HERCULANO – CONSCIÊNCIA ÉTICA DE UMA NAÇÃO – 2 – por Carlos Loures

Uma infância e uma juventude atribuladasImagem1

A infância e a juventude de Alexandre Herculano decorrem numa época extremamente conturbada da vida nacional – Os ecos da Grande Revolução de 1789 ressoavam ainda pela Europa quando as invasões francesas perturbaram a vida dos portugueses, levando a corte a  refugiar-se no Brasil. Herculano nasce no ano em que se dá a terceira invasão francesa, a de Massena, e se travam as decisivas batalhas do Buçaco e das Linhas de Torres. Tem sete anos quando da conspiração de Gomes Freire de Andrade e dez quando no Porto eclode a  Revolução Liberal. A Vila-Francada e a Abrilada acompanham o início da sua adolescência. Estuda no Convento das Necessidades, no Colégio dos Padres Oratorianos de S. Filipe de Nery, onde recebe uma formação clássica – Latim, Lógica, Retórica. Estuda também inglês, francês, italiano e alemão, línguas que irão ser decisivas para a construção da sua obra literária. O seu principal mestre é o padre Vicente da Cruz.

Quando se preparava para se matricular na Universidade de Coimbra, duas desgraças ocorrem na família – o pai cegou e deixa de poder trabalhar e o seu avô materno vê o negócio arruinado por não lhe serem pagas quantias avultadas que o Estado lhe deve pela execução das  obras da Ajuda. Não vai para Coimbra, mas adquire  por sua conta uma cultura excepcional – Alexandre Herculano é um autodidata na mais nobre acepção da palavra.

As ideias liberais e a Guerra Civil

O regresso de D. Miguel a Lisboa e a sua proclamação como rei pelas Cortes, acontecem quando Alexandre tem dezoito anos. Na Academia da Marinha Real, estuda Matemática. Lê os mestres do Romantismo e frequenta a tertúlia da marquesa de Alorna.

As discussões políticas são acaloradas e terminam muitas vezes em sangue derramado. O espectro da guerra civil acende-se com o horror do despotismo miguelista. Os presídios enchem-se de gente culpada de defender o liberalismo e nas praças públicas os patíbulos são presença constante, ameaçando os que ousam pensar.. Alexandre interrompe os estudos – é altura de lutar pela liberdade.

Depois é a revolta de 21 de Agosto de 1831, em que o Regimento nº 4 de Infantaria de Lisboa se ergue em armas contra o governo absolutista de D. Miguel. Alexandre envolve-se nesse movimento, não se sabe bem como, e quando a rebelião é jugulada tem de refugiar-se na casa do capelão da colónia alemã em Lisboa. Vai para bordo da fragata francesa Melpomène, fundeada rio Tejo. e depois,  com outros fugitivos emigrados, passa para um navio inglês que se dirige a Falmouth e Plymouth. Após uma série de escalas em portos ingleses e franceses chega a Rennes, na Bretanha. Ali se sedia um campo de emigrados políticos portugueses. Alexandre ocupa todas as horas livres das tarefas políticas e militares, estudando os livros e manuscritos da biblioteca local.

Os Bravos do Mindelo e o Setembrismo

Os emigrados embarcam em Fevereiro de 1832 para Belle-Isle, na expedição que, em 19 de Março, se reunirá a D. Pedro.. Alexandre, tal como Almeida Garrett, integra a força militar como praça rasa de caçadores. Alista-se em 26 de Março no Regimento de Voluntários da Rainha. É o número 35 da 3ª Companhia. Em 27 de Junho, o pequeno exército liberal, composto por 7.500 soldados parte com destino ao Porto. Em  8 de Julho a expedição liberal  desembarca nas praias do Mindelo. Nas cruentas lutas do cerco do Porto, Herculano distingue-se pela bravura e a sua folha de serviços regista muitas citações honrosas. O seu compromisso com o Liberalismo e com as prerrogativas constitucionais, selado com sangue, será para toda a vida.

Em 22 de Fevereiro de 1833 é dispensado do serviço militar para ajudar o bibliotecário do paço episcopal de Braga e por decreto de 17 de Julho de 1833 é nomeado segundo bibliotecário da Biblioteca Pública do Porto. Em 10 de Setembro de 1836 declara-se um movimento em Lisboa contra a Carta Constitucional, restaurando a Constituição de 1822.  Alexandre envia no proprio dia um ofício ao presidente da câmara municipal do Porto apresentando a sua demissão,: Como diz nesse documento, parte para a capital pois presta  «a maior fé à Carta Constitucional». Ou seja os valores da Liberdade e da Justiça, sobrepõem-se aos interesses pessoais.

E com toda a energia, coragem e determinação, vem para Lisboa combater o setembrismo. Nesse combate se insere a publicação do seu livro de poesias panfletárias A Voz do Profeta.  Em versos brancos de estilo incisivo, directo, ataca frontalmente o movimento político liderado por Passos Manuel.. A Voz do Profeta causa uma profunda impressão em todo o país.

Vida intelectual intensa – a História como Ciência

Em 1846 é publicado o primeiro volume da História de Portugal. A sua visão objectiva dos acontecimentos históricos, erradicando lendas e apoiando-se em fontes documentais, introduz a historiografia científica em Portugal. O que logo o envolve numa polémica com o clero e com os sectores intelectuais dominados pela Igreja – Não considerar como verdade histórica o Milagre de Ourique, segundo o qual Cristo apareceu a Afonso Henriques, provoca escândalo. Mas Herculano ridiculariza o clero ultramontano nos opúsculos Eu e o Clero e Solemnia Verba. A sua argumentação serena e o avanço que a sua História de Portugal pressupõe para o universo intelectual do país abre-lhe as portas da Academia das Ciências de Lisboa em 1852, sendo encarregado do projecto de recolha dos Portugaliae Monumenta Historica, documentos valiosos dispersos pelos cartórios conventuais do país. A par da sua obra como historiador, inspirando-se na narrativa histórica criada pelo escocês Walter Scott em Ivanhoe e pelo francês Victor Hugo, com Nossa Senhora de Paris, escreveu Lendas e Narrativas, em cujos textos Herculano se debruça sobre vários períodos da historia hispânica da Idade Média. Em 1842 publica Eurico o Presbítero, o primeiro grande romance histórico que se escreve em Portugal.

Isto dá vontade de morrer

Numa carta a Garrett, confessa um secreto anseio – viver entre quatro serras, dispondo de algumas leiras próprias, umas botas grosseiras e um chapéu de Braga. – ancorado no porto tranquilo e feliz do silêncio e da tranquilidade, como escreverá na advertência prévia ao primeiro volume dos Opúsculos. Porém  mesmo voluntariamente exilado em Vale de Lobos, Herculano  mantém a sua influência, reconhecendo-se-lhe (mesmo quem não concorda com as suas  ideias) uma indiscutível integridade moral, ainda mais rara do que a sua grande inteligência e superior cultura. .Este homem fisicamente frágil, mas possuidor de uma energia e de um carácter inquebrantáveis é um exemplo vivo de fidelidade a ideais e a valores que contrastam com o pântano em que a vida pública portuguesa se transformou -. Isto dá vontade de morrer!, diz ele, avaliando o mundo de que se refugia na sua quinta.

Herculano não quer mais distinções ou honrarias. As que tem chegam-lhe. É sócio da Academia Real das Ciências de Turim, da Real Academia de História de Madrid, da Real Academia de Ciências da Baviera, membro do Instituto Histórico de França e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. A sua grande rectidão moral obriga-o a não aceitar homenagens e condecorações que a sua fama crescente vai justificando e prefere retirar-se da agitação e das intrigas da capital.. Em 1867 casa com D. Mariana Meira e retira-se definitivamente para a sua quinta de Vale de Lobos.

A visita ao imperador

Enquanto viveu na sua casa da Ajuda, recebia todos os sábados a visita de muitos dos seus amigos, na maior parte escritores e poetas distintos, que o respeitavam como mestre, e com quem discutia politica e literatura. Agora tudo mudou .Os últimos anos são quase totalmente dedicados aos trabalhos agrícolas. Raramente se desloca a Lisboa.

No dia 1 de Setembro de 1877 desloca-se à capital para visitar o imperador D. Pedro II do Brasil que está em visita a Portugal. Quando regressa a Vale de Lobos está já muito mal. Morre no dia 13, vitimado por uma pneumonia. O corpo  fica  no jazigo do general Gorjão, na igreja da Azóia, em Santarém. No dia 15, nas exéquias solenes: estão representantes do rei D. Luís e da rainha D. Maria Pia, da Academia Real das Ciências, deputados, ministros, jornalistas da imprensa mais importante. Em 27 de Junho de 1888 são trasladados os seus restos mortais para a igreja dos Jerónimos.

Um conselho – para lá das generalidades que aqui deixo, para se compreender a  dimensão da figura de Alexandre Herculano, além de ler a sua vasta obra, aconselho a consulta de alguns livros – por exemplo, o  estudo de António Borges Coelho Alexandre Herculano., da Editorial Presença, A Mocidade de Herculano (1810-1832), de Vitorino Nemésio em. 2 volumes, Bertrand, Herculano e a Geração de 70, de João Medina, Terra Livre, e de Jorge Borges de Macedo. Alexandre Herculano, Polémica e Mensagem, Bertand.

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