EDITORIAL – GREVES E NÃO SÓ

Imagem2Aproxima-se a greve de professores dia 17 que, tudo indica, muito irá dar que falar. Aproxima-se a greve geral do dia 27, com unidade na acção entre as estruturas sindicais da UGT e da CGTP, como já não acontecia há algum tempo e com a adesão das três estruturas sindicais da função pública. É uma reacção às últimas propostas do Governo. Preparam , medidas em que os trabalhadores saem claramente a perder: para só falar das principais, aumento do horário de trabalho semanal das 35 paras as 40 horas, redução salarial, o aumento dos descontos para a ADSE,no caso dos funcionários públicos, um novo sistema de mobilidade especial com limite de permanência e possibilidade de perda de vínculo laboral e a redução de trabalhadores por rescisão por mútuo acordo.

Por outro lado, a taxa de desemprego alcançou um novo máximo, de 17,8%, em abril, com o desemprego jovem a subir também para um nível recorde de 42,5% (dados do Eurostat).

Em contrapartida, temos notícias dos privilégios de muitos, aqueles que dos partidos, dos governos ou dos deputados, passam a chefias de bancos, de fundações, de parcecias público-privadas…

Mergulhados neste panorama, lembrámo-nos de uma livro lido há muito – “O Direito à Preguiça”, de Paul Lafargue. Obra de 1880, heterodoxa e irónica, manifesto virulento, uma crítica contra as conceções burguesas que estimam o trabalho como uma virtude. Nele se faz a defesa do direito ao ócio, em oposição ao tão proclamado “direito ao trabalho”. A luta pelo “direito à preguiça” é, segundo ele, a luta verdadeiramente libertária, através da qual se construiria uma sociedade mais justa, regida pelo aproveitamento do tempo livre e não pela lógica de um esforço irracional e desumano.

Ao preconizar uma jornada de trabalho de três horas, Lafargue deixa claro que na jornada actual de 8 horas ( antes de doze, onze, dez), o valor resultante das restantes entra directamente para o bolso do patrão.

Assim, “O direito à preguiça” é o direito à felicidade numa sociedade sem exploração do homem pelo homem. “Ó Preguiça, tem piedade da nossa longa miséria! Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo das angústias humanas!”

Heresia!

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