Havia pequenos grupos espalhados pela sala. O inspector Pais, com um ar distraído, dividia um pastel de bacalhau com Aristóteles, o velho pastor alemão. O Professor ia no segundo cálice de aguardente Brejoeira e conversava com a mecânica Celeste e com o Cabinda. Marília ria-se de uma história que o Pedro Janelas, já sem estilo de travesti, lhe contava. Franz Boegren, que se distinguia de Paralelo de Sousa pelo cabeção clerical, discutia animadamente com o comendador e com o Oliveira as incidências de um jogo de futebol. Filipe Marlove conversava com Laura. Os activistas do Movimento de Libertação de Massamá, pancartas encostadas á parede discutiam qualquer pormenor do baile que queriam organizar esta noite de São João. O senhor Lopes vigiava os empregados que distribuiam copos de vinho fresco e pequenas tostas com paté. Foi então que se ouviu um sussurro:
– O autor e o Pato vêm aí!
O Pato entrou à frente. O autor, uns segundos depois. Vinham ambos com um ar carrancudo.
O autor tossiu, preparando-se para falar, mas o Pato antecipou-se:
– Fui buscar o autor porque ele é o responsável por tudo o que está a acontecer – o autor interrompeu o grasnar:
– Não é nada disso.
– Ah não? – Não! – O Pato abespinhou-se:
– Vamos ficar o resto da tarde a dizer – Não! Ah não? – Ganhas à palavra?
– Vamos terminar já – Vamos fazer umas pequenas férias e voltaremos no Outono com o nosso Instituto de Conhecimentos Inúteis.
– O que é isso?´- É uma escola de formação. Estão todos contratados – alunos, formadores…
A mecânica Celeste levantou o braço. O Autor concedeu-lhe a palavra:
– O meu Piruças também entra?
– Piruças? Quem é o Piruças?
– O meu cão. O que aqui tem o o nome de Aristóteles – o animal até anda doente…
– Entram todos.
O Oliveira quis saber:
– Os activistas do Movimento de Libertação de Massamá também?
– Todos, é todos.
Os “activistas” explodiram em aplausos.
-O autor, após uma pausa, acrescentou:
Agora vão de férias, depois fazemos uma reunião para distribuir papéis.
O inspector Pais, perguntou:
– Por falar em papel… O subsídio de férias?
– Já chegámos a Novembro?
– Já estava á espera dessa – e para os outros – São muito revolucionários, mas quando chegam ao poder… – voltou a dirigir-se ao autor – Não me ponha a comer pastéis de bacalhau. Já vomito só de ouvir falar neles.
O Professor após mais um gole de Brejoeira propôs:
– E se, para despedida, fizéssemos um pato no forno?
Uma onda de aplausos acolheu a proposta, chovendo depois sugestões:
_ À Xangai!…
– Maigret de pato!…
– Canard à l’orange!
Ouviu-se uma voz trovejante:
– Sacrílegos! Ides comer um companheiro de trabalho?
Houve um silêncio embaraçoso. Olharam para Franz Boegren, o pastor alemão, que, perplexo encolheu os ombros.
A voz ribombante insistiu:
– Tendes coragem para comer alguém que faz parte desta família?
O inspector caiu de joelhos:
– Senhor… Essa foi a pergunta que a minha tia…
A voz trovejou de novo:
– Silêncio, pecador!
O Professor, após mais um gole da sua aguardente, declarou:
– Pronto, pronto. Retiro a proposta.
Uma tempestade de aplausos saudou a declaração. O Professor filosofou:
– Ora aqui está um verdadeiro Deus ex machina.
Encolhido no seu canto, o pato murmurou para si:
– Deus ex machina? Está bem, está… não fosse eu ventríloquo…
–
–

Como um grande apaixonado pelas garrafas Brejoeira, , com as suas formas, com o macio do seu vidro, a lembrar a leveza, a macieza de outras formas bem mais sensíveis ao tacto, mas sobretudo como grande apaixonado do seu conteúdo, direi apenas, que pena não ter sido eu o participante real nessa cena imaginária. , Que pena, não ser eu a beber daquela garrafa, eu que até já fui professor.
JM