OSSOS DO OFÍCIO DE EDITOR – por Carlos Loures

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Décadas atrás, o francês impunha-se como língua e cultura e, mesmo nos países anglófonos, era de bom tom usar expressões francesas. São tantas as que se usam em inglês que me dispenso de as enumerar. Mas desde a segunda metade do século XX,  o inglês impôs-se como língua franca em todos os domínios e foi em vão que em França se procurou manter a língua francesa à tona. Ainda sobreviveu como idioma diplomático, mas actualmente até na área das relações internacionais, o inglês passou para a frente. Os da minha geração lembram-se desses anos 50 e 60 em que os franceses iam perdendo a batalha e, sobretudo, nos filmes, começavam a despontar nos diálogos palavras inglesas ditas com aquele inconfundível acento que os franceses usam mesmo quando falam línguas estrangeiras.

Já contei, mas vou contar de novo, um problema que enfrentei quando do lançamento de uma «História da Arte», cuja direcção foiImagem1 entregue ao Professor António José Ferreira de Almeida. Originalmente a obra fora escrita pelo critico e historiador catalão José Pijoan (1881-1963), mas sofrera na edição internacional grandes alterações, com numerosos autores de diversas nacionalidades a escreverem textos específicos. Claro que esta não é a melhor forma de organizar a edição de uma obra, mas há que ter em conta que se tratava de um projecto concebido para vários países ao mesmo tempo. Naquela altura seria impensável editar para Portugal uma obra em dez volumes, com mais de três mil páginas todas a cores. Só era possível no sistema de co-edição. Só a chapa do negro do texto era diferente para cada edição – as outras quatro eram iguais. Vamos supor que se imprimia dois milhões de exemplares: havia a impressão simultânea das cores e só o negro para cada idioma era impresso em separado.

Pois os problemas com essa obra não ficaram por aí. Um fim de tarde estava no meu gabinete da empresa, quando um revisor me bateu à porta. Colocou-me à frente a edição espanhola e a respectiva tradução. Era um texto de Alexandre Cirici, um professor e crítico de arte catalão e versava sobre a Arte Nova. E começava assim: «Com o nome de Arte Nova designamos hoje um fenómeno que no seu tempo recebeu várias denominações e que não teve exactamente os mesmos aspectos nos diferentes países, separados por fortes traços nacionais e por situações socioeconómicas diversas. Chamou-se Modern Style em França e Art Nouveau em Inglaterra e nos Estados Unidos…»

Disse-me o revisor, um homem muito competente que vinha da velha escola da Imprensa Nacional: – Isto só pode estar mal – Modern Style em França e Art Nouveau em Inglaterra e nos Estados Unidos.? Pode lá ser! É ao contrário, não é? Vi a edição em castelhano, de onde estávamos a fazer a tradução, e estava da mesma maneira. O tradutor não se tinha enganado. Disse o revisor: – É porque se enganaram na edição espanhola. É evidente. E eu respondi que sim. Estava mesmo a ver-se e era evidente. Pois estava, pois era.

Quando as páginas ficaram impressas (o trabalho nas diversas línguas era todo impresso numa grande gráfica de Pamplona), recebi um telefonema de Barcelona. Tínhamos cometido um erro grave, diziam-me – o Professor Cirici tinha estado a ver o seu texto nas diversas traduções e a nossa estava errada. Segundo o professor, era mesmo como estava na edição em castelhano – a designação em inglês usava-se em França e a francesa em Inglaterra e nos Estados Unidos.

Consultei logo o Professor Ferreira de Almeida, telefonando-lhe para o Porto. Do outro lado da linha veio uma grande gargalhada quando lhe sintetizei o problema. Respondeu-me que o Cirici tinha alguma razão, porque nos países anglófonos prevalecera a designação em francês, mas que em França, tirando uma ou outra fonte, se dizia Art Nouveau.  Para não deitar fora todo o caderno em que estava o erro ou o suposto erro, chegámos a um acordo. Em futura tiragem pôr-se-ia como Alexandre Cirici pretendia. Por isso, circulam duas versões do mesmo capitulo sobre a Arte Nova. Moral da história – um profissional da edição não pode guiar-se pelo que parece evidente. O axioma “o que parece é” em edição é moeda que não circula.

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