GIRO DO HORIZONTE – PROFESSORES EM GREVE. SOLIDÁRIO E SEM MAS – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]Já uma vez aqui me referi (GDH de 19 Nov 2012) ao cinismo, à hipocrisia dos que não tendo coragem para, apesar de o pensarem,recusarem o direito à greve, lhe acrescentarem sempre um reticente mas. No caso particular da greve dos professores de hoje, essa hipocrisia e cinismo raia a obscenidadede grande parte dos analistas e comentadores encartados que, reconhecendo que a razão está inteiramente do lado dosprofessores,apesar disso não conseguem ultrapassar o preconceito e lá vem o mas. “O direito à greve é inquestionável, mas… Os professores estão cheios de razão, mas…”Sempre um mas a condicionar a razão e o direito. Têm direito mas devem abster-se de o usar. Têm razão mas devem ceder à não razão do outro. Há aqui um problema de base que os fundamentalistas de serviço no apoio aos serventuários da tróika não querem ver, ou não conseguem ver, mas também não é a esses que me dirijo. A greve é um conflito entre duas partes, em geral resultante de uma rutura num processo negocial. Quem considera que uma das partes tem razão não pode deixar de considerar que a outra parte a não tem. Nessa perspectiva, a responsabilidade da rutura, logo da greve, é integralmente da parte de quem não tem razão. Ponto final.

Pretender que uma parte, apesar de ter razão, se deve abster de usar a única arma legítima de que dispõe, depois de esgotadas todas as outras, para fazer valer a sua razão, é estupidez. A greve causa incómodos?Obviamente que sim pois é exactamente aí que reside a sua eficácia. O argumento dos incómodos serve às maravilhas o poder destes agentes da tróika em Lisboa que optou, para sobreviver, na fractura da sociedade, na eleição maniqueísta de polos opostos para entre eles fazer passar correntes conflituais potenciadoras de cisões. Activoscontra aposentados, pensionistas da CNPcontra pensionistas daCGA, jovens contra idosos, empregados contra desempregados, trabalhadores do sector privadocontrafuncionários públicos,civis contramilitares, utentes do Serviço Nacional de Saúde contramédicos e enfermeiros, alunoscontradocentes, paiscontraprofessores, etc. etc. Tentam desviar a atenção do essencial e o essencial é que a sociedade é um todo e todos estes sectores sociais estão do mesmo lado, vítimasdas malfeitorias de um poder incompetente, fundamentalistareaccionárioe desacreditado. Os activos e os jovens de hoje são os pensionistas e os idosos de amanhã, os empregados de hoje estão condenados a ser os desempregados de amanhã, os funcionários públicos também estão ao serviço do sector privado, os professores também são pais, muitos dos alunos serão os professores de amanhã.

É mesquinha e criminosa a forma como o poder está a utilizar os alunos, a torná-los reféns da sua vingança contra os pareceres que lhe são desfavoráveis, contra a coesão dos professores, contra a unidade dos sindicatos. A Comissão Arbitral deu ao ministro uma hipótese de salvar a face sem sacrificar os alunos. O ministro está-se nas tintas para os alunos e preferiu o braço de ferro para demonstrar força, para exercer poder. O eterno argumento dos tiranos, à míngua de força da razão, recorre-se à razão da força. E mais uma vez, o que aliás já é recorrente, razão da força apoiada no recurso à mentira. Todos os que, com um mínimo de atenção, ouviram as declarações de Nuno Crato depois das reuniões com os sindicatos na passada sexta-feira, ouviram-no afirmar que não podia aceitar a sugestão da Comissão Arbitral de adiar os exames de hoje para o dia 20, porque seria abrir um precedente que colidiria com a calendarização programada. E ouvimos as declarações de todos os dirigentes sindicais comprometendo-se a não marcarem greves para esse dia se o ministro adiasse os exames. No dia seguinte ouvíamos, perplexos, as declarações de um senhor, creio que ministro, de nome Maduro mas muito verde nestas matérias e que nem sequer participou nas reuniões, afirmar que o adiamento não tinha sido possível porque alguns dos sindicatos não tinham dado garantias de evitarem greve nesse dia. É a falsidade despudorada, porque óbvia, ofendendo a boa-fé de toda a gente, mais uma vez ao serviço da política fracturante, terrorista, anti-social, da tentativa desesperada de dividir a luta sindical.

Esta gente não presta.

17 Junho 2013

1 Comment

  1. “Mea culpa”. Muitas vezes, artigos tão “redondos” – como são praticamente todos os de Pezarat Correia – passam, e por isso mesmo, pela sua intrínseca e sintética completude, sem comentários. Comentamos, quando discordamos ou não estamos inteiramente de acordo. Não comentamos, quando concordamos plenamente e nada temos a acrescentar. O meu comentário de hoje é precisamente para sublinhar esse facto: o artigo cobre todas as questões fundamentais que o tema suscita e explica-as muito bem, desmascarando cobardias e torpezas. Qualquer acrescento (no que a mim é dado apreciar) seria uma redundância. Mas eu, pessoalmente, regozijo-me por termos connosco quem tem capacidade para pensar e escrever algo que apenas me apetece aplaudir. Nunca, porém, o tinha dito. E precisava de o dizer.

Leave a Reply