GIRO DO HORIZONTE – PASTAS E POSTAS – por Pedro de Pezarat Correia

10550902_MvCyL[1]Estou a alinhavar estas breves reflexões para o GDH do dia 8 com 36 horas de antecedência, correndo portanto o risco de, com a velocidade a que somos surpreendidos por “casos” políticos (em geral no mais negativo sentido do termo), estarem completamente ultrapassadas quando forem editadas. Não me preocupa porque o que aqui se escreve também não é o anúncio de notícias frescas. É a reflexão sobre o estado geral do pântano em que fomos atascados.

Assistimos na última semana a uma sucessão de peripécias degradantes, daquelas que fariam da política um espaço pouco recomendável se a política se reduzisse à pornográfica disputa de poleiros por meia dúzia de arrivistas e oportunistas. Felizmente não o é mas, lamentavelmente, é a este universo restrito da política que a generalidade dos “media” dá projecção, porque se inscrevem na mesma lógica, a lógica do mercado, vender nem que seja lixo.

Um homem que geria a área das finanças mas que na realidade era o gestor máximo da equipa dos mandatários da “tróika” em Portugal, que se demite confessando publicamente o falhanço estrondoso de todo o seu projecto que os portugueses penosamente vêm suportando, é substituído pela sua colaboradora mais directa na concepção e aplicação dessa política falhada. O outro gestor de cúpula dos mandatários, que faz constar nos bastidores que contesta a política abrangente da equipa a que pertence e que anuncia com estrondo a sua demissão irrevogável por não aceitar a nomeação da nova responsável pelas finanças, afinal recua, dá o dito por não dito, permanece na equipa numa atitude que, segundo o próprio, será uma dissimulação. E é promovido a vice, aceitando partilhar a sua presença com a mandatária das finanças, que vai aplicar a política que ele anunciou rejeitar e pela qual, como vice, até vai ser co-responsável. Afinal a gestora financeira até não é assim tão má, a política do anterior demissionário até era aceitável, a demissãoaté podia ser revogável e a dissimulação até é uma virtude na política. Tudo não passou de um estado de alma.

Confuso, tudo isto? Não, afinal tudo se resolve com uma satisfatória distribuição de pastas e de postas.

Há um ar de suspeição a pairar sobre todo este ambiente. O que é que, para além do poder que, como se sabe, é afrodisíaco, mantém estes indivíduos que se detestam juntos num projecto ruinoso? Em que chantagens estão envolvidos ou sujeitos? Que influências têm nestas cumplicidades submarinos e BPN, swaps e PPP, interesses e comportamentos pessoais? Não sei, mas sabe-se que, nos bastidores há gente das secretas com eles envolvidos, amigos e ex-amigos, colaboradores e ex-colaboradores.

Só espero que, daqui para a frente, de cada vez que Paulo Portas se apresente diante de deputados, de jornalistas, de auditores, sempre que da sua boca saia uma decisão, um compromisso, o obriguem a esclarecer – é irrevogável? Sempre que se esforce numa explicação, numa análise, o confrontem com a pergunta – é uma dissimulação? Irrevogável e dissimulação são dois termos que nunca mais o devem largar. Até à exaustão… dele, obviamente.

E perante isto o que faz o presidente da República? No silêncio esfíngico a que nos vai habituando, sujeita-se ao espectáculo degradante de uma cerimónia burlesca, patética, em que pelo ar dos empossados mais parecia que, em vez de felicitações e desejos de sucesso, trocavam condolências e votos de pesar.Foi pessoalmente e institucionalmente vexado e, a pretexto de não querer acrescentar crise política à crise económica e financeira, empurra o país para a maior e mais persistente crise política do regime democrático e constitucional saído do 25 de Abril. E que está a ferir perigosamente o âmago do sistema democrático, isto é, a confiança.

Com muita preocupação afirmo-o, estou cada vez mais convencido que a crise só terá solução com a resignação de Aníbal Cavaco Silva à presidência da República.

8 de Julho de 2013

1 Comment

  1. O Homem não vai aceitar resignar. A movimentação popular,também, não conseguirá esse desiderato. Que tal, pergunto eu, as Chefias dos três ramos das Forças Armadas irem a Belém e, com toda a justeza, pronunciarem-se no sentido duma demissão. À população, por muito que muitos não queiram, ou, sobretudo, não lhes convenha, só resta incentivar as Forças Armadas a salvarem a Democracia em Portugal.CLV

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