Dois brilhantes exemplos da temporada cinematográfica de 2013
Um dos setores que mais demonstraram de sofrer com a crise econômica mundial começada em 2008 foi o cinema. Sendo uma atividade baseada absolutamente no conceito de produção, portanto exigindo capitais sempre significativos, a indústria cinematográfica deve fazer as contas com todas as novas dificuldades vividas pelos nossos tempos. Devido a uma obrigatória diminuição dos números da produção, o cinema internacional passa ainda hoje por grandes dificuldades. Com isso, determinados cinemas nacionais tiveram diminuído de maneira significativa a própria produção anual, o que faz com que os números gerais do setor se apresentem fortemente afetados.
Ao lado dessas dificuldades materiais, logicamente a produção internacional viu diminuída igualmente a presença de filmes de particular valor artístico, coisa que está acontecendo ainda com os filmes da temporada atual de 2013. A média artística das películas apresentadas abaixou em maneira visível, o que provoca como reflexo o correspondente abaixamento dos números de expectadores pagantes.
Tudo isso, felizmente, não impede que as salas cinematográficas – elas igualmente diminuídas em números e em dimensões por todo o mundo – não souberam até aqui oferecer-nos exemplos de filmes de alto nível artístico. Porém, como certamente acontecerá sempre, poderemos sempre assistir a grandes películas vindas de todas as partes do mundo. Nesse sentido deve-se registrar que obras magníficas têm aparecido também de centros produtores menores, como a Turquia, o Egito, o Afeganistão, o Iran. Mas não deles trataremos com o presente artigo. Nele, desejamos falar de dois produtos de alto nível que nos chegam do maior centro produtor internacional, os Estados Unidos, dois filmess que entram de direito no rol do grande cinema de todos os tempos: Lincoln, de Steven Spielberg, e Quarteto, de Dustin Hoffman.
Lincoln, dirigido por Steve Spielberg, é mais uma grande demonstração da capacidade do diretor americano de realizar produtos cinematográficos que sabem unir os elementos mais salientes do setor específico da grande produção às dimensões próprias de uma verdadeira obra-de-arte. Drama histórico que salienta os tumultuados últimos meses da presidência do grande estadista estadunidense do século XIX, o filme de Spielberg sabe captar o interesse constante dos expectadores por todos os 150 minutos de sua projeção. Além de uma sábia direção, tal sucesso é devido igualmente à magistral interpretação que o grande ator de origem inglesa e naturalizado irlandês, Daniel Day-Lewis, dá às vicissitudes do presidente Lincoln na sua luta pela libertação dos escravos e consequente definitiva unificação dos Estados Unidos, até a trágica fine do Presidente, vítima de um atentado num teatro de Boston. Ao lado de Daniel Day-Lewis, encontramos outros grandes intérpretes que completam a beleza da obra de Spielberg: Sally Field, David Strathaim, Joseph Gordon-Lewitt, Tommy Lee Jones. O filme é completo, com uma hábil encenação de Tony Kushner, a partir da biografia Team of Rivals: The Political Genius of Abrahan Lincoln, de Doris Kearns Goodwin; muitas vezes épica a fotografia de Janusz Kaminski; música de boa integração com as imagens, de John Williams e sábia montagem de Michael Kahn.
A independência artística com a qual Spielberg desenha a personalidade do estadista Lincoln, e mais ainda como traduz as suas idéias políticas, todos esses elementos poderão provocar algumas rejeições entre os expectadores com idéias demasiadamente convencionais com respeito à personalidade do grande presidente, mas isso acontecerá somente em relação àqueles que não sabem alcançar completamente uma mensagem tradutora de um filme que entra de direito também na história do cinema de idéias.
Quarteto, direção de Dustin Hoffman, é um outro exemplo de cinema de alto nível. Estréia do grande ator americano como diretor cinematográfico, ele se faz reconhecer por detrás da câmera por aquela silente ironia que sempre carecterizou as suas grandes interpretações. Com um tal sistema de linguagem, Dustin Hoffmann mostra um micro-mundo, o da Becchan House, a casa de repouso para musicista que se amplia sempre e mais com as sutilezas vividas por seus hóspedes a cada dia e momento. Os hóspedes famosos daquela casa vivem os próprios dias embalados pelas vozes e opiniões, ditos verdadeiros e sutis pressupostos de ações e comportamentos os mais variados, por vezes contraditórios. Para Reginald Paget, Wilfred Bond, Cecily Robson, tal maneira de relacionar-se é a mais natural e excitante. Isso se faz mais intensamente em determinado dia, quando se passa a saber que está para chegar à Becchan House um personagem, verdadeira lenda da música. Todo o ambiente passa a viver desde então momentos convulsionados. Mas os três mais ativos protagonistas de tantas comoções são surpreendido, no final de tudo, quando descobrem que a nova inquilina, apenas chegada, outra não é senão a ex-patner dos três, Jean Horton, a mesma que, em razão de sua carreira como solista, bem como pelo particular tipo de ego por ela mesma cultivado, sempre se fez acompanhar – e o continuará a fazer – por um comportamento que já criara não poucos problemas à longa amizade do quarteto.
O magnífico estreiante na direção, Dustin Hoffman, guia um grupo de grandes
intérpretes que dão à sutil atmosfera do filme uma presença de realidade que se renova a cada momento. Esses intérpretes são Maggie Smith, Tom Courtenay, Billy Connolly, Pauline Collins, Michael Gambon. A encenação é de Ronald Harwoode, igualmente autor da homônimo peça teatral do mesmo título do filme, produto especial que nos guia no prazer sem limites de acompanhar a estréia como diretor do grande ator de Rain Man.
No excelso produto artístico de Dustin Hoffman merece igualmente particular a função protagonista da música, trabalho de Dario Marianelli, a mais variada música, num mundo encantado de musicistas em repouso, mas não excessivo…
