PRESTE JOÃO – por Fernando Correia da Silva

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Vindas da Ásia, no século XV chegam à Europa não só as especiarias, mas também o marfim, as sedas e as pedras preciosas. Para a geografia medieval a Ásia começa logo a oriente do Nilo, não a oriente do Mar Vermelho, pois não há sequer notícia deste mar. Em tal mapa distorcido, Abissínia e Etiópia já pertencem à Ásia. Ou à Índia, que é outro dos nomes dados à Ásia.

Numa dessas “Índias” reinará o Preste João, imperador cristão, rico e poderoso, magnata oriental. Preste é corruptela do francês Prêtre. Portanto, padre e rei, ao mesmo tempo. Nele se condensam, fundem e refinam as várias histórias e lendas que circulam pela Europa: o reino cristão-monofisita da Abissínia, os cristãos nestorianos da Ásia Central, os chefes mongois que não dão sossego aos muçulmanos. Avança-se que ele será descendente de Baltazar, um dos Reis Magos, e imperador das três Índias (a Maior, a Menor e a Terceira), também da Etiópia. Do seu reino é que são exportadas para a Europa, via Cairo-Veneza, as preciosas mercadorias orientais. Mas como escasseiam notícias palpáveis desse império cristão do Oriente, dilata-se a fantasia: monstros vários (entre os quais homens com cabeça de cão) povoam alguns recantos do território, no qual também é identificável a paisagem edénica, aquela onde Deus Nosso Senhor pôs Adão e Eva. Vê-se que, à solta,  a fantasia do bicho-homem está sempre predisposta a aliar o Inferno ao Paraíso…

Pela boca de embaixadores, caminhantes e mercadores tais lendas arribam a Portugal, sendo depois confirmadas por figura ilustre como o Infante D. Pedro que viajara “pelas sete partidas do mundo”, e ainda pelo seu inimigo D. Afonso, conde de Barcelos, que fizera peregrinação à Terra Santa.  Na menoridade de Afonso V, o primeiro defenderá o partido popular, o segundo o aristocrático. O que não impede que um e outro acreditem na existência do Preste João e apregoem a sua excelência.

Em Portugal tais enredos alcançam grande sucesso. Compreende-se o motivo: para poderem atacar o Turco pelas costas, o Preste João seria o decisivo aliado político-militar dos portugueses que, entretanto, se lançam em demanda das riquezas orientais. Conciliar e consolidar guerra e garra…

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