POESIA AO AMANHECER – 226 – por Manuel Simões

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FERNANDO NAMORA

(1919 – 1989)

PUDOR

Levou-me tempo a perceber

mas agora sei que todas as pudicícias lusitanas se resumem a

uma folha de parra.

O pecado é humano portanto sejamos pecadores e

a pecar nos santifiquemos

a pecar forniquemos o pecado alheio

que é obsceno até as ideologias

ensinam o resguardo de sacristia

onde o pecado é a sós casto.

Sujos merdosos raivosos vesgos de boquinha estreita

por onde a língua erótica afinal passa

saliva antivírus e mais penicilinas

pré e pós cópula no pecar discreto

nos higienizamos abjectos.

Mas ninguém tem nada a dizer de tão feia nudez

se no lugar devido está

a folha de parra.

(de “Marketing”)

Grande contista e romancista, contribuiu para a afirmação do movimento neo-realista.

A sua obra poética engloba “Relevos” (1938), “Mar de Sargaços” (1940), “Terra” (1941), “As Frias Madrugadas” (1959), “Marketing” (1969), “Nome para uma casa” (1984). Famosíssimo o poema que dá o título a “Marketing”, uma original e brilhante sátira ao mundo da publicidade: “(…) Dantes tinha problemas era o odor corporal/ e eu não o sabia até me higienizar seis vezes ao dia com o sabonete das estrelas/ e as paradas marciais e os 5-3 do Eusébio à Coreia(…)”.

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