RESPOSTA DE PEDRO DE PEZARAT CORREIA A CARLOS LEÇA DA VEIGA

Comentando o artigo de Pedro de Pezarat Correia, “Pastas e Postas” (Giro do Horizonte) publicado na passada segunda-feira, o argonauta Carlos Leça da Veiga publicou o seguinte comentário:

«O Homem não vai aceitar resignar. A movimentação popular, também, não conseguirá esse desiderato. Que tal, pergunto eu, as Chefias dos três ramos das Forças Armadas irem a Belém e, com toda a justeza, pronunciarem-se no sentido duma demissão. À população, por muito que muitos não queiram, ou, sobretudo, não lhes convenha, só resta incentivar as Forças Armadas a salvarem a Democracia em Portugal.

CLV

Resposta de Pedro de Pezarat Correia

«Amigo Carlos Leça da Veiga

 Compreendo as suas angústias e esperanças mas, para além da ilegitimidade de qualquer intervenção militar em democracia, está o meu Amigo absolutamente confiante que uma hipotética intervenção das chefias militares, hoje, seria no sentido de salvar o essencial da democracia:  eleições livres, liberdade de expressão, liberdade de reunião, liberdade de manifestação, liberdade sindical, direito à greve, etc. etc. etc.? Pelo contrário eu receio que, a fazerem-no, será numa conjuntura de grande agitação social, visando repor a “ordem” nas ruas, a “normalidade” nas empresas, a “autoridade” do Estado, o “respeito” pelas instituições.

Já aqui escrevi que hoje, as condições em Portugal se assemelham muito mais ao fim da I República do que ao estertor do Estado Novo e, por isso, uma intervenção militar seria muito mais do tipo do 28 de Maio do que do 25 de Abril.

Abraço

PPC»

1 Comment

  1. Meu Caro General,
    Não consigo acompanhá-lo pois só com muita imaginação é que posso aceitar estar-se a viver em Democracia. Desde há muito que não tenho dúvida sobre a falta imperdoável duma Democracia e para quem não aceita ouvir-me, inclusive gosta de invectivar-me, recomendo que leiam algumas das intervenções do falecido Professor Doutor Vitorino Magalhães Godinho como sejam, por exemplo, ” Em Portugal, não há Democracia” e, também, “em certos casos, não estamos melhor do que antes do 25 de Abril”. Também, por igual, recomendo a leitura do Professor Doutor João Ferreira do Amaral que, em dado momento, deixou escrito, “A partir de agora (2004), a Constituição portuguesa de 1976, totalmente subvertida, pode ser posta em causa por qualquer regulamento comunitário, mesmo o mais comezinho”.
    Se houvesse Democracia, qualquer eleitor podia ser eleito mas isso não sucede.O eleitor com projectos políticos tem de estar filiado num partido político que, depois, pode ou não aceitá-lo para candidatar-se e, isso, na conformidade da linha do partido que por sua vez é a do seu dirigente supremo que, por seu turno, tem de ter um aval alienígena.
    Que direito têm os partidos políticos de serem intermediários obrigatórios da vontade política eleitoral dos portugueses? Não lhes basta a indispensável liberdade de associação? Que razão haverá para que um partido político tenha mais direitos que tem uma outra qualquer associação e, bem conhecido, há muitas outras de muito maior valia cívica.
    Nada indica que as Forças Armadas, uma instituição secular com responsabilidades na própria vigência do regime Democrático, não tenham legitimidade para poder apreciar as actividades dos Orgãos de Soberania, inclusive contestá-las. Quaisquer formas de submissão impostas a quem quer que seja, se podem ser muito úteis para quem manda – sem saber comandar – repugnam a uma qualquer consciência que queira proceder como democrata. Se um qualquer português não der aos outros a sua liberdade de acção política está, necessariamente a desrespeitar a Democracia e, tem de reconhecer-se, as Forças Armadas não merecem qualquer tratamento de excepção que não, o duma consideração muito própria.
    A fidelidade jurada pelos militares é para com a Pátria e, deste modo, os Orgãos de Soberania, tendo em seu favor essa disponibilidade única e poderosa, têm a obrigação estrita e o respeito mais louvável de não actuarem sem conhecerem – e darem a conhecer – não, apenas, o grau da obediência marcial mas sim, por igual,se for caso disso, o duma colaboração franca, sem reservas, activa e comprometida. De Gaulle ao rebelar-se contra a legalidade da Democracia francesa que Pétain encabeçava, deu um contributo histórico muito notável tanto para o seu País como, também, para todo o Mundo.
    Agora, com o nosso País entregue à voragem completamente indevida da chantagem do poder financeiro internacional e quando, bem sabido, a chamada divida portuguesa é,afinal, uma “divida odiosa”, com cuja responsabilidade só podem arcar quantos, sob a designação de governantes, sempre mandaram nos portugueses e que, também, sem nada perguntar-lhes aceitaram vergonhosamente deixá-los, à deriva, nas burlas da união europeia e do seu malfazejo euro.
    As Forças Armadas deverão ter de manter uma obediência canina a quem está empurrar, sucessivamente, a vida dos seus compatriotas para uma desgraça política e social, há anos, inimaginável? Mais inaceitável, toda a obra de desmantelamento nacional, sem nela poder ignorar-se aquele que agride os valores culturais, está a ser executada – é fácil vê-lo – com um despudor total, uma insensibilidade social manifesta e, não menos grave, com um declarado falhanço político-financeiro.
    A situação nacional, tanto a política como aquelas económica, cultural e social se já eram muito deploráveis,então, depois da intervenção de Belém, baixou ao pântano. Melhor, muito melhor era a situação portuguesa em 1975 e houve militares muito lestos e bem expeditos para fazerem o 25 de Novembro.
    O 28 de Maio ou 25 de Abril, quem os corrompeu – não tenho quaisquer dúvidas – foram quantos oportunistas bem infiltrados acabaram por ter tido a ocasião de tudo perverter ao utilizarem a inocência política dos organizadores daqueles movimentos. Honra a quem, apesar de tudo, soube e quis agir com toda a sua boa fé. Um abraço do CLV

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