Viver
Na região de Paris há milhares de quilómetros sinalizados, circuitos que começam e acabam numa estação, permitindo calcorrear vinte ou trinta durante o dia em itinerários adequados à caminhada, através de parques, ilhas, ruas e pontes, pelas margens do Sena, à beira do Canal de l’Ourcq… Onde resido – por exemplo – passam três diferentes, o “Caminho dos Parques”, o “Caminho das Ilhas”, o “Caminho das Margens”; e o GR1começa ali perto. É apaixonante, em qualquer época do ano, quando surge um dia livre, pegarmos – sem reservas nem roteiros – numa sanduíche, três frutos, um pedaço de chocolate, calçarmos as botas e partirmos para uma longa viagem.
A diferença entre um dia de caminhada e outro de carro é que a pé vemos, sentimos e descobrimos com mais intensidade: viajamos mais. De carro percorremos oitocentos quilómetros mas nada aprendemos e ninguém encontrámos, a pé confrontamo-nos com o mundo em vez de, como é banal na nossa sociedade, apenas o vermos no ecrã, seja este a televisão, o computador ou os vidros do automóvel. Quando caminho sinto o vento, sinto a temperatura do ar, sinto a euforia do corpo em movimento, avalio os odores, observo os animais, pássaros em particular, melros, chapins, garças, cegonhas, as plantas na sua diversidade, as pedras, a arquitetura, o ambiente humano, oiço o campo, oiço a cidade, vejo quem passa e quem trabalha, falo, troco ideias, recebo informações… Concluo ao chegar a casa que alarguei não só o espaço geográfico – o meu território subjetivo – mas também o espaço imaginário. E algumas vezes as experiências multiplicaram-se ao ponto de eu ter dificuldade em acreditar que as vivi num só dia.
Os leitores lembram-se da viagem que fizeram à China? As vinte horas de avião, o desfasamento horário, os circuitos de autocarro, as visitas apressadas, as refeições nos hotéis, entre turistas, as vinte horas de regresso… Oito dias num mundo paralelo: nada viram da China dos chineses, que talvez se situe nos antípodas das vossas curiosidades, tão-pouco aprenderam sobre a arte, a história, a geografia… Lendo um livro em casa teriam apurado muito mais. A caminhada no nosso país é, de numerosos pontos de vista, o oposto da viagem organizada e, se parece prometer menos exotismo, o balanço final não deixa de se revelar positivo. Claro que exige uma postura oposta à que os turistas levam para aquelas viagens, atenção, curiosidade, espírito de aventura, capacidade de apropriação do espaço e do tempo presentes, por exemplo, mas este esforço – se esforço for – será sempre recompensado. E afinal… Viver não é isto? Fazemos da caminhada uma metáfora da vida.
