(Continuação)
3 – CONFISSÕES E MEDOS
(Pancadas violentas no exterior. Gritos de mulheres e crianças)
ANIMADOR – Que se passa?
MENINA ORGAN. – É a mulher e filhos do Sr… Manuel Silva…
VOZES (Audíveis) – Socorro! Ajudem-nos! Deixem-nos entrar! Está tudo a morrer!
(choros, Gritos).
ANIMADOR – Bem, uma questão destas…
MANUEL SILVA – Isso é comigo. Deixe-os bater à vontade.
DR. RATO TANGERINA – Realmente, há questões estatutárias a ver. Os abrigados sabem perfeitamente as condições de entrada… podia-se ter discutido alguma excepção, mas como não se falou nisso…
MANUEL SILVA – Deixe bater, deixe bater, Sr. Presidente. Eles logo se cansam (ri).
ANIMADOR – Sr. Manuel Silva, umas palavras… a sua vida, os seus projectos…
MANUEL SILVA – Pois eu o que sei é que andei a penar muito tempo, mas cá pensei na minha vidinha. Isto cada um nasceu cá como nasceu, até é verdade o que já foi dito, que os que estão aqui é que são a gente do futuro, pois como é que havia de ser, se a gente trabalhou e arranjou o dinheirinho e essas condições todas para vir para aqui, é porque éramos os melhores.
ANIMADOR – Diga mais qualquer coisa… então!
MANUEL SILVA – Já disse tudo, estou satisfeito, pronto. E acho isto muito bem organizado, sim senhor. Não se diga… vá lá… olhem isto para mim, esta coisa da nuvem ou da guerra e dessa porcaria toda, até foi uma sorte. Eu já andava farto da minha vida, queria cá saber da mulher e dos filhos, não sabia como me havia de ver livre deles (ri-se) foi um descanso. Lá ficaram, e ficaram muito bem.
VOZ FEMININA – O senhor está a exagerar. Nem falemos dos entes queridos que fomos obrigados a abandonar (começa a soluçar).
MANUEL SILVA – Oh minha senhora, deixe-se dessas coisas. É preciso é vida nova, e a bomba quando cai é para todos… Ah, Ah, Ah… é boa não é? Eu já nem podia ver aquela gente à minha frente, vocês nem sonham como eu me sinto bem, só de pensar que já não os aturo, e que hei-de arranjar outra cá como eu quero. Ela já nem para a cama servia…
ANIMADOR – Devo interromper, porque é evidente que essa sua intervenção está a incomodar desnecessariamente esta elite que aqui se reuniu.
MANUEL SILVA – Se quiserem que eu me cale, calo-me. Não quero arranjar problemas com gente fina. (gargalhadas). Porque eu até fui dos que o ajudaram a ser gente fina. E também são os que me encheram as algibeiras estes anos todos. Mas não me tiram esta ideia da cabeça.
(Intensificação vídeo e correspondente teatralização)
( japonês)
ABRIGO JAPÃO
Nos ecrãs surgiram imagens do monte Fugi e da onda de Hokusai. Excertos de filmes de Kurosawa, a cerimónia do chá, e depois surgiu inevitavelmente a tímida gueixa do Japão, sussurrando
GUEIXA – Do Japão, do longínquo Oriente, com ternura para os outros Abrigos…
Madame Romy – pois, são muito sonsinhas mas fazem “O império dos sentidos”. Sr. Silva – oh Madama, deixe lá ver o vídeo.
(Imagem de japoneses a trabalhar em linha de montagem num aparelho complexo, cheio de fios de várias cores, de fitas, etc).
VOZ OFF – No Japão preparamos o futuro. Sabemos que o mundo será artificial, que a natureza está a ser destruída enquanto estamos no Abrigo. Começamos a construir uma máquina imaginada pelos nossos cientistas em grande unidade, da Soni, Panasonic, Toyota e outras grandes marcas, que se destina a fabricar o mundo do futuro. Trata-se da produção de um líquido que plastifica com enorme rapidez e que poderá cobrir os antigos campos e cidades. Também é transformável em objectos mais sólidos, casas, árvores, e pode permanecer líquido para reproduzir os mares e os rios, depois de sujeito a determinadas alterações de temperatura. Esta invenção é outra vitória do espírito guerreiro e lutador japonês, e tem a vantagem sobre a antiga natureza de se poderem escolher livremente as cores que se quiserem. O mundo terá arvores azuis e amarelas, relvados cor-de-laranja, couves encarnadas e tudo o mais que o comprador do produto decidir. O futuro vai ser ainda mais belo e o mundo será japonês!
(Esta voz off é entrecortada por “entrevistas” aos operários, que respondem por monossílabos).
ABRIGO PORTUGUÊS – Ok, Japão, ok. Podemos fazer algumas perguntas?
ABRIGO JAPONÊS – Com certeza.
ABRIGO PORTUGUÊS – porque é que os operários não respondiam às perguntas? ABRIGO JAPONÊS – na prática, eles nunca falam. As palavras dispersam a atenção, prejudicam a produtividade. E também sabemos que conversar dá oportunidade a desabafos, mais tarde a exigências indecorosas, e assim terminava a disciplina indispensável ao nosso sucesso.
ABRIGO PORTUGUÊS – Sendo o Abrigo um local de escolha de gente que merece sobreviver para o futuro, quem é que trabalha nessa linha de montagem?
ABRIGO JAPONÊS – São operários rigorosamente seleccionados entre os quadros superiores que estão no nosso Abrigo, que foi organizado como unidade de produção. Foi uma exigência da elite que está no nosso Abrigo, administradores de seguros, sindicatos, um samurai, e uma candidata a hara-kiri. Caso raríssimo, até porque era proibido que esse acto superiormente digno e honrado fosse praticado por mulheres.
ABRIGO PORTUGUÊS – Claro! E como é o ritmo de trabalho?
ABRIGO JAPONÊS – à Japonesa. O trabalho nunca pára. Não há férias. Temos caixas herméticas onde eles entram para dormir duas horas, de seis em seis horas. Música ambiente e aquecimento garantem repouso absoluto semelhante ao das estufas dos bebés. Trabalham amordaçados para não falarem e estarem em maior tensão. Maior tensão dá mais energia, mais trabalho, mais produto. Já ultrapassaram há muito as previsões de produção.
INTERRUPÇÃO:
– Boneco/patrão (estilo sempre em pé) a apanhar murros e bofetadas de um operário
VOZ OFF – Este operário, vencedor vários anos seguidos do “Martelinho de oiro”, inventou o processo de aumentar ainda mais a sua produtividade. O método é simples: tem dois, três minutos para espancar um boneco que representa o patrão. Os resultados desta terapêutica têm sido magníficos. Infelizmente há poucos operários que se preocupem tanto com o seu aumento de produção. O que dá como resultado que a consciência de classe está em crise, e por conseguinte poucos patrões estão a apanhar bofetadas SAYONARA!
(português) –Rato Tangerina- estatutos do Abrigo
ANIMADOR – Muito bem! Antes de passarmos a outro momento de festa e de alegria, queria apresentar-vos o cérebro do nosso Abrigo, o Dr. Rato Tangerina… o mais brilhante deputado da nossa última Assembleia…
(Bravos off)
DR. RATO TANGERINA – Muito obrigado. Isso são coisas que já lá vão. Julgo que o ambiente está agradável e que serviu para alguma coisa a longa experiência que adquirimos em festas, recepções e congressos… houve aqui um problema com o senhor Manuel Silva, cidadão acima de qualquer suspeita, que eu quero esclarecer. Cada família só pode ter um elemento no Abrigo… imaginem se viessem as famílias todas…
VOZES – Claro! Muito bem!
Sr. SILVA – Muito obrigado, Dr. Parafina…
DR. RATO TANGERINA – Rato Tangerina, Tangerina, sr. Silva… bem, aproveito para ler os estatutos do nosso Abrigo.
1º – O Abrigo é uma instituição democrática.
2º – O acesso ao Abrigo é garantido pelo pagamento da quota-parte de cada associado;
3º – Dado que o acesso ao Abrigo é limitado em número de usufrutuários e na medida em que se considerou que, apesar da selecção económica efectuada através dos preços, seria natural a existência de um excesso de candidatos, determinou-se:
4º – Não podem estar no Abrigo elementos das mesmas famílias;
5º – A selecção tem em conta o passado e, particularmente, a utilidade futura dos elementos que tiveram acesso ao Abrigo;
6º – No Abrigo só podem entrar mulheres com menos de 25 anos de idade, com provas dadas de fertilidade, que se sujeitem a testes sexuais, e que submetam os filhos a análise médica total, e á apreciação dos nossos melhores esteticistas. As únicas excepções serão devidamente ponderadas e justificadas.
7º – São condenados à morte, todos os que infringirem quaisquer destas cláusulas. Parágrafo único – não cabe recurso desta decisão;
8º – Qualquer hesitação na aplicação da lei, é considerada conivência com o crime que está a ser julgado.
(Bravos. Aplausos) DR. RATO TANGERINA – Música!
(Baile, champagne)
José Shell – Óptima peça jurídica.
Madame Romy – O que vale é que eu sou a excepção
José Shell – É a única?0
MADAME ROMY – Com certeza. Com a minha idade, e já não posso ter filhos… a propósito, os homens não tiveram essas restrições. Acha justo?
José Shell – Acho. Até fui eu que aconselhei esse artigo.
MADAME ROMY – Parece impossível. É um futuro prémio Nobel…perdão futuro prémio Guillot.
José Shell – Oh madame Romy, queria que a gente tivesse que aturar velhas no futuro? Ainda a senhora tem utilidade, ensina-nos coisas…
MADAME ROMY – E também estou aqui para as curvas, o que é que julga?!
(Baile continua)
(Vaticano)
ANIMADOR – E é altura de contacto com outro abrigo. Em directo com Roma, o Abrigo do Vaticano… ABRIGO VATICANO
E foi então que, sem avisar, talvez porque estão no segredo dos Deuses, surgiram imagens de Roma, belas imagens do Vaticano, o bairro católico que se tornou numa potência mundial, e detalhes do trabalho de tesouraria: padres e freiras contavam notas e moedas, outra gente carregava caixotes com alianças, anéis, lingotes, fios, pulseiras de ouro, prata, jóias várias, e um sector organizava a contabilidade electrónica. Percebemos que o Vaticano nos tranquilizava, demonstrando que o dinheiro que lhe enviavam não ficava ao Deus dará. Papa (janela do Vaticano) – Irmãos, fostes escolhidos para estardes no Abrigo. Sois a esperança da ressurreição do mundo. Não esqueçais os mandamentos e o catecismo. Combatei o mal sob todas as formas. Deus castiga o homem para que a alma se salve. ABRIGO PORTUGUÊS – Eminência, neste momento particularmente gravoso para todos nós, pedimos maior tolerância por parte da Santa Madre Igreja. – Julgo perceber o que me pedis, gentio sem Fé nem temor a Deus. Continuo a manter a proibição de usar preservativos ou qualquer outra forma de impedir a procriação. Continuo a impedir a prática do aborto sob qualquer condição. ABRIGO PORTUGUÊS – Eminência, perguntamos respeitosamente se neste momento em que a Humanidade está em perigo, não era preferível a igreja ter outras posições? Melhor, falar de outras questões?
Papa – Não há outras questões a falar. E a igreja não tem de mudar de posições só porque a Humanidade está em perigo. Deus roga por nós. Confiai na sua infinita paciência. Aproxima-se o juízo final. Vós, que estais no Abrigo, podeis estar tranquilos e sem temor. Escolhidos e privilegiados, mereceis o descanso eterno. Amen.
Começou então um ritual no Abrigo do Vaticano que começou a ser reproduzido no Abrigo de Portugal e, supõe-se, em todos os outros para se criar a União Universal da Fé ! ( UUF !) .
Rezas, ladainhas, trombetas, confissões, flagelamentos, comunhões, castigos, reprimendas, promessas, coros, fumos e incenso, forcas, caldeirões, água santa, disputa de relíquias, milagres, cegos, mudos, paralíticos, loucos, santos, beatos, música de órgão, gritos de multidão, torquezes, velas, mil velas, salmos, procissão de joelhos, fieis fustigados, uma amálgama indescritível de pessoas, sentimentos, azeite a ferver, medos, desejos, miraculados, cheiros e sons crescem sempre e sempre, mais ainda, mais esforço, mais fé, insuportável, não posso mais, paroxismo. E subitamente, um grito aterrador. (português) – Mulher com “diabo no corpo” expulsa/ canção Fátima
MULHER (grita) – Tirem-me daqui! Tirem-me daqui! Não quero morrer! Não quero o juízo final!
OUTRA MULHER – Tem o diabo no corpo!
(Cena de histeria. Rezas. A mulher estrebucha e espuma. É agredida)
ABRIGO (Voz off) – Que fazer, Eminência?
PAPA – Expulsai esse corpo doente da vossa convivência!
AMIGA DA MULHER – Eu gosto dela. Se sair vai morrer. Não quero, não quero. Clemência! Perdão, clemência!
PAPA – Expulsai o corpo doente e todos os seus frutos malignos!
(Expulsam as duas mulheres)
PAPA – Rezemos… (Interferência no vídeo e na acção)
ANIMADOR – Perdemos o contacto com o Vaticano. Voltaremos dentro de momentos. Segue-se canção moderna de homenagem a Fátima, a nossa sucursal do Vaticano.
(Dança e canção meninas “Doce”)
Cantamos uma canção Com o coração Nas mãos Rebolando na cama É quando você ama Campeãs da alegria Nós queremos é folia Viva a Cova da Iria!
(Bravos. Off)
(português)- 1º aviso das minas- IRONIA
4. O GRANDE SUSTO
AVISO RÁDIO E VÍDEO – Confirma-se que desapareceram milhares de habitantes de várias regiões sob o nosso controle. Espera-se que tenham sido vítimas do primeiro ataque e que se tenham dissolvido. No entanto, existe a confirmação segura de muitos se terem encaminhado para as minas abandonadas.
General – para as minas ? ah,ah,ah…as ratazanas vão para as minas…
Dr. Rato Tangerina – que povo tão estúpido! Que falta de civilização! Andámos nós a gastar dinheiro na escola com esses brutos! Então essa gente não sabe que os gazes envenenam?
Mad. Romy – que há explosões, que caiem pedras e podem ficar enterrados vivos ! Uma morte horrível ! ao menos que morressem ao ar livre, sofre-se menos !
José Shell – E é mais saudável. Esse tipo de gente nem merece viver.
Silva – olhe, para eles a morte até é uma sorte. Não é o nosso caso, que a gente faz falta.
Padre –muita falta…mas não se esqueçam que eles vão para o Céu…pobres, incapazes, infelizes…
Animador – desculpem, mas temos de sentir algum desgosto, lamentar essas pobres existências…
Fado dos Tristes
De pobreza em miséria Fui sentindo sofrimento E nenhuma estrela etéria (bis) Me levou ao Firmamento
Com tanto padecimento Tanto ódio e desprezo A morte levou meu alento (bis) Fiquei em paz e sossego
(Árabes)
No vídeo surgiu a imagem de um minarete com um árabe de mãos elevadas para o céu. O animador – o Abrigo dos Árabes do Petróleo. Mostraram umas danças antigas, apareceram o Aladino com a lâmpada e a Sherazade com o seu livro de memórias nocturnas, e passou – se a uma entrevista com uns príncipes e Reis dessas faustosas regiões hoje conhecidas por “Al escuro viscoso” devido ao petróleo, feliz modernização do saudoso El Dorado de Incas e Aztecas. Depois de uma panorâmica que mostrava os esplêndidos arranha – céus onde eles se encontravam, o mais velho, pai do Matusalem, começou a falar:
Velho Árabe– eu sou pai do Matusalém e lembro-me como tudo começou. “eu e o meu primo tínhamos roubado um camelo e fugido para o deserto. Os dias passavam e até o camelo começou a ir – se abaixo, fraquíssimo, sem alegria, a bossa que já estava velha começou a desfalecer, a ficar pendurada… chorou, chorou, começou a deitar baba de camelo, aproveitámos, e depois morreu. Foram mais uns dias terríveis, isolados, cercados por escorpiões, aranhas, e a sede a dominar – nos, já nem tínhamos urina para beber, gritámos para o céu, gritámos, o céu não respondeu, desprezando em absoluto as nossas suplicas, e foi então que, do milenar monte arenoso brotou um enorme jacto de agua e, em segundos, surgiram palmeiras floridas cobertas de tâmaras, a relva bordejou o lago que se tinha formado, e um frondoso vergel foi uma alegria para os nossos olhos e para a nossa língua que gritava de júbilo “Viva o oásis!”. Depois, procurando mais agua, tinhamos tido a infelicidade de encontrar um líquido preto e viscoso, e como eramos muito religiosos, julgamos que era castigo Divino; felizmente, apareceram por ali uns brancos pobretanas e miseráveis que compraram aquela agua suja. Parece que servia para se aquecerem e fazer andar umas máquinas, passado pouco tempo, ficámos todos ricos. Madame Romy – Magestade, desculpe. Continuam com a hábito dos haréns ? Rei – com certeza, são hábitos antigos. Quanto mais mulheres, melhor. Madame Romy – eu ofereço os meus préstimos para abastecimento regular e diversificado de juventude masculina e feminina… (Começa cerimónia com vinho do Porto) Rei – terminou o nosso tempo. Que nos encontremos na duna fronteira a Meca ao raiar do Sol posto. Começou oração do minarete para uma nova acção de graças. Viraram as costas, ajoelharam – se , curvaram – se, e levantaram o rabo para cima. Sr. Silva – estes Árabes! Ordinários ! A virarem o rabo para a gente!
(Português)- 2º aviso das minas – Medo, indignação / Dança La cucaracha / Droga / padre pedófilo / canção “ O Futuro”
RADIO – Atenção, atenção ! o aviso sobre a fuga da populaça para as minas confirma –se. Diz-se que elas são um refugio seguro.
GENERAL – Para as minas…refugio seguro ? mas, então, salvam-se!
M. Romy – como é possível ?
General – Madame, aquela gente é como bichos, insectos. Habituados à miséria, à fome, contentam-se com pouco, resistem a tudo. São como as baratas. Você sabe que as baratas já existiam na época dos dinossauros? Imagine : os dinossauros desapareceram e elas continuam !
M. Romy –não me diga que nós somos os dinossauros!
General – olhe, baratas não somos…
Animador– La cucaracha, la cucaracha Ya no puede caminar Porque no tiene, porque le falta Marihuana que fumar. English The cockroach, the cockroach Can’t walk anymore Because it doesn’t have, because it’s lacking Marijuana to smoke
Vozes –marijuana…droga…
Animador ( distribui droga) – sr. Padre, desculpe este pecado…
Padre – que conversa é essa? eu sou padre, mas não sou parvo. Quer ensinar o Padre Nosso ao vigário? Sabem como é que se passava cocaína na minha santa missa? Dentro das hóstias!
Vozes – bravo! Bravo!
Padre – E sabem quem é que me deu essa santa invenção? Uma das minhas muitas afilhadas(risos), pequenina, ladina, só tinha 7 anos mas sabia tudo..e também um anjinho mais novinho…muito inteligente, queria saber mais que ela…
M. Romy – um anjinho? Oh senhor Padre…
Padre – por favor, não se façam de ingénuos…depois de tantos processos a padres por pedofilia, com o Vaticano a pagar milhões, ainda querem fingir que isso não existe? Um padre é um homem como os outros, ora essa!
M. Romy – sim, mas isso dos anjinhos!
Padre – os anjinhos não têm sexo, quer dizer que podem ter qualquer sexo. ( gargalhadas)
M. SILVA – Deixem lá os anjinhos em paz. Eu não estou a gostar nada da conversa das minas. Ainda por cima podem safar-se e não pagaram nada.
MULHER – Não, meu Deus! Isso são coisas desse povo ignorante que acredita em tudo…minas!
PADRE – Deus é misericordioso, e não permitiria essa injustiça. Se as minas eram o Inferno na terra, criavam doenças, morte, gazeados, loucos, não podem de repente ser a salvação desses miseráveis. Não pode ser, ou há o Bem ou há o Mal. E as minas foram sempre o Mal.
M. Romy – que bem me fez ouvir essas palavras sábias…esse conhecimento profético…
DR. RATO TANGERINA – E não é só a lei Divina…Também há a Ciência…Não vamos acreditar que as regras de sobrevivência, por nós estudadas, estão erradas…
MULHER – Mas estudaram as minas?
DR. RATO TANGERINA – E você ia para uma mina abandonada? Tenha juízo!
PADRE – O futuro é simples: não temos ninguém para nos fazer concorrência, tudo é nosso. Merecemos usufruir de tudo. Viveremos colhendo o que existe, instauraremos um novo regime de prazer, estaremos armados – senhor General? GENERAL – Está aí tudo o que é preciso.
DR. RATO TANGERINA – Estaremos armados para nos defendermos dessa gente das minas e de ataques dos outros Abrigos.
General – defender ou atacar…
José Shell – cuidado, não comecemos a pensar que temos de atacar os outros.
General – se os quiser dominar, como é que faz? oferece flores e dança uma valsa ?
José Shell – olhe que é capaz de ser assim. Não é com vinagre que se apanham moscas.
General – e depois ? eu não quero apanhar moscas, quero cá saber das moscas, apanho moscas e depois ? Faço um petisco com as moscas, dou moscas aos pardais ? Deixe-se de moscas.
José Shell– o sr. General não está a querer perceber. Ninguém lhe quer tirar a importância do seu posto, da sua carreira, do papel das armas na evolução da humanidade…mas…
M.Romy – Zézinho explique-nos as coisas, você é tão complicado.
José Shell – o sr. General está a pensar no tempo das ditaduras. Não se podia falar, tudo era proibido, como as pessoas se revoltavam havia repressão e censura.
General – está a ver!
José Shell – era o tempo do Hitler, do Franco, do Mussolini, do Salazar.
General – bons tempos. E do Staline, esse bandido.
Dr. Rato Tangerina – a ditadura, as ditaduras…pode-se viver bem…olhem, eu era advogado, a lei é a lei, era só saber manobrar… (risos)
Sr. Silva – e o dinheiro por baixo da mesa ?
M. Romy – ou em cima da cama…meus amigos, para meter cunhas a sério para obras, empregos a sério: Ministros, banqueiros, o que fosse preciso, ninguém podia passar sem a Madame Romy!
Dr. Rato tangerina – por algum motivo foi especialmente seleccionada para o Futuro!
M. Romy – Será a loucura, meu Ratinho?
Dr. Rato Tangerina – minha querida, oiça esta canção… minhas senhoras e meus senhores, uma SURPRESA!
(Dança e canção sobre o futuro. Frenética, etc.)
O FUTURO
O futuro é nosso E de mais ninguém Ganhámos mundos e fundos Somos gente de bem Formoso Gostoso Amoroso Acabou a luta maldita A desdita Da raça pobre Somos a gente bonita Nada aflita De cepa nobre
(Aplausos , muitos aplausos)
(português)- campanha Presidente do Futuro
(Campanha para futuro Presidente do Futuro)
DR. RATO TANGERINA – Aproveito a oportunidade, magnífica e indiscutivelmente rara, para falar de algo que, sem alguma dúvida, se não nos preocupa hoje, nos pode vir a preocupar dentro de algum tempo. Refiro-me a uma questão, para todos nós do máximo interesse: é a de defender, de uma forma capaz e consentânea, não só os princípios mas também os desejos e aspirações destes predestinados que aqui se encontram, devido ao seu único e exclusivo mérito, no local de onde saíram para preencher as novas necessidades de um mundo que, entretanto, por motivos a que se poderiam chamar ontológicos ou seja têm a ver com o ser do que se está a tentar definir, vão, por isso mesmo, ter de assumir, uma nova regra social, sem subterfúgios, directa, dinâmica, e ao mesmo tempo, contemporizadora e equilibrada. Na medida em que me interesso particularmente pelo nosso futuro, e dado que já dei – espero que assim me julguem – algumas provas de pertinácia, e ao mesmo tempo, de espírito de consenso – quero pôr à vossa consideração a hipótese da minha candidatura à presidência do FUTURO. Não tenho nada a prometer, senão o esforço da clareza na exposição das nossas dificuldades, e uma vontade tenaz no sentido de, finalmente, podermos ter a felicidade a que todos temos direito, e conquistar a paz, a tranquilidade e a justiça. (Cala-se, espera palmas, mas continua um grande silêncio). Talvez vos pareça extemporânea esta candidatura… infelizmente, eu sei que temos de começar a pensar nestas questões com uma grande antecedência, e que, no nosso caso, é bom conseguirmos um acordo de cavalheiros. Não me parece difícil, dado que as velhas lutas e dissensões partidárias se tornam ridículas no momento presente.
(Gritos e bravos)
Sr. Silva – se aquele mundo acabou, o sr…
Dr. Rato Tangerina – Tangerina…
Sr. Silva – Parafina, sim Parafina…se já não há partidos, para que é que estamos com estas conversas? Para mim, o que tem de se fazer é simples: quem tem dinheiro é que manda, as industrias têm de estar concentradas nas mãos de meia dúzia que controlam os preços, e essa gentinha que trabalha obedece a leis e horários e bico calado.
Dr. Rato Tangerina – Compreendo os problemas do sr. Silva. Já que vamos criar um mundo novo, que saibamos não cair nos erros de antigamente. Agradeço a sua intervenção muito honesta e inteligente.
Sr. Silva – tudo isso é a minha experiência de vida. Eu é que sei o que sofri.
Dr. Rato Tangerina – o FUTURO será puro e esperançoso. É evidente que o nosso hino será – e era esta a surpresa – a maravilhosa canção que ouvimos. Outra vez, por favor !
(Faz um sinal e entram Majorettes. Repetição da canção FUTURO)
Muito obrigado pela vossa confiança. Alegremo-nos e confiemos no novo futuro que vamos construir.
(Distribuição de camisolas, bandeirolas, etc.).
(português)- Confissão de crime, gravação de memórias /execução
(Continua)

