Pela sua extensão, este excelente post de Álvaro José Ferreira, é segmentado em duas partes.
Nota prévia:
Para ouvir as músicas há que aceder à página http://nossaradio.blogspot.pt/2013/06/a-vitoria-do-azeite.html e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.
O AZEITE
Roubaste ao sol a luz que te escorrega
pelo dorso
quando cais em fio
aproximando-te dolente de uma música de sal.
Caminhas paralelamente
às mais vastas extensões azuis.
Vestes a sardinha
com teus líquidos fatos
de fazenda grossa e lenta.
Beijas o tomate.
Casas o teu corpo dócil mas altivo
com a renda de brancura de uma fatia de pão.
Em ti o Livro existe
ó verde irmão.
E a bandeira existe.
E os deuses mais antigos.
E o barro da palavra dignidade.
És o amigo mais puro
dos puros azeitoneiros.
Sangue do seu sangue.
Mágoa dos seus olhos numa fronteira
queimada.
Entras na boca dos pobres
com a tua doçura vegetal
e a tua transparência
tão densa
como um sexo de mulher.
És o meu consolo
ó líquido cristal.
Em ti
há um mar tranquilo
a espreguiçar-se todas as manhãs,
e todas as mães cantam
e os deuses vêm consagrar
a casa daqueles que te oferecem
a luz de um olhar sem mancha
ao nascer de cada dia.
(José Fanha, in http://zefanha.blogspot.pt/2006/08/o-azeite.html)
«Nem todas as notícias pressagiam marés de desgraça ou confirmam os temidos ventos adversos sobre o Sul da Europa. É natural que num ano particularmente difícil para os europeus periféricos face ao centro geográfico e económico que é Berlim, podíamos e devíamos estar a ser brindados, ao menos, com as bênçãos do clima. Nem isso! Com uma desgraça nunca vem só, temos que suportar chuvas, ventos e frios fora de época e já começamos a fazer contas ao que estas nuvens negras nos vão trazer de despesa, desde a agricultura ao turismo. Torna-se compreensível neste quadro cinzento-escuro que nos agarremos a tudo o que possa representar uma novidade positiva ou, no limite, uma confirmação simpática. É o caso de uma notícia trazida até nós pelo “Jornal de Notícias” e que nos dá conta de uma conclusão animadora de um estudo, realizado pela Universidade de Navarra, tendo como ponto de foco a alimentação. A sentença dos cientistas é então esta: a dieta mediterrânica, alegadamente praticada em Portugal também, não se limita a ser boa para o coração – é igualmente benéfica para o cérebro ou se quisermos pormenorizar, e passo a citar, “o azeite e os frutos secos melhoram significativamente a capacidade cognitiva dos adultos”. Ora vamos lá dissecar a história. O Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra teve como base de trabalho 522 adultos com idades compreendidas entre os 55 e os 80 anos, com uma particularidade: nenhuma destas pessoas apresentava problemas cardíacos mas todas tinham aquilo que é considerado um perfil de risco derivado de diabetes [do tipo 2], de hipertensão ou de consequências do tabagismo. Parte deste grupo adoptou a dieta mediterrânica e passados seis anos e meio foram realizados testes que visavam apurar eventuais problemas de deterioração cognitiva. Ora segundo o jornal espanhol “El Mundo”, que refere declarações do cientista responsável por este estudo, Miguel Ángel Martínez, a incidência de problemas cerebrais era substancialmente mais baixa naqueles que tinham perfilhado a referida dieta. O médico justifica este desfecho com o seguinte: o azeite consegue eliminar do cérebro a proteína beta-amilóide, tida como a responsável pela doença de Alzheimer; além disso, o mesmo azeite reduz inflamações e o risco de diabetes. O estudo, publicado pelo “Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry”, defende que ainda assim são necessários mais estudos para apurar melhor as propriedades antioxidantes da dieta mediterrânica.
Está confirmado então que os cereais, as frutas, as hortaliças, o peixe (mais do que a carne), alguns lacticínios, e as gorduras ligadas ao azeite e às nozes nos deixarão mais próximos de evitar a degradação do nosso próprio cérebro. A pequena ou média contradição vem, claro está, do facto de termos que matar a cabeça para descobrir como, nas actuais circunstâncias, podermos pagar a dieta mediterrânica que nos pode salvar a cabeça. Com tudo isto continua a falhar-me a origem e o alcance da expressão “estar com os azeites”. Afinal, é uma coisa boa! E digo mesmo mais: a partir daqui, de hoje, agora e sempre – azeiteiro e com muito orgulho.» (João Gobern, na crónica “A vitória do azeite”, da rubrica “Pano para Mangas“, 22-Mai-2013).
E como está, nos dias de hoje, a olivicultura em Portugal? A impressão que tenho é de que se trata de um sector em declínio. Será mesmo? Se sim, seria bom que quem tem poder de decisão na matéria lesse notícias tão boas como esta e agisse em conformidade!
Em jeito de ilustração musical ao presente assunto, aqui se deixam alguns espécimes musicais relacionados com o fruto do qual se extrai o azeite – a oliva ou azeitona – e, bem assim, com a árvore que a produz, a oliveira. Tratando-se de repertório boicotado na actual Antena 1 (perdão, na coutada de Rui Pêgo e António Luís Marinho, sustentada pelo povo) mais uma razão para o blogue “A Nossa Rádio” proporcionar a sua audição/descoberta.
(Conclui amanhã)
