UMA CARTA DO PORTO – Por José Magalhães – EDIÇÃO ESPECIAL

24 de JUNHO DE 1128 – DATA DA FUNDAÇÃO DE PORTUGAL

Por: Pedro Baptista *

Comemora-se hoje, dia 24 de Junho e de São João, o 889º aniversário da fundação de Portugal como país independente.
Com efeito, a vitória do partido de Afonso Henriques, que englobava, entre outro, o Bispado de Braga e do Porto bem como a maioria dos senhores de Portucale e Entre Douro e Minho, derrotando o partido da mãe, Teresa, que englobava Peres de Trava e um número destacado da fidalguia galega, na Batalha de São Mamede, perto do Castelo de Guimarães, é o marco mais decisivo e definitivo de todo o processo da fundação de Portugal.
O historiador José Matoso vai mais longe e, na senda de Fernão Lopes e Rui de Pina, opta por definir o corte em 1096, com a fundação da Casa de Borgonha e a instalação de dom Henrique e de dona Teresa. Outros, pelo contrário, lançam a data fundacional para 1143, data do Tratado de Zamora em que o imperador Afonso VII, rei de Leão e Castela, aceitou Afonso Henriques com o título de Rex Portucalensis… Outros ainda projetam a data da fundação para o reconhecimento de Roma, em 1179, com a bula Praeclaris Probatum.
Com a maior consideração pela tese de Matoso, a nosso ver, a data que deve ser a única para o momento mais decisivo do processo separatista e independentista que levou à Fundação de Portugal, será, na linha do defendido por Alexandre Herculano e, atualmente, por António Borges Coelho, a de 24 de Junho de 1128, pois é nesse momento, com a vitória militar no terreno, que se cria a realidade que vem a ser confirmada depois em diversos momentos políticos das relações internacionais.

 

“A primeira tarde portuguesa”, como lhe chamou Herculano, foi a que hoje faz 889 anos, pois a independência de Portugal não se deve nem a Afonso VII de Leão nem ao papa Alexandre III. Pelo contrário! A nossa independência fez-se contra eles, numa realidade firmada no terreno pelas armas que materializaram uma ideia autonomista há muito em gestação e crescimento: Afonso VII reconheceu o inevitável depois da derrota de São Mamede e de outras derrotas sucessivas… O Papa depois de ver uma realidade irreversível e, mesmo assim, sacando o censo anual de oito onças de oiro, ou seja dobrando o tributo pago pelo reino a Roma.
Nem sei como hei de classificar teses historiográficas que, no fundo, se reduzem a mitos, que querem colocar a independência dum país nas datas em que os adversários dessa mesma independência a são obrigados a engolir…
Sabemos como o próprio centralismo procura sempre distorcer a história de Portugal. Como me atiraram uma vez no parlamento, numa provocação de dedo em riste que era uma armadilha em que não caí, por uma distinta deputada que, infelizmente, já não está entre nós: “Só podemos considerar a constituição de Portugal a seguir à aclamação do povo de Lisboa”. É por isso que, a partir de determinada altura, passaram a considerar desagradável a realidade história da Batalha de São Mamede, em 1128!
A data fundacional é quando a ideia e vontade de independência se transforma numa realidade no terreno.
Portugal faz hoje 889 anos!

 

 

 

 

 

* Pedro Baptista nasceu em Nevogilde, Porto, em 1948. É romancista, ensaísta e investigador.

Pertenceu ao grupo de investigação no Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, bem como ao extinto Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica- Porto e no Centro Interdisciplinar de Direitos Humanos da Universidade do Minho.

Doutorou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 2005 com a tese “A Pluralidade na Escola Portuense de Filosofia – O Pensamento Moral e Político de Newton de Macedo” mais tarde publicada na Imprensa Nacional Casa da Moeda (2010).

Publicou “Ao Encontro do Halley” (ensaio, 1987), “Sporá” (romance, 1992; finalista do Grande Prémio do Romance da SPE), “O Cavaleiro Azul” (romance, 2001), “Pessoas, Animais e Outros que Tais” (narrações, 2006), “Centenário do Gabiru” (estudo, 2007), “A Queima do Cão de Palha” (2008), O Filósofo Fantasma – Lúcio Pinheiro dos Santos (2010). É autor de diversas comunicações no campo da filosofia.

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Escrevo e fotografo pelo imenso prazer que daí tiro

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