado, alternadamente por “camião” e “veículo”. Ao fim de umas trinta variações veículo/camião, camião/veículo, mais camião/veículo e veículo/camião e, ainda, veículo/camião – camião/veículo (para quem duvidasse da caracterização psicológica dessa personagem fulcral), a minha paciência arquejava e a minha opinião sobre as qualidades de “escritor” do nosso JRS estava definitivamente estabelecida. O aplaudido “romancista” deveria reler o Maugham bem mais atentamente, até perceber o que é um escritor e daí concluir, humildemente, se é ou não capaz de se transformar num.

    1. Já te disse – a RTP foi o meu primeiro emprego a sério, após uns anos de vagabundagem em que era vagamente estudante, vagamente trabalhador, vagamente escritor… Era uma fauna em perigo de expansão. A guerra veio travar esse crescimento e repor o equilíbrio ecológico. Mas fiquei preso emocionalmente à RTP e depositei esperança no JRS, sobretudo quando foi a bronca do concurso para correspondente em Madrid, em que a Rosa Veloso , tendo ficado em 4º lugar, ocupou a vaga e se transformou numa fiel súbdita de su majestad. Incompetente e pestanejante é uma das aparições que me estragam a refeição. E o JRS parecia que ia partir a louça toda e, afinal, meteu a viola no saco e dedicou-se à escrita. Li o Codex e estando muito mal escrito, revela um excelente trabalho de efabulação. Pelo sim pelo não, não li mais nenhum. O prós e contras tem um conceito interessante, mas a apresentadora é como é. O “ar de permanente atonia” está bem achado. Em suma, a RTP é uma fonte de irritação permanente. O Somerset Maugham (chama-se “restabelecer contacto”… ou “voltar à vaca fria”) é uma fonte de permenente satisfação. Diz o João que devíamos publicar contos dele – mas há problemas de direitos. Estamos com um amigo (engenheiro informático) a preparar uma grande biblioteca virtual com obras estruturais da cultura universal e grandes escritores de língua portuguesa – tudo devidamente autorizado. Vamos ver se há livros do Somerset (nem que seja só a Servidão).

  4. E ficaste muito bem preso. O serviço público é indispensável e insubstituível, com todos os defeitos que teve e ainda tem: o que está mal pode-se melhorar, o que não existe, não funciona, nem bem nem mal. Esperemos que, depois da marabunta ser desbaratada (há-de sê-lo: como ouvi ontem a uma manifestante, algures no País, “vão-se embora depressa, porque se não forem a bem, pela porta, vão a mal, pela janela” – e as defenestrações têm excelentes e recomendáveis tradições entre o “pacífico” povo português), ainda reste alguma coisa e, sobretudo, honestidade e bom-senso em quem a substituir, para repor um serviço público de rádio e televisão condigno, que saiba conquistar uma audiência que permita evitar a total estupidificação do povo pelos operadores privados e que preserve um património histórico importantíssimo que está abandonado, e a degradar-se (não serve de penacho para engalanar estrelas cadentes e administrações venais).

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