A RECEPÇÃO LITERÁRIA DE MIGUEL ANGEL ASTURIAS EM PORTUGAL – I – por Manuel G. Simões

O primeiro contacto que estabeleci com o nome e a obra de Miguel Angel Asturias foi, por assim dizer,Imagem1 meteórico, através duma antologia de poesia da Guatemala que, não se sabe por que artes, se vendia na Livraria Almedina, em Coimbra. Talvez porque se tratasse de uma antologia poética, além do mais em língua castelhana, a vigilância censória não se preocupou particularmente com aquele volume: na melhor das hipóteses, os possíveis destinatários seriam os estudantes universitários interessados no discurso poético de outras geografias, na tentativa de confrontar as experiências poéticas com as que se produziam no país.

 Nessa altura pertencia eu à redacção da revista “Vértice”, de Coimbra, que se reunia regularmente uma vez por mês. Numa dessas reuniões, em 1967, na véspera da atribuição do Prémio Nobel para a Literatura, o poeta Joaquim Namorado, em jeito de confidência, como se estivesse no segredo dos deuses, comunicou-nos ter conhecimento de quem iria obter o prémio. Dizia-o tão convictamente que estava disposto a apostar com toda a gente, de tal modo a sua informação era segura: o premiado seria um escritor da Guatemala, praticamente desconhecido em Portugal, de seu nome Miguel Angel Asturias.

 Como tinha conseguido tão secreta informação? Por mera dedução que, depois de explicada, nos parecia óbvia. Naquele mesmo dia tinham-lhe telefonado duma editora de Lisboa, pedindo-lhe elementos biográficos sobre Asturias, a mesma editora que, no momento da declaração do vencedor do Nobel, viria a anunciar a aquisição dos direitos de tradução da obra do grande autor guatemalteco. Ao que parece, a atribuição do prémio, nesse ano, foi coisa  pacífica, ao ponto de se conhecer, com antecedência, o nome do quase certo futuro premiado; pelo menos a senhora Snu Abecassis, de nacionalidade sueca e então directora da Dom Quixote, agia de consequência, assegurando antecipadamente os direitos, para a língua portuguesa, do escritor laureado pela Academia Sueca em 1967. Em todo o caso, sabe-se que a publicação em Portugal de Miguel Angel Asturias era um antigo projecto daquela editora, várias vezes sugerido pelo seu director literário, Carlos Araújo. Creio, todavia, que só a atribuição do prémio Nobel levou Snu Abecassis a decidir-se, passando do projecto à concretização.

 Seja como for, é o acaso a proporcionar movimentos coincidentes, como o que me conduziu ao lugar exacto onde conheci pessoalmente Miguel Angel Asturias, em Maio de 1972, encontro inesquecível por uma série de razões, simultaneamente culturais e emotivas, a primeira das quais consistia na circunstância de poder dar, finalmente, uma imagem concreta ao que era apenas imaginação: refiro-me, claro, ao escritor, mas também a um cenário de excepção como o de Veneza. De facto, em 16 de Maio daquele ano eu via pela primeira vez os reflexos de ouro da Sereníssima, tendo podido assistir, no esplendor da Aula Magna da Universidade de Veneza, à cerimónia do doutoramento “honoris causa” daquele grande “girador” guatemalteco.

 E, no mesmo dia, haveríamos de “sacralizar” o duplo encontro durante o almoço no “Da Raffaele”, através do vinho do seu génio e do seu conhecimento das enseadas do mundo, ou durante a festa no Hotel Bauer, mais virada para a confraternização do que para mundanidades, e onde doña Blanca (mulher do escritor) me haveria de falar de Lisboa, das suas contradições daquele tempo amargo – que hoje persistem, hélas! – e do meu espanto perante o que ela considerava um traço distintivo da capital portuguesa, uma espécie de ex-libris na memória da sua breve estadia: a proliferação das ourivesarias, talvez por se ter dado conta da existência da Rua do Ouro, o que não era uma boa razão, como ousei contrapor-lhe.

Imagem1 Falando propriamente da recepção literária de Miguel Angel Asturias em Portugal, assinale-se a publicação, ainda em 1967, de “Lendas da Guatemala”, com tradução de Pedro da Silveira, pela citada editora. A edição portuguesa reproduz também a famosa “Carta de Paul Valéry a Francis de Miomandre”, traduzida certamente do castelhano, em que se fala do êxtase e da magia que o texto produziu no poeta: «Agradeço-lhe ter-me dado a ler estas “Lendas da Guatemala”, do Sr. Miguel Angel Asturias. Como escritor tem sorte, porque a tradução do seu trabalho é deliciosa, por conseguinte excelente [a ed. francesa do romance é de 1931] … Quanto às lendas, deixaram-me extasiado. Nada me pareceu mais estranho – quero dizer, mais estranho ao meu espírito, à minha faculdade de atingir o inesperado – do que estas histórias-sonhos-poemas em que se entremisturam as crenças, os contos e todas as idades dum povo».

 Na altura do lançamento de “Lendas da Guatemala”, Miguel Angel Asturias deslocou-se a Lisboa onde, entre outras acções, participou num programa literário da RTP, acompanhado pelo tradutor. E a editora apresentava-o ao público na sua essencialidade: «O sangue índio que, pelo lado da mãe, lhe corre nas veias está em parte na base da sinceridade com que Asturias vive nas suas obras a tragédia dos índios do seu país. Logo no seu primeiro livro – “Lendas da Guatemala” – Asturias apresenta-se como um escritor altamente dotado, cuja escrita levanta em larga escala um problema tão debatido no âmbito da estética literária: a questão das conexões entre o fantástico e o real» (do texto da contra-capa).

 (continua)

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