SAÍDA DO EURO. A RESPOSTA DE MARICA FRANGAKIS

Formulação da pergunta e tradução da resposta por Júlio Marques Mota 

À pergunta formulada
Eis pois a questão que levanto aqui e agora, uma vez que Portugal se recusa viver em autarcia como um país pequeno que é, uma vez que a saída da zona euro unilateral é também ela inaceitável, uma vez que a saída apoiada pela UE é , por seu lado, impraticável, e tendo ainda em conta o conjunto,  caracterizado pela ignorância, ganância e maldade,  destes que nos governam,  seja  a nível regional seja  a nível nacional, então o que fazer para não se morrer, mesmo que lentamente (!)  com estas políticas que estão e estão mesmo para durar e  talvez mais de dez anos, de acordo com as declarações de Jens Weidmann ao Wall Street Journal
aqui vos deixamos a resposta de Marika Frangakis.
Marica Frangakis
Marica Frangakis
Marica Frangakis é uma investigadora independente, com um interesse científico especialmente centrado nas áreas de Macroeconomia e da Finança. Ela é membro do Conselho de “Nicos Poulantzas Institute”, membro fundador da ATTAC Hellas e membro do Steering Committee of the European Economists for an Alternative Economic Policy in Europe (www.euromemo.eu).

Texto em português

Deve Portugal deixar o euro? Com que consequências: económicas, sociais e políticas?

Qual a alternativa?

Portugal seguiu pelo mesmo trilho que a Grécia ao ser ‘socorrido’ pela Troika (UE, o BCE e o FMI) quase um ano mais tarde, exactamente quando os protestos sociais contra a austeridade estavam a ganhar força em Atenas e noutras cidades gregas[1]. Aplicou-se a mesma política, uma politica de rigor, de austeridade, com os mesmos resultados catastróficos para os dois países. Passado dois anos para Portugal e três para a Grécia, é claro, até mesmo para os incrédulos, que a austeridade como política não está a funcionar. Pior ainda, com a política de austeridade estão-se a aprofundar os problemas com que se debatem estes países e outros que vão pelo mesmo vale. Deste modo, o que deve então ser feito?  Não se trata de modo nenhum de uma questão teórica.  É uma questão vital, política e socialmente, a mais fundamental precisamente neste momento. Para procurarmos responder a esta questão devemos então ter presente o seguinte:

•        Raízes da crise – o neoliberalismo esgotou-se e, até ao limite. O paradigma económico dos últimos trinta anos atingiu um ponto de viragem. Cortando fortemente nos salários e dinamizando o crédito através de um aumento contínuo nos preços dos activos criaram-se  bolhas enormes em vários países e em vários sectores.  Chegou-se a um ponto em que  essas bolhas explodiram tanto globalmente como  na Europa.

•        A finança tem sido uma peça fundamental desse paradigma. O capital financeiro tornou-se dominante e de várias formas durante este período. A presença generalizada da finança é evidente na medida em que mais ou menos se recuperou da crise inicial de 2007/2008. Enquanto certas áreas da finança ainda estão em vias de reestruturação, a dimensão do sector financeiro continua a aumentar em relação ao PIB, mesmo que a um ritmo mais lento do que no passado. Da mesma forma, enquanto o emprego no sector financeiro tem-se estado a reduzir, as posições de influência de um pequeno número de investidores em todo o mundo e os pacotes de remuneração permanecem incrivelmente altos e mantêm-se a subir (rendimentos de capital financeiro).  Esta é exactamente uma indicação da sua contínua influência política.

•        O projecto do euro foi construído numa base que favorece os interesses económicos e financeiros dominantes. Eliminando o risco cambial, o seu funcionamento assenta na moderação salarial e nos constrangimentos ou controlos de ordem orçamental e monetária.  Em combinação com a desregulamentação financeira desse  período, isto fornece o quadro para o aumento de  importância e poder da finança.  Quando os baixos salários/crédito barato são a base de funcionamento do euro e quando esta base ficou sobre forte pressão, o euro deveria ter sido reestruturado como peça de um bom projecto capitalista (!) – ao invés de ter sido tomado como uma construção neoliberal de limitado alcance – ou estará condenado a entrar em colapso.  Os programas de resgate  impostos a Portugal, à Grécia e a outros países são medidas a curto prazo que efectivamente aceleram  a probabilidade de colapso.

•        Pode Portugal, Grécia, e os outros igualmente, esperarem que o euro entre em colapso ou que venha a ser reestruturado  para que se torne uma moeda sustentável,  mesmo que apenas o  seja  em termos capitalistas?  A resposta é não!  O regime de austeridade aplicado a estes países está a minar os alicerces da sua entidade política. O contrato social em que essas sociedades se têm desenvolvido está a ser destruído.  O desemprego, a pobreza, a falta de confiança, neofascismo estão a minar  a coesão social.  O sistema político dominante está a cair como  um castelo de cartas, apesar dos esforços que têm sido feitos  para o sustentar,  (veja-se por exemplo, as visitas de Merkel a  estes países).  Ambos os países e outros em semelhante posição entraram num período de transição formativa, cuja duração ainda não é actualmente ainda clara.

Atendendo ao exposto, a resposta à questão se a saída do  euro pode ser uma política viável poderia ser  expressa a partir dos seguintes argumentos:

a) Na medida em que a finança foi moldando o desenvolvimentos nos últimos trinta anos, a saída do euro tem sobretudo a ver com um dos sintomas deste estado de coisas – ainda que muito importante;

b)      A saída do euro permite que um país possa  desvalorizar a sua moeda, a título de ajustamento  em termos de competitividade.  Ele não é livre de o fazer sob tutela da finança.  Ou seja, a especulação financeira passará do mercado de títulos governamentais para o mercado cambial, levando a um aumento nas taxas de juros, inflação, etc;

c)      A desvalorização oferece a um país um espaço de respiração para poder assumir  políticas que o levem a poder  aumentar a sua competitividade e restaurar um padrão de vida decente para os desempregados, pobres, jovens e velhos, homens e mulheres. Sair do euro sem um tal  plano  delineado e as necessárias coligações políticas necessárias prontas para assumir  esse plano  na prática é estar então a desperdiçar as oportunidades oferecidas através da adopção da sua própria  moeda.

d)      Em última análise, sair do euro é uma decisão política.  Se é tomado pela classe politica dominante, então pode não ser particularmente benéfica para aqueles que já sofrem sob o regime da Troika.  Se ela é tomada pelas  forças políticas que são sensíveis às necessidades da ampla maioria das pessoas, há uma oportunidade de que esta possa funcionar!

e)      A saída do euro levanta a questão de coligações com outros países (na Europa principalmente) como sendo especialmente pertinentes. Tais coligações não estão a ser procuradas pelos actuais governos de Portugal ou da Grécia, apesar da necessidade óbvia de o deverem fazer.  E isto é assim, porque eles seguem as linhas políticas ditadas pelo modelo neoliberal-financeiro  predominante.  Na prossecução de uma política radical, fundamentalmente divergente da que é hoje dominante, a necessidade de trabalhar em conjunto com as forças políticas dos outros países que tenham quadros de referência semelhantes ou próximos é hoje imperativa.

Em geral, a saída do euro não resolverá por milagre os problemas de Portugal ou da Grécia. No entanto poderá actuar como um catalisador e, nesse sentido, irá acelerar a sua própria dinâmica.  Se isso vai na boa ou má direcção irá depender de uma série de outros factores, tanto nacionais como europeus. Mais ainda, tais desenvolvimentos serão desencadeados primeiramente a nível político. A longo prazo, no entanto, saber lidar com os problemas económicos e sociais desses países é um requisito necessário para a sua sobrevivência num mundo globalizado e altamente competitivo.

Marica Frangakis

Atenas, Julho de 2013

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Texto no original

Should Portugal leave the euro?  With what repercussions:  economically, socially, politically?

What is the alternative?

Portugal followed Greece in being ‘bailed out’ by the Troika – EU, ECB and IMF – nearly one year later, just as the social protests against austerity were gathering force in Athens and other Greek cities.  The same austerity formula, with the same catastrophic results has been applied to the two countries.  Two years later for Portugal and three for Greece, it is clear even to the unconvinced that the austerity formula is not working.  Even worse, it is deepening the problems faced by these countries and others in the same predicament.  So, what is to be done?  This is not just a theoretic al question.  It is a vital, political and social question more than anything else at the present time.  In attempting to answer this question we need to bear the following in mind.

•        Roots of the crisis – Neoliberalism has exhausted its limits.  The economic paradigm of the past thirty years has reached a turning point.  Suppressing wages and boosting borrowing through a continuous increase in asset prices created huge bubbles in various countries and sectors.  There came a point where these bubbles exploded both globally and in Europe.

•        Finance has been an instrumental part of this paradigm.  Financial capital became dominant in more than one way during this period.  The pervasive presence of finance is evident insofar as it has more or less recovered from the initial crisis of 2007/2008.  While certain areas of finance are still undergoing restructuring, the size of the financial sector continues to increase in relation to GDP, even if at a slower rate than in the past.  Similarly, while employment in the financial sector has been reduced, the pay packets and positions of influence of a small number of financiers across the world remain incredibly high and keep on rising (rentier incomes).  This is just an indication of their continuing political influence.

•        The euro project was set up in a way that favours the dominant economic and financial interests.  By eliminating the foreign exchange risk, its functioning relied on wage moderation and fiscal / monetary restraint.  In combination with the financial deregulation of the period, this provided the framework for the strengthening of finance.  When the low wage – cheap borrowing basis of running the euro came under pressure, the euro will either be restructured as a proper capitalist project (!) – rather than a narrowly conceived neoliberal construct – or it will collapse.  The bail-out programmes imposed on Portugal, Greece and other countries are short-term measures that effectively speed up the likelihood of collapse!

•        Can Portugal, Greece, etc wait for the euro either to collapse or to be restructured, so that it becomes a sustainable currency if only in capitalist terms?  The answer is NO!  The austerity regime applied to these countries is eroding the very foundations of their polity.  The social contract on which these societies have operated is being dismantled.  Unemployment, poverty, lack of trust, neo-fascism are undermining social cohesion.  The dominant political system is coming down like a house of cards, in spite of the efforts being made to support it (e.g. Merkel visiting these countries!).  Both countries and other in a similar position have entered a period of formative transition, the duration of which is not clear at the present time.

In view of the above, the answer to whether exiting the euro may be a viable policy could run along the following lines.

a)      To the extent that finance has been shaping developments in the past thirty years, exiting the euro deals with only one of the symptoms of this state of affairs – albeit an important one.

b)      Exiting the euro allows a country to devalue its currency by way of adjusting in terms of competitiveness.  It does not it free from the tutelage of finance.  I.e., financial speculation will shift from the government bond market to the foreign exchange market, leading to an increase in interest rates, inflation, etc.

c)      Devaluation offers a country a breathing space to undertake policies to boost its competitiveness and to restore a decent standard of living for the unemployed and the poor, young and old, men and women.   Exiting the euro without such a plan at hand and the necessary political coalitions ready to take over would waste the opportunities given by adopting one’s own currency.

d)      In the final analysis, exiting the euro is a political decision.  If it is taken by the dominant ruling class, then it may not be particularly beneficial for those already suffering under the Troika regime.  If it is taken by political forces that are responsive to the needs of the broad majority of the people, there is a chance that it might work!

e)      Exiting the euro makes the question of coalitions with other countries (in Europe primarily) especially pertinent.  Such coalitions are not being pursued by the current governments of either Portugal or Greece, in spite of the obvious need for them.  This is because they follow the prevalent neoliberal – financial capitalist line of policy.  In pursuing a radical policy, fundamentally diverging from the dominant one, the need to work together with similarly minded political forces in other countries is imperative.

Overall, exiting the euro will not miraculously solve the problems facing Portugal or Greece.  It will however act as a catalyst and in that sense, it will speed up developments.  Whether this is in a positive or a negative direction will depend on a host of other factors, both domestic and European.  Further, such developments will primarily be on the political level.  In the longer term, however, dealing with the economic and social problems of these countries is a necessary requirement for their survival in a globalised and highly competitive world.

Marica Frangakis

Athens, July 2013

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[1] Nota de Tradução- Na altura e com que cinismo, dizia-se em Portugal: nós não somos a Grécia!

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