Este ano completam-se 40 anos de actividade de José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, como poeta, cantor de intervenção e escritor de livros para crianças. Para não falar da sua actividade como jornalista. Mas, centrando-nos na literatura infanto-juvenil, só na Ambar, conta com uma colecção com o seu nome onde publicou 27 livros antes da edição daquele de que Clara Castilho nos irá falar… É obra.
Mais uma vez, falarei de um livro que utilizo no meu trabalho. Trata-se de “O que é o medo?” Tem ilustrações de Catarina Marques. Tão comum a tantas crianças, tão comum a todos nós… Mas falemos das crianças.
O autor tenta responder às questões: “De que cor é o medo? Como nasce? Que rostos pode ter? Só gosta de viver em casas assombradas, ou também pode morar nas
outras? Quem tem medo também pode ser valente? Eis algumas das perguntas que nos assaltam o espírito sempre que falamos nesse sentimento tão humano e tão normal que é o medo. Neste novo livro de José Jorge Letria, que dá sequência a outros em que se fala da liberdade, do amor ou do sonho, o autor criou um conjunto de definições poéticas para este arrepio que nos percorre a espinha, para este nó que se aperta no estômago, para esta tremura nas pernas que tantas vezes faz com que recuemos perante uma sombra, um ruído, uma voz inesperada ou uma luz acesa numa casa abandonada.
Quem é que tem coragem bastante para dizer que nunca sentiu medo?”
Vou retirar algumas frases que me agradam:
“O medo é aqueles de que gostamos deixarem-nos sem notícias.
O medo é aquilo que se confessa para não o tornar ainda maior.
O medo é não ser capaz de dizer a verdade porque a verdade às vezes dói.
O medo é um lobo mau quase a chorar por não ter uma história para entrar.
O medo é ter uma grande vontade de ir e não ter pernas para lá chegar.”
Numa entrevista a alunos de várias escolas de todo o país, , numa iniciativa da Visão, eles quiseram saber:
Quando era criança, já sonhava ser escritor?
Não. Sonhava ser bombeiro, polícia, aviador… O meu pai queria que eu fosse engenheiro naval, mas nunca poderia sê-lo porque não gosto de fazer cálculos.
Porque é que decidiu ser escritor?
Só percebi que queria ser escritor depois de escrever um poema em homenagem à minha avó, que tinha morrido há pouco tempo. Não era muito bom, mas tornou-me o poeta de serviço da família. Pediam-me sempre para escrever alguma coisa quando havia um acontecimento especial. Mas eu não gostava muito, sempre preferi escrever o que me apetecia.
Participou como civil no levantamento militar de 25 de Abril de 1974. O que tem a dizer sobre isso?
Foi das experiências mais emocionantes da minha vida. Era jornalista do jornal A República. Ajudei no que foi preciso, a escrever comunicados e a escolher a música que passava na rádio. Naquela noite vi coisas que mais ninguém viu. Andei pelas ruas de Lisboa à espera de ver as tropas saírem. A maior emoção de todas foi ver os tanques a descerem a Avenida da Liberdade [Lisboa] com o Salgueiro Maia [capitão de Abril]. Os tanques faziam um barulho à passagem que parecia um tremor de terra.
Se escrevesse um livro dedicado à chegada do FMI a Portugal, que título lhe daria?
Chamava-lhe FMI, mas com outro significado. Ficava: Fomos Muito Iludidos. É a terceira vez que o FMI vem ao nosso país, eu assisti a todas e esta é a pior. Somos os mais pobres do clube dos ricos e não devíamos ter começado a viver acima das nossas capacidades.
Repito a frase do livro: “O medo é ter uma grande vontade de ir e não ter pernas para lá chegar.” Para nós adultos, não será isto que andamos sentindo, neste momento, no aqui e agora?



Mgnifico mimo matinal —-qto agradeo . Cordeais cumprimentos Maria S