POESIA AO AMANHECER – 225 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

SIDÓNIO MURALHA

(1920 – 1982)

PARA VÓS O MEU CANTO…

Para vós o meu canto, companheiros da vida!

Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;

vós, para quem não existe batalha perdida,

nem desmedida amargura,

nem aridez nos desertos;

vós, que modificais o leito dum rio;

– nos dias difíceis sem literatura,

penso em vós: e confio;

penso em mim: e confio;

– para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,

das pragas imensas lançadas ao mar

e da fome dos pescadores,

– penso em vós, companheiros,

que trazeis outros búzios pra cantar…

Acuso as falas e os gestos inúteis;

aponto as ruas tristes da cidade

e crivo de bocejos as meninas fúteis…

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,

que trazeis ruas com outra claridade

e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. – Definido e preciso,

erguido ao alto como um grito de guerra,

à espera do Dia do Juízo…

Que o Dia do Juízo

não é no céu… é na Terra!

(de “Passagem de Nível”)

Mais conhecido como autor de volumes de literatura infantil. Fez parte do movimento neo-realista. Em 1942 deixou Portugal a caminho do Zaire e, em 1962, fixou-se no Brasil, onde faleceu. Obra poética: “Beco” (1941), “Passagem de Nível” (1942), “Companheira dos Homens” (1950), “Os Olhos das Crianças” (1963), “Quando São Paulo só tinha quatro milhõs de habitantes” (1966), “O Pássaro Ferido” (1972), “Valéria Valéria” (1976).

Leave a Reply