CARTA DE VENEZA – 60 – por Sílvio Castro

 “A 55ª. Bienal de Arte de Veneza”

 A nova edição da Bienal de Arte de Veneza, inaugurada no dia 1 de junho apenas passado e que se prolongará até o próximo novembro, pode provocar uma reação negativa naqueles expectadores que ali foram ou irão para gozararem momentos particulares da arte contemporânea, porém nem mesmo esses  poderão permanecer completamente indiferentes aos resultados alcançados pela manifestação veneziana. Verdade é que pesa sobre esta uma atmosfera geral de inderteminado misticismo que pode chegar até mesmo à dimensão do religioso. Mas tudo sob uma impressão igualmente de concreto, derivada da riqueza das propostas feitas pela curador, Massimiliano Gioni, crítico italiano, jovem quarentão afirmado internacionalmente, co-diretor do New Museum de Nova Iorque e diretor-artístico da Fundação Trussardi.

 Mioni desenvolveu a sua tese para a presente edição, de título “O Palácio Enciclopédico“, com a clara intenção de afirmar e documentar quanto a arte do passado influencie não só o presente, mas igualmente proponha a perspectiva mais ampla de um tempo post-moderno. Trata-se do sonho de uma possível “Enciclopédia das artes”, no qual perpassa sempre Kandinsky, ainda que não citado.

Um dos grandes problemas de todas as edições da ultra centenária Bienal de Arte de Veneza foi sempre aquele da dificuldade de alargamento aos países partecipantes de realizar os próprios pavilhões seguindo as normas centrais propostas pelo Curador. Existiu sempre um grande divócio nesse sentido entre as diversas partes. Principalmente os países titulares das sedes históricas da zona do Giardini quase sempre repetiram talfenômeno, em especial aqueles de maior pesso no campo artístico.

 Curando dois grandes espaços da Bienal, o Palácio Central dos Giardini e o Pavilhão italiano do Arsenale, Massimiliano Gioni dá alas aos seus sonhos. Em verdade a chave de tudo está na inédita exposição, no primeiro espaço do Pavilhão Central, do livro de Carl Gustav Jung, um dos pais históricos da psicanálise, particularmente amado por artistas e escritores em geral, denominado Livro Vermelho, verdadeiro exemplo de um Livro de Iluminuras. Nele Jung trabalhou por 16 anos,  transcrevendo as sua mais desesperadas alucinações. Seguindo as muitas salas do Pavilhão Central estão expostos artistas das mais diversas nacionalidades, entre os quais os brasileiros Arthur Bispo do Rosário e Tamar Guimarães; os portugueses João Maria Gusmão e Pedro Paiva. Os demais expositores no Pavilhão são: Hilma af Klimt (Suécia), Victor Alimpiev (Rússia), Ellen Altfest (USA), Pawel Althamer (Polônia), Levi Fisher Ames (USA), Yuri Ancarani (Itália), Carl Andre (Usa), Uri Aran (Israel), Yüksel Arslan (Turquia), Ed Atkins (UK), Marino Auriti (itália), Enrico Bay (itália), Miroslaw Balka (Polônia), Phyllida Barlow (UK), Morton Bartlet (USA), Gianfranco Baruchello (itália), Hans Bellmer (Polônia), Neil Beloufa (França), Stefan Bertalan (Rumênia), Rossela Biscotti (itália), John Bock (Alemanha), Frédéric Bruly Bouabré (Costa do Avório), Greta Bratescu (Rumênia), KP Brehmer (Alemanha),  James  Lee Byars (USA),  Roger Caillois (França), Varda Caivano (Argentina), Vlassis Caniaris (Grécia), James Castle (Usa), Alice Channer (UK), Georges Condo (USA), Aleister Crowley e Frieda Harris (UK), Oliver Croy e Oliver Elser (Ausrria, Alemanha), Robert Crumb (USA), Roberto Cuoghi (Itália), Enrico David (Itália), Tacita Dean (UK), John De Andrea (USA),  Thierry De Cordier (Bélgica), Jos De Gruyten e Harald This (Bélgica0, Walter De Maria (USA), Simon Denny (Nova Zelândia),  Trisha Donelly, Jimmie Durham (USA), Harum Farocki (República Chesca), Peter Fischli &  David Weiss (Suiça),  Linda Fregni Nagler (Suécia), Peter Fritz (Austria), Aurélien Froment (França), Phyllis Galembo (USA), Norbert Ghisoland (Bélgica), Yervan Gianikian e Angela Ricci Lucchi, Domenico Gnoli (itália), Robert Gober (USA), Guo Fengyi (China), Wade Guyton, Duane  Hanson, Sharon  Hayes, Daniel Hesidence, Chana  Horwitz, Jessica Jackson Hutchins, Paul Mc Carthy (USA), Camille Henrot (França), Roger Hiorns (UK), René Iché, Augustin Lesage (França), Hans Josephsohn, Evgenij Kozlov (Rússia), Kan Xuan, Lin Xue (China), Bouchra Khalili (Marroco),  Ragnar  Kjartansson (Islândia), Eva Kotátková (República Checa), Emma Kunz (Suiça), Maria Lassnig, Herbert List (Austria, Alemanha), Mark Leckey, Sarah Lucas, Helen Marten, Steve Mc Queen (UK).

Igualmente de importância para a melhor compreensão da linha de pensamento que guia Massimiliano Gioni na realização desta 55ª. Bienal de Arte – com precedentes em complexidade somente comparável aquela de 1993, a 45ª.; o que leva o crítico Achile Bonito Oliva a afirmar, num seu artigo jornalístico, que Gioni organizou a exposição do Palácio Enciclopédico “não como pura manutenção documentada do presente, mas como uma visão do mundo a partir de um ponto de vista antropológico“ – igualmente melhor para a compreensão da tese do Curador se deve ver com atenção, logo na entrada do Pavilhão da Itália, a obra de um artista italiano imigrado nos USA, Marino Auriti. Usando o mesmo título dado por Gioni à 55ª. Bienal de Arte de Veneza, Auriti sonha colocar no seu Palácio Enciclopédico todas as conquistas da sabedoria humana. Na entrada do Pavilhão da Itália, no Arsenale, Il Palazzo Encliclopedico do artista migrante se apresenta numa maquete de uma arquitetura visionária (como a define o mesmo Bonito Oliva), realizada nos anos 50, alta 3,3 metros, um arranha-céu de 136 andares mediado entre o Empire State Building e a San Pietro, de Roma.

 A 55ª. Bienal de Arte de Veneza concedeu os seguintes Prêmios: a) Melhor pavilhão nacional: Angola; b) Melhor artista, o inglês Tino Sehgal (1976); c) Melhor artista jovem, à francesa Camille Henrot (1978); d) Prêmio especial à carreira para Marisa Merz (1926), a grande mestra da Arte Pobre.

Massimiliano Gioni tentou unir todas as mensagens que o passado lhe podia trazer aos sonhos e alucinações dos  contemporâneos. O percurso ele o realiza através da contribuição de 158 artistas, provenientes de 38 países diversos. Bem como de tempos já diversos; mais de quarenta deles já estão mortos.

De tudo isso, no final permanece um ar de generalizada insatisfação. Sente-se o privilegiar do pensamento abstrato sobre a realidade. Mais uma vez um tal discurso procura afastar-se o mais distante possível da natureza, o que gera tantas vezes, satisfações, mas predominantemente, incertezas. Falta talvez à operação de Massimiliano Gioni a expressão de uma síntese de quanto exposto. Todo o peso da mema recai sobre os ombros do expectador deixado diante de tantas inquietudes.

 Mas existem Exposições que atingem tal meta. Como aconteceu, exemplo mais recente, com a magnífica Pietro Bembo e l’Invenzione del Rinascimento, Pádua, Palazzo del Monte di Pietà (2 de fevereiro-19 de maio de 2013).

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