Os velhos
Acabo de ouvir o programa “Portugal em Direto” (Antena 1) de 27 de maio de 2013. Reportagens em Caminha, Castelo Branco e Idanha-a-Nova, onde foram gastos milhões de euros para criar unidades de cuidados continuados. Em Caminha – por exemplo – as obras custaram três milhões e ficaram concluídas em 2008, trinta e sete funcionários chegaram a receber formação, no entanto ainda o centro não abriu, havendo entretanto custos de vigilância e manutenção… Seguiu-se uma entrevista à doutora Inês Guerreiro, a Coordenadora da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI).
Esta Coordenadora começa por anunciar que “há que fazer grandes mudanças” pois, segundo ela, “o dinheiro vai todo para os hospitais”. Primeiro índice: o tempo de hospitalização será reduzido. Por conseguinte impõe-se investir nos cuidados continuados, pensará logicamente o leitor, estando aliás isto anunciado como prioridade do Governo. Pois pensa muito mal.
A doutora Inês Guerreiro embaraça-se nas palavras. A população mudou completamente, “de repente abateu-se-nos uma realidade”, afirma ela, nota que a frase segue por mau caminho e atalha que “o acesso aos serviços de saúde e as condições de vida que Portugal proporciona à sua população é cada vez melhor”… Ponhamos de lado os erros de português e passemos de imediato à preocupação do Governo: demoramos a morrer. Eis o problema. A Medicina trata agora doenças que causavam uma mortalidade precoce, o cancro, a pneumonia, o AVC, por isso vivemos mais anos, logo se o Governo pretende reduzir as hospitalizações, cumpre abrir unidades de cuidados continuados… Teima ainda o leitor. Mas deixemos aqui a lógica, um luxo de países ricos; a lógica deixou de ser portuguesa. Sobre Castelo Branco e Idanha-a-Nova, onde as Misericórdias gastaram milhões de euros, a Coordenadora da RNCCI anuncia: “Não há dinheiro para poder abrir essas unidades”. E passa à explicação:
– Esse dinheiro não existe porque é necessário que se façam reformas que permitam que o dinheiro seja investido naquilo que são as prioridades de acordo com as necessidades da população.
Uma frase não pouco arrevesada. De que necessita um idoso incapaz de comer, de se lavar, de se vestir, de mudar as fraldas, de se deslocar sem cair? De que necessita a sua família? Que vive longe, que tem o emprego, os transportes, os filhos para criar, as casas para pagar… Cá está outra vez o leitor… Não: isso seria lógico. (E já fixámos este parâmetro.) O governo anunciou a criação de 17000 camas até 2016, lembra de novo a entrevistadora – Cláudia Costa – que também se obstina na lógica.
– Quantas estão afinal previstas?
– Ainda não foi decidido. O que é certo é que precisamos de redobrar o nosso apoio domiciliário…
– E temos redobrado esses apoios?
– Tudo isso está ligado à reforma do sistema. Não se pode incrementar um nível de cuidados sem que outro nível do sistema que consome toda a verba seja reformado e seja modificado e seja diminuído…
Como A depende de B e B depende de A: não se faz nada. Segundo índice. Custou a chegar e não tem lógica. (Eu não dizia?…) Cláudia Costa volta a insistir na rede de cobertura dos cuidados continuados, a Coordenadora esclarece que o maior défice é em Lisboa e Vale do Tejo.
– E no interior do país?
Se os leitores pensam que o interior dispõe de poucos recursos, fiquem a saber que pensam mal, banalmente mal, pois no resto do país os doentes “têm muito apoio ainda da vizinhança”.
– E isso chega?!
Pergunta da entrevistadora. Pergunta minha. Pergunta dos leitores desta crónica. Pelo que se deduz da resposta integral – tão difícil de traduzir para português como o resto da entrevista – embora a Coordenadora replique que não, “de maneira nenhuma”, pelo que ela acrescenta, ficamos desconfiados, porquanto a reforma do sistema passa por “ensinar a vizinhança e os próprios familiares a cuidar das pessoas”, isto é, repete ela, pela “partilha destes cuidados com os cuidadores”… Um eufemismo. Os leitores já adivinharam onde serão criadas as 17000 camas de cuidados continuados. A Coordenadora não o disse, mas podemos todos deduzi-lo: nas casas dos doentes. Com a ajuda dos vizinhos que, consequência de aumento no tempo de trabalho e de não poderem circularem pelas auto-estradas, chegam a casa às dez da noite; restam-lhes duas horas para tratarem do idoso que sobreviva mais perto.
Tais sarilhos são a consequência de sermos “um país de pessoas com muita idade e com pouca saúde”. Felizmente a Antena 1 chamou uma especialista para explicar aos portugueses que, quando somos jovens e temos saúde, nos lavamos, vestimos, alimentamos e deslocamos sem ajuda; e, por a entrevistadora fazer decerto a mesma cara que os leitores, a doutora Inês Guerreiro conclui com esta máxima: “Não é forçoso que um país gaste mais dinheiro com os seus velhos se eles tiverem um nível de saúde adequado”.
(Não, não é erro de transcrição. No dia 27 de maio de 2013, por volta das treze e trinta, a Coordenadora da Rede Nacional dos Cuidados Continuados Integrados disse isto mesmo numa entrevista à Antena 1.)
Ficamos então esclarecidos quanto às reformas do Governo: reduzir a hospitalização e entregar os “velhos” (volto a citar a Coordenadora da RNCCI) aos vizinhos. Mas por que há-de o Governo gastar dinheiro se, daqui em diante, quanto mais idade mais saúde? Deve ser esta afinal a reforma. Temos um Governo capaz de achados geniais e de nomear funcionários com este nível de expressão em português (para além de um manifesto respeito pelos idosos). Estamos portanto bem arranjados porém, como o riso é saudável, sugiro aos leitores o podcast e audição deste programa que não deixa de ter a sua faceta cómica… É que, como cantava o Dr. Vasco, morrer por morrer: que seja a rir.
