POESIA AO AMANHECER – 217 – por Manuel Simões

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MANUEL DA FONSECA

(1911 -1993)

ANTES QUE SEJA TARDE

Amigo,

tu que choras uma angústia qualquer

e falas de coisas mansas como o luar

e paradas

como as águas de um lago adormecido,

acorda!

Deixa de vez

as margens do regato solitário

onde te miras

como se fosse a tua namorada.

Abandona o jardim sem flores

desse país inventado

onde tu és o único habitante.

Deixa os desejos sem rumo

de barco ao deus-dará

e esse ar de renúncia

às coisas do mundo.

Acorda, amigo,

liberta-te dessa paz podre de milagre

que existe

apenas na tua imaginação.

Abre os olhos e olha,

abre os braços e luta!

Amigo,

antes da morte vir

nasce de vez para a vida.

(de “Poemas Dispersos”)

Fez parte do grupo “Novo Cancioneiro”. Poeta, romancista, contista e cronista, toda a sua obra tem como temática o Alentejo e o seu povo. Autor de romances admiráveis, a sua poesia reparte-se por “Rosa dos Ventos” (1940), “Planície” (1941), “Poemas Dispersos” (1937-1962) e “Poemas para Adriano” (1972), depois reunidos no volume “Poemas Completos” (1958), mais tarde intitulado “Obra Poética”.

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