A COMUNICAÇÃO DE FRANKLIN ROOSEVELT EM PITTSBURGH EM 1936. Tradução de JÚLIO MARQUES MOTA

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Franklin Delano Roosevelt
1882 – 1945
Parte I 

Um parque de basebol é um bom lugar para se falar de resultados alcançados. Esta noite vou-vos falar sobre os resultados obtidos pelo governo dos Estados Unidos. Eu vou-vos contar a história da nossa luta para combater a depressão e para ganharmos a batalha da retoma económica. De onde eu estou, parece mesmo que a partida já está praticamente ganha.

Estou convencido de que, quando o governo financia ou qualquer outro tipo de financiamento é honesto, e quando todas as cartas estão na mesa, não há aqui nenhuma alta matemática superior sobre o assunto. É simplesmente linear, uma questão de valores aritméticos.

Quando a gestão actual da vossa equipa governamental assumiu em 1933, o painel de dados da economia nacional parecia estar muito mau. Na verdade, tudo parecia estar numa situação semelhante àquela em que se encontra uma equipa em que nos sentimos obrigados a pedir a demissão da direcção a fim de lhe dar a possibilidade   de ganhar o jogo. E, hoje, iremos ganhá-lo.

Quando a nova gestão veio para  Washington, começámos a fazer os nossos planos — planos para enfrentar a crise imediata e planos para levar as pessoas deste país alcançarem, de novo,  uma vida de prosperidade decente.

Todos nós vimos e sabemos que há milhões de trabalhadores sem trabalho , todos nós estamos preocupados com as empresas que estão a funcionar quase na situação de falência, que estão no vermelho, todos nós vimos os bancos a fecharem. O nosso rendimento nacional caiu para cima de 50 por cento – e, o que foi pior, este não dava sinais de por si só ser capaz de recuperar. Por rendimento nacional, estou a referir-me ao total de todos os rendimentos de todos os 125 milhões de pessoas neste país, o total de todos os envelopes de pagamentos, de todas as vendas agrícolas, de todos os lucros de todas as empresas e de todas as pessoas físicas e jurídicas da América.

Durante os quatro anos de vacas magras, antes desta Administração ter tomado posse, o rendimento nacional desceu de 81 mil milhões por ano para trinta e oito mil milhões por ano. Em suma, todos nós sabemos, todos nós juntos, estávamos a fazer quarenta e três mil milhões -escrito com “mm”, não apenas com um “m” e são quarenta e três mil milhões de dólares a menos em 1932 do que fizemos em 1929.

Agora, a subida e a descida do rendimento nacional, uma vez que estes movimentos contam a história de quanto todos nós, em conjunto, estávamos a fazer, a produzir, são bem um índice da subida e descida da prosperidade nacional. Eles também são um índice da prosperidade do governo do país. O dinheiro para o Governo poder trabalhar vem dos impostos e o volume das receita fiscais, por sua vez, depende no cálculo do seu valor da dimensão do rendimento nacional. Quando os rendimentos e os valores e as transacções do país estão a diminuir então, como consequência, as receitas fiscais que também vão diminuir. Se o rendimento nacional continua a diminuir, então o Governo não pode funcionar sem entrar também ele no vermelho. A única maneira de manter o governo fora do vermelho é então a manter as pessoas também fora do vermelho. E então devemos primeiramente equilibrar o orçamento do povo americano antes, portanto, de podemos equilibrar o orçamento do Governo nacional.

Isto é senso comum, não é assim?

A situação quando a Administração Democrática chega ao poder em 1933 mostrava-se com um défice líquido nas nossas contas nacionais de cerca de 3 mil milhões dólares, acumulados nos últimos três anos sob a direcção do meu antecessor.

O rendimento nacional estava numa espiral descendente. As receitas do governo federal estavam numa espiral descendente. O querer aumentar e significativamente novos impostos não nos levaria a lugar nenhum porque os valores estavam a cair e isso faz sentido também.

Para além de ter que responder às despesas ordinárias de governo, eu reconheci a obrigação do Governo Federal dever alimentar e cuidar do crescente exército de desempregados e milhões de gente sem-abrigo, sem casa​​.

Alguma coisa tinha de ser feita. Uma escolha nacional tinha de ser feita. Poderíamos fazer uma de duas coisas. Algumas pessoas que estavam sentadas à minha frente junto à minha secretária de trabalho pediram-me, nessa época, para que deixasse a natureza seguir o seu curso e continuar então a política de não fazer nada. Eu rejeitei o conselho porque a natureza estava com um humor de muito zangada.

Ter aceite esse conselho teria significado continuar a expulsar as pessoas de pequenos meios- a continuarem a perder as casas, os seus pequenos terrenos, as suas hortas, as suas pequenas quintas, seria continuar a que as pequenas e médias empresas continuassem a cair nas mãos de pessoas que ainda tinham capital suficiente de lado para as adquirir, as casas, as fazendas agrícolas, as pequenas empresas, mas a preços de falência. Ter aceite esse conselho teria significado, num curto espaço de tempo, a perda de todos os recursos de uma multidão de indivíduos, de famílias e de pequenas empresas. E teríamos assistido, por todo o país, a concentração da propriedade nas mãos de um ou dois por cento da população, uma concentração inigualável em qualquer grande nação desde os tempos do Império Romano.

E assim o programa desta Administração foi estabelecido com a finalidade de proteger os pequenos negócios, a pequena empresa, o pequeno estabelecimento comercial, os indivíduo de parcos rendimentos, a protege-los da vaga de deflação que os ameaçava. Percebemos, então, como fazemos agora, que o vasto exército dos homens de pequenos negócios e os donos de pequenas fábricas e de lojas, juntamente com os nossos agricultores e os nossos trabalhadores formam a espinha dorsal da vida industrial da América. No nosso plano de longo prazo, reconhecemos também que a prosperidade da América dependia, e continuaria a depender, da prosperidade de todos.

Rejeitei o conselho que me foi dado para não fazer nada por uma razão adicional. Eu tinha prometido, e minha administração nisso estava determinada, a proteger o povo dos Estados Unidos da fome.

Recusei-me a deixar a satisfação das necessidades humanas unicamente nas mãos de comunidades locais, comunidades locais essas que estavam quase todas elas também falidas.

Ter aceite esse conselho teria consistido em estar a criar apenas obras de apoio social para oferecer ao povo americano os alimentos de que precisaria sabendo desta vez, no entanto, que em muitos lugares essas obras de apoio social iriam durar muito mais tempo do que a necessidade do pão. Naqueles dias sombrios, entre nós e um orçamento equilibrado ficavam milhões de americanos necessitados a quem era negada a promessa de uma vida decente na América.

 Equilibrar então o nosso orçamento em 1933 ou 1934 ou 1935 teria sido um crime contra o povo americano. Para o fazermos deveríamos então passar a aplicar uma carga de impostos que seria uma pura confiscação ou deveríamos então ter escondido a cara [ de ter tido a cobardia] face ao sofrimento humano e com uma insensibilidade de ferro. Quando os americanos sofreram, nós recusámo-nos a passar para o outro lado. A Humanidade está primeiro.

Ninguém de ânimo leve coloca um fardo sobre o rendimento de uma nação. Mas esse círculo vicioso da queda do nosso rendimento nacional simplesmente tinha que ser cortado. Os banqueiros e os industriais da Nação gritaram em voz alta que os negócios privados eram incapazes de o cortar. Eles voltaram-se então, como eles tinham o direito de se virarem, para o Governo. Nós aceitámos a responsabilidade última do Governo, depois de tudo o mais ter falhado, a gastar o dinheiro quando ninguém mais tinha dinheiro de sobra para gastar.

I adoptei, por conseguinte, a outra alternativa. Eu deixei de lado a hipótese de nada fazer ou a de esperar para ver.

Como um primeiro passo no nosso programa tivemos que parar rapidamente a espiral da deflação e da queda do rendimento nacional. Tendo-a parado, passámos a procurar restaurar o poder de compra, a aumentar os valores, a colocar as pessoas de volta ao trabalho e a iniciar a subida do rendimento nacional .

Em 1933, invertemos a política da administração anterior. Pela primeira vez desde a depressão teve-se um Congresso e uma administração em Washington, que teve a coragem de possibilitar os recursos necessários que os interesses privados não tinham ou não se atreveram u a arriscar.

Isso custa dinheiro. Sabíamos, e todos o sabiam, em Março de 1933, que iria custar muito dinheiro. Sabíamos, e todos o sabiam, que iria custar muito dinheiro e por vários anos. As pessoas compreenderam em 1933. Elas compreenderam-no em 1934, quando deram à Administração um total apoio da sua política. Elas sabiam em 1935 e elas sabem em 1936, que o plano está a funcionar.

(continua)

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