POESIA AO AMANHECER – 224 – por Manuel Simões

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JOÃO JOSÉ COCHOFEL

(1919 – 1982)

SOL DE AGOSTO (XVI)

Nos jardins, na modorra em que se alongam,

a cadência do passo marca o triste

e belo dia. Os que passam mondam

tudo o que neles, em vão, ainda insiste:

– Rota a fachada! – Morna, a tarde cai;

autómatos, povoam a cidade.

(Só uma ronda de crianças vai

lavando a nódoa.- Feliz idade.)

Que náusea isto me dá! Que calma vã

de que o pisar burguês todo se veste!

Cinza. Nada que a vida lhes aloire.

E o cheiro que incomoda a gente sã

e vem dos bairros pobres onde há peste…

– Fazer do sol a bomba que isto estoire!

(de “Sol de Agosto”)

Foi dele o terceiro volume de “Novo Cancioneiro” (“Sol de Agosto”, 1941), o que o ligou ao movimento neo-realista. Publicou ainda: “Instantes” (1938), “Búzio” (1940), “Os Dias Íntimos” (1950), “46º. Aniversário” (1966). O volume “Obra Poética” (1989) saiu postumamente.

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