O PATO ALGEMADO – especial de férias – 1 – por Sérgio Madeira

Imagem2O Pato está de férias. Numa pateira privada na região saloia, ele, a prima e uma ninhada de priminhos, passam os dias no banho, fugindo ao calor. Os pequenos, brincam em torno do Pato que se sente bem no seu papel de patriarca. Ele interiorizou que, com a crise económica que afecta o mundo, não se pode ter filhos – mais: ter filhos é uma prova de irresponsabilidade. Como fazer, se as patas ainda não dispõem de pílula do dia seguinte? Qual Liedson, o nosso herói resolveu – das intimidades que tem com a prima, nascem primos, em segundo grau, primos afastados – muito diferente de ter filhos, não acham?

Este criativo método de engenharia demográfica já chegou aos ouvidos dos governantes da China. O Pato foi convidado para fazer conferências em Pequim e em Xangai. Estava para aceitar até porque ao telefone, o diplomata que o contactou foi amabilíssimo – «Nós só quelemos selvile o Pato”. “Pois, pois… servir o Pato…” avisou-o a prima. E mostrou-lhe o livro de receitas – Canard à la pékinoise e canard´à Shangai. – “Há muitas maneiras de servir o pato – quase tantas como o bacalhau”. E estavam nesta conversa quando chegou ao tablet do Pato a mensagem que o Professor lhe enviou:

Meu querido Pato

 Sei que entrámos de férias. Sei que lá por Berlim não  foste nada bem tratado, sei que os boches te quiseram roubar a garrafa de Brejoeira  que carinhosamente quiseste oferecer ao teu professor de coisa nenhuma.

 Bem, sucede que tu vês neste teu pais coisas muito estranhas, a rondar a loucura ou então o roubo mais descarado. Gordas indemnizações são possíveis por saíres de um emprego e voltares a entrar para o mesmo sítio, agora com os bolsos bem cheios. Depois, há essa coisa estranha da Secretária de Estado do teu amigo ( ou inimigo Gaspar) que  não tem nada a ver com swaps. Sabes o que isso é? Ah, não sabes? Imagina então um analista dos tais do teu Gaspar que contrai um empréstimo à taxa de juro  imaginemos Libor a 3 meses. Ah, mas o teu tal técnico que pensa ganhar muito  mal não quer taxas variáveis. São perigosas sabes. Quer taxas fixas.  Como? Faz um swap. Troca a taxa variável a que está obrigado por uma fixa em que fica segurado. Disseste tu fixa, meu Pato querido?   Não, por exemplo trocou a taxa variável por uma muito mais variável ainda, por exemplo? Queres um exemplo? Não sabes nada disto?   Vamos dar-to, vamos  dar-te um exemplo de uma Câmara Municipal francesa: abre-me esses olhos , vais entrar no domínio do indecifrável : um swap e não com um banquinho, não, isso não. Com um bancão, enganei-me com um ladrão, talvez.

Excerto de um texto:

 Vejamos uma das taxas sobre um empréstimo contraído pela comuna de Saint-Étienne junto do Deutsche Bank :

“ 1. O primeiro contrato assinado pela cidade de  Saint-Etienne com o Deutsche Bank é  realmente um contra swap ( um swap sobre um outro swap, a cobertura de risco sobre  a cobertura do risco  assumida  )  sobre uma parte da operação IXIS, acima detalhada, nomeadamente os swaps n ” 151 e 152. O valor de referência, o nocional subjacente, é de  22,839 M€.

A câmara sublinha  que a « confirmação » desta operação, feita a 23 Maio de 2007, assinada (mas não datada, cf. p. 6/20) pelo adjunto financeiro delegado por decisão de 25 Maio de 2007, afixado e registado nesta mesma data, emanava de Deutsche Bank AG, Frankfurt, que, na decisão acima referida está domiciliado em  « Winchester House, 1 Great Winchester Street, LONDON ECZN 2DB ».

 Este texto de 20 páginas é de uma sofisticação extrema. E a partir da abordagem, as noções de « exótico » assinalam-se para uma chamada de  atenção de um leitor não-iniciado.

Assim, a decisão retoma (não é nada comum) uma referência utilizada para calcular o índice (estruturado) da segunda fase deste swap, e que  é designada por  “ desempenho acumulado SMART = (Nível fim de período / Nível de aplicação do  swap) – 1”.” SMART é objecto, no parágrafo seguinte, de uma precisão:

 “SMART permite antecipar a direcção dos movimentos de tendência a partir do estudo do comportamento da curva das taxas em diversos ciclos económicos e conjunturais. Um processo de sinal inteligente permite instaurar posições dinâmicas que actuam sobre a inclinação ou achatamento da  curva optimizando assim o  timing”,

♦ O índice Deutsche Bank SMART tem por objectivo capturar e de maximizar  o valor que provem da forma da curva, de maneira sistemática, detectando o melhor momento para entrar em posições de  inclinação ou de tendência ou de nivelamento da curva.

• O índice põe em prática  uma metodologia estrita que utiliza 3 sinais chave a fim de determinar a estratégia relevante. Estes sinais apoiam-se sobre elementos fundamentais do comportamento da curva das taxas. Trata-se do Ciclo de Taxas do BCE, de Portagem, de Tendência/inércia do mercado.”.

O início do texto do anexo Ni   desta confirmação, escrito em maiúsculas (p. o à 20/20) é formulado da seguinte forma: “De 31 de Janeiro de 2007 – Apresentação dos índices SMART de DB embora as informações  integradas no seu cálculo provenham de fontes consideradas fiáveis pelo  promotor do índice, este não procede de forma alguma  à nenhuma  verificação independente destas informações e não pode garantir nem a exactidão nem a exaustividade dos índices quaisquer que eles sejam ou de qualquer dado neles incluído. O promotor do índice declina qualquer responsabilidade (a título de negligência ou outra causa) para com todos  aqueles  que no caso em que um erro se produza   e  não terá em nenhum caso a obrigação de informar quem quer que seja .

E o texto continua:

“Este contrato contém elementos que mereciam incontestavelmente que informações muito precisas sejam fornecidas à priori, entre as quais  nomeadamente o fundamento da taxa fixa ainda atractiva proposta de 4,30% ( mas comparar com os 4,07% do precedente empréstimo) durante os dois primeiros anos de vida do contrato.

1. Em primeiro lugar, na  página 2 ( o contrato não está organizado classicamente e exposto  em artigos ordenados), a fórmula de cálculo da indexação da segunda fase, que começa a 1  (ou 2) de Janeiro de 2010 e que no entanto é fixada 8 dias antes de 1 de  Abril de 2010, é formulada  da seguinte maneira :

4.30% + Máximo [0.00%, 1.9700 – Taxas de Câmbio]  [ Nota-   Seja 1,9700 o valor fixo da libra. Uma taxa mais alta, exemplo, 1,9900 significa que (1,97-1,99) vem negativo e o máximo a pagar é então 4,30 %. Se inversamente o valor da libra descer, por exemplo, para 1,47,  então (1,97-1,47) é igual a  0,5 que deve ser acrescido à taxa 4,3, pois a esta taxa deve ser acrescimento a diferença entre a taxa fixa e a taxa  variável se positiva e nada se acrescenta a 4,3 se for negativa. A taxa 4,30 representa o valor mínimo do taxa a que foi concedido o empréstimo.)

 Nesta fórmula, “taxa de câmbio” significa a taxa de câmbio GBP/CHF, a quantidade de francos suiços por libra  ou seja, neste caso esta   taxa, sobre a qual se compromete  a comuna de  Saint-Etienne durante 13 anos e 9 meses (comparar com os 2 anos da primeira fase), é estabelecida em função de uma aposta sobre a evolução da libra  inglesa  e do franco suíço e sobre a ausência de baixa da primeira divisa em relação à  segunda . A câmara observa que estas duas divisas não pertencem à mesma zona monetária e que não têm, de resto, nenhuma relação  com a actividade e com os activos da colectividade pública que é a comuna de Saint-Etienne.

  Meu querido Pato, não entendeste nada, nada mesmo? Eu também não. Ninguém entende, mas paga-se!

  Mas lê ainda:

 “Por « carta oficial » de  31 Março 2010, o gabinete de advogados de Deutsche Bank transmitiu ao gabinete de advogados da comuna de Saint-Etienne o aviso de pagamento  que leva a que para o montante dos juros a receber por Deutsche Bank, na base de uma taxa plafond  ou de tecto de acordo com o clausulado  do contrato seja aplicada  uma taxa de  24% correspondendo ao valor máximo  fixado nesse  contrato de swap. O nível do índice observado a 22 Março de 2010 era 1,5960. Assim, sem o limite superior de  24 %, a taxa teria sido 4,30 + (1,97 – 15960) x 10 = 41,70%, [sendo o parâmetro 10 o que falta no texto como acima se referiu] .

 Meu querido Pato é  assim que uns foram arranjando a vida, estragando a dos outros. No nosso caso tu imaginas o que é uma taxa de 24% e imaginas que num documento faltava o valor 10 a multiplicar?  Este é um exemplo do swap.

Ora a senhora Secretária de Estado   terá feito swaps.  Autorizados? Por quem então? Legais? Se o não são quem paga os prejuízos? E qual a estrutura destes swaps?  Eram  afinal swaps  de quê? De que taxa  contra que taxa? Aqui, no nosso exemplo,  era a troca de uma taxa contra a possibilidade de se roubar o povo francês. E no nosso caso, o que é?  Há uma Comissão independente a analisar o caso? E o relatório será público ?  Ou é como diz o Pacheco Pereira, de que haverá um relatório feito pela equipa do Gaspar e que ficará confidencial? E os nossos deputados na Assembleia?

 Sabes, meru patinho nada feio, na Itália os swaps davam direito dizem  a viagens dos familiares a Atalanta gratuitamente e   nem queiras saber, a muito mais coisas também. Dir-me-ás, não, não senhor, os nossos dirigentes é tudo gente muito séria, isso é difamação. Admito, mas então explica-me trocar uma taxa fixa contra uma variável ou vice-versa é uma coisa linear. Para quê então tanta complicação para que ninguém entenda: E se é para não entender, é então assim feito para quê, para quê, meu querido Pato.   

 Aqui te determino a nobre missão de saber como foram os swps da senhora Secretária de Estado. Uma coisa sabes, um grande banco calou-se sobre os swaps  e sabes que antes esse mesmo banco obteve um contrato chorudo – Ilação: om silêncio paga-se ou não é  essa a ilação a tirar?

 Descobre, descobre, que amanhã peço-te para descobrires uma carta por mim enviada e que penso esgar perdida. Ah, mas primeira  o cumprimento desta ordem.

 Um professor de coisa nenhuma, muito menos de swaps.

– Vais interromper as férias? – perguntou a prima, que leu também a mensagem. Mas o Pato já nem a ouviu – estava a vestir a gabardina com que sempre partia para as suas missões. O que é um agente secreto sem gabardina?

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