SAÍDA DO EURO – A RESPOSTA DE JOSÉ ALMEIDA SERRA

 Formulação de pergunta por Júlio Marques Mota

À pergunta formulada

Eis pois a questão que levanto aqui e agora,  uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que é,   uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, e tendo ainda em conta o conjunto,  caracterizado pela ignorância, ganância e maldade,  destes que nos governam,  seja  a nível regional seja  a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!)  com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e  talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal

aqui vos deixamos a resposta de José Almeida Serra.

EURO: resistir ou desistir?

Fui desafiado a pronunciar-me sobre a permanência ou saída do euro por parte de Portugal, a pretexto do recente livro do Prof. João Ferreira do Amaral – Porque devemos sair do euro, de Abril de 2013 – que teve o condão, ou o mérito, de me desestabilizar profundamente.

Conheço o João Ferreira do Amaral, desde o tempo em que era aluno de “Económicas” (eu sou um pouco mais velho e era assistente daquela Casa nessa altura) e sempre lhe reconheci a grande valia intelectual e científica, bem como a enorme seriedade. Cruzamo-nos depois pela vida fora, muitas e frequentes vezes.

Encontrei-o sempre o mesmo: calmo, atencioso, ponderado, com ideias muito bem definidas, meditadas e muito próprias. Estivemos normalmente do mesmo lado da barricada, mas nem sempre. Às vezes discordei dele (sempre civilizadamente, além do mais porque ele é um homem de grande cultura e civilidade).

Li o livro com grande interesse, procurando-lhe os “pontos fracos”, por onde discordar. Para meu grande desconforto, não encontrei (ou melhor, dois ou três aspectos marginais e porventura discutíveis nenhum valor retiram à análise de conjunto).

Sabia, desde o início do projecto euro, de algumas das nossas insuficiências e da nossa falta de preparação. Do muito voluntarismo de que usá(va)mos. Mas, não fora o nosso voluntarismo, teríamos alguma vez feito muito do que fizemos ao longo da nossa História? Viver não é correr riscos?

Por isso aderi desde o início ao projecto.

Depois fui acompanhando o que se foi passando no País ao longo dos anos. Para minha frustração, fui constatando que fizemos (quase) tudo ao contrário. Gastámos com total irracionalidade. Delapidámos. Tal como no tempo dos dinheiros do Brasil, e outros, limitámo-nos a atirar dinheiro pela borda fora.

Não usámos de qualquer cálculo económico, de qualquer racionalidade económica ou social. A corrupção alastrou desmesuradamente. Foi um “fartar vilanagem” por parte de todos os governos, tanto do PS, como do PSD. Alguns – indivíduos ou instituições – foram alertando para as consequências do que se estava passando. Por exemplo, o Conselho Económico e Social bem alertou para muitos dos problemas, em sucessivos pareceres, desde pelo menos final dos anos de 1990. Ninguém deu ouvidos. O Parlamento, a quem tais pareceres eram destinados, ignorou tudo e ignorou todos. Os senhores parlamentares têm particular responsabilidade nos actuais problemas do País.

Assim, chegámos onde chegámos e de onde vamos ter muita dificuldade em sair.

Cito do livro em questão: “A dependência do Estado português e a humilhação face aos mercados, às agências de rating e à Troika é da responsabilidade do enquadramento da moeda única e da desastrada e inepta decisão que foi a de aderirmos ao euro” (pág. 58).

Muito poucas foram as vozes a pregar no deserto da nossa indiferença irresponsável. Infelizmente, a nossa sociedade deixou-se embalar por critérios de facilidade e de facilitismo. Os grupos dirigentes não estiveram à altura e não tomaram posição.

Cito de novo: “Lamento dizer que fiquei desde essa altura com uma péssima impressão das nossas elites, impressão que infelizmente tarda a desvanecer-se. O espesso manto de iliteracia económica que as afecta (mesmo de muitos supostos economistas), a suficiência bacoca e a total ausência de sentido crítico que as caracteriza fazem certamente de Portugal um dos países da Europa com piores elites” (pág. 106).

Iliteracia económica, mas também cultural, social e política. Crise de valores. A política e os políticos perderam o sentido de “polis”, de comunidade, de interesse comum. Mudaram de prefixo, adoptando o simetricamente oposto: “ego”.

Depois de um período de “vacas gordas”, que não fomos capazes de gerir na previsão de períodos menos fastos, chega-nos agora a amargura de não sabermos como sair do beco em que nos metemos. Incapazes de assumir as nossas próprias responsabilidades, procuramos “bodes expiatórios” para males que são nossos. O mais simples e imediato, nova moda nos tempos que correm, é culpar a Alemanha.

Regresso à obra de João Ferreira do Amaral: “Esta mudança na União, nas suas duas vertentes – o poderio da Alemanha e a subordinação da Comissão a esse poderio – tornam hoje a União um espaço pouco amigável para Portugal: explora as suas debilidades cobrando-lhe juros excessivos e mantém-no num colete-de-forças que o faz definhar de uma forma que há uns anos ninguém poderia prever” (pág. 114).

Reconheço que muito mudou na Alemanha dos anos 50 ou 90. A Alemanha, hoje, é outra e tem certamente algumas responsabilidades nos problemas da Europa actual. Mas a Alemanha tem os seus interesses, tal como a França ou o Reino Unido têm os seus. E também em política não há solidariedades desinteressadas. Cada um procura obter para si o máximo que as circunstâncias e correlação de forças toleram. Sempre assim foi e certamente assim continuará a ser.

O único país que verdadeira e perenemente deverá defender os interesses de Portugal – é Portugal. Mas, mesmo aí, teremos sempre de contar com Miguéis de Vasconcelos vários. Pelo que atenuo bastante as críticas a terceiros, do mesmo passo que amplifico as nossas responsabilidades próprias: os problemas portugueses são nossos e só por nós poderão ser resolvidos

Mas que saídas poderemos ter?

Regresso ao citado: “(…) é prioritário para Portugal sair do euro, uma vez que não temos qualquer possibilidade de crescer rapidamente dentro de uma zona monetária com uma moeda tão forte como é a moeda europeia” (pág. 118).

E como? Diz ainda o autor: “Mas a saída da zona euro não deve ser feita de qualquer maneira. Deve ser controlada. Existiria aí, sim, um desastre se fôssemos empurrados para fora do euro – situação que considero inevitável, se persistirmos em manter-nos lá a todo o custo” (pág. 119).

São, portanto, apontados a saída e algumas pistas para o caminho a seguir. E é chamada a atenção para o facto de ser preferível tomar o caminho da porta antes que resolvam pôr-nos fora de casa.

Gostaria imenso de ter argumentos fortes para rebater a tese, que me incomoda sobremaneira. Só que não tenho.

Também não me preocupa o argumento de que não estão previsto nos Tratados nem a saída nem critérios e mecanismos para a mesma. Afinal, já foi decidida tanta coisa à margem ou mesmo contra os Tratados que isso não será, certamente, problema de maior.

Termino, relembrando uma pequena história. Fizemos, o Prof. Ferreira do Amaral e eu próprio, parte de uma Direcção da Sedes em período coincidente com os últimos anos do governo Guterres (mais propriamente do desgoverno, prática em que, infelizmente, não teve qualquer monopólio) e aconteceu que, nos dois meses que antecederam as eleições autárquicas que levariam à demissão do Primeiro-ministro, o João Ferreira do Amaral referiu várias vezes, antecipando-a, a catástrofe eleitoral que se avizinhava.

Não o levei muito a sério e, embora comungasse da opinião que os resultados seriam bastante maus, propendi a nunca os perspectivar em termos de catástrofe. Só que seriam, como se veria no fim do dia eleitoral, com as consequências que se conhecem e as vicissitudes que se seguiram.

Perplexo, perguntei ao João Ferreira do Amaral, na nossa reunião imediatamente após a eleição, que fonte tivera que o levara a antecipar tão precisamente o resultado eleitoral. Respondeu-me simplesmente: continuo a não ter viatura pessoal, ando de transportes públicos e ouço os comentários das pessoas.

Talvez devêssemos, todos, passar a andar mais de transporte público!

JAS

2013.07.02

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