O PATO ALGEMADO – XLII – por Sérgio Madeira

Imagem2Havia pequenos grupos espalhados pela sala. O inspector Pais, com um ar distraído, dividia um pastel de bacalhau com Aristóteles, o velho pastor alemão. O Professor ia no segundo cálice de aguardente Brejoeira e conversava com a mecânica Celeste e com o Cabinda. Marília ria-se de uma história que o Pedro Janelas, já sem estilo de travesti, lhe contava. Franz Boegren, que se distinguia de Paralelo de Sousa pelo cabeção clerical, discutia animadamente com o comendador e com o Oliveira as incidências de um jogo de futebol. Filipe Marlove conversava com Laura. Os activistas do Movimento de Libertação de Massamá, pancartas encostadas á parede discutiam qualquer pormenor do baile que queriam organizar esta noite de São João. O senhor Lopes vigiava os empregados que distribuiam copos de vinho fresco e pequenas tostas com paté. Foi então que se ouviu um sussurro:

– O autor e o Pato vêm aí!

O Pato entrou à frente. O autor, uns segundos depois. Vinham ambos com um ar carrancudo.

O autor tossiu, preparando-se para falar, mas o Pato antecipou-se:

– Fui buscar o autor porque ele é o responsável por tudo o que está a acontecer – o autor interrompeu o grasnar:

– Não é nada disso.

– Ah não? – Não! – O Pato abespinhou-se:

 – Vamos ficar o resto da tarde a dizer – Não! Ah não? – Ganhas à palavra?

– Vamos terminar já – Vamos fazer umas pequenas férias e voltaremos no Outono com o nosso Instituto de Conhecimentos Inúteis.

– O que é isso?´- É uma escola de formação. Estão todos contratados – alunos, formadores…

A mecânica Celeste levantou o braço. O Autor concedeu-lhe a palavra:

– O meu Piruças também entra?

– Piruças? Quem é o Piruças?

– O meu cão. O que aqui tem o o nome de Aristóteles – o animal até anda doente…

– Entram todos.

O Oliveira quis saber:

– Os activistas do Movimento de Libertação de Massamá também?

– Todos, é todos.

Os “activistas” explodiram em aplausos.

-O autor, após uma pausa, acrescentou:

Agora vão de férias, depois fazemos uma reunião para distribuir papéis.

O inspector Pais, perguntou:

– Por falar em papel… O subsídio de férias?

– Já chegámos a Novembro?

– Já estava á espera dessa – e para os outros – São muito revolucionários, mas quando chegam ao poder… – voltou a dirigir-se ao autor – Não me ponha a comer pastéis de bacalhau. Já vomito só de ouvir falar neles.

O Professor após mais um gole de Brejoeira propôs:

– E se, para despedida, fizéssemos um pato no forno?

Uma onda de aplausos acolheu a proposta, chovendo depois sugestões:

_ À Xangai!…

– Maigret de pato!…

– Canard à l’orange!

Ouviu-se uma voz trovejante:

– Sacrílegos! Ides comer um companheiro de trabalho?

Houve um silêncio embaraçoso. Olharam para Franz Boegren, o pastor alemão, que, perplexo encolheu os ombros.

A voz ribombante insistiu:

– Tendes coragem para comer alguém que faz parte desta família?

O inspector caiu de joelhos:

– Senhor… Essa foi a pergunta que a minha tia…

A voz trovejou de novo:

– Silêncio, pecador!

O Professor, após mais um gole da sua aguardente, declarou:

– Pronto, pronto. Retiro a proposta.

Uma tempestade de aplausos saudou a declaração. O Professor filosofou:

– Ora aqui está um verdadeiro Deus ex machina.

Encolhido no seu canto, o pato murmurou para si:

Deus ex machina? Está bem, está… não fosse eu ventríloquo…

1 Comment

  1. Como um grande apaixonado pelas garrafas Brejoeira, , com as suas formas, com o macio do seu vidro, a lembrar a leveza, a macieza de outras formas bem mais sensíveis ao tacto, mas sobretudo como grande apaixonado do seu conteúdo, direi apenas, que pena não ter sido eu o participante real nessa cena imaginária. , Que pena, não ser eu a beber daquela garrafa, eu que até já fui professor.

    JM

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