LIVROS SOBRE LISBOA – por Manuel Simões

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Um possível projecto editorial seria o de uma colecção de romances escritos por estrangeiros tendo Lisboa como cenário.  João Machado fez aqui um levantamento sumário e hoje Manuel Simões, pegando no mesmo tema, traz-nos mais uma série de ficções sobre a cidade do Tejo. São obras de escritores italianos, sobretudo. E talvez este tema possa ainda ser explorado num terceiro artigo, lembrando, não todos, pois são muito numerosos, mas alguns livros de ficcionistas portugueses – Camilo e Eça, desde logo, não esquecendo José Rodrigues Miguèis e a sua Escola do Paraíso…

 Com este título publicou aqui o meu amigo João Machado uma excelente crónica sobre Lisboa na literatura internacional, referência de certoImagem1 modo rara como já constatou o jornalista italiano Sandro Viola, quando, a propósito da publicação do romance de Angela Bianchini, “Capo d’Europa” (1991), escreveu no jornal “La Reppublica” uma espécie de recensão a que deu o título “Finalmente Lisbona”. E dizia ele: «Exceptuando o que acontece com os escritores portugueses, como são raros, na literatura ocidental, os retratos de Lisboa!».

Trago, portanto, algumas achegas sobre o tema, considerando sobretudo os autores italianos que elegeram a nossa capital como espaço de acções narradas, às vezes a dar razão a José Cardoso Pires que, em “Lisboa. Diário de Bordo”, refere os que mal chegam a Lisboa e começam logo a “mandar vir” sobre a cidade, sem lhe conhecer a respiração. Está neste caso o italiano Aldo Busi, no seu romance “Altri abusi” (1989), com a sua visão distorcida (chega a comparar o Chiado às ruas de Bombaim) e cruel sobre um certo tecido social das noites de Lisboa, talvez para “incomodar” Antonio Tabucchi – era conhecida a inimizade entre os dois -, então director do Instituto Italiano de Lisboa.

Mas também este escritor (AT), que deveria conhecer mais profundamente a nossa cultura (e que num conto inserido no seu livro “O Jogo do Reverso” é observador atento da atmosfera duma casa da alta burguesia a meio dos anos 70), se deixou conduzir por certos devaneios num texto incluído em “Volatili di Beato Angelico” e onde, a partir das dezasseis páginas de anúncios das agências funerárias nas “Páginas Amarelas” (da chamada grande Lisboa) tira conclusões erradas sobre a retórica da morte, como se fosse um aspecto exclusivo de Lisboa. Se ele confrontasse as duas culturas (portuguesa e italiana) certamente chegaria à conclusão que a “nossa” retórica é bem menos empolada do que noutros espaços.

Mas é tempo de falar do romance de Angela Bianchini, “Cabo d’Europa”, infelizmente nunca traduzido em Portugal. É um romance de matriz autobiográfica e que se desenvolve à volta duma protagonista em fuga e para quem a viagem, apesar de todas as esperanças, não deixava de representar um salto no desconhecido. A sua atenção era prevalentemente absorvida pelos medos e pela ânsia de remover todos os obstáculos até à decisiva partida, essa sim tida como libertadora, sem transcurar a memória das vozes que circulavam, mesmo em Itália, dos espiões que pululavam pelas ruas de Lisboa, tornado o porto de saída para as Américas, fugindo à Europa invadida pelos nazistas. Talvez por esta razão Angela Bianchini dedique um breve capítulo à Pensão Europa (“localizada” na parte alta e moderna de Lisboa), nome carregado, deste modo, de uma simbologia explícita no contexto do romance.

No seu deambular pela cidade, num Abril da Primavera de 1941, a recém-chegada não fica insensível à atmosfera arquitectónica da baixa lisboeta e à profusão de «pinheiros, hortênsias, ‘hibiscus’ e oleandros» (p. 39), descobrindo as «largas praças de  mosaicos pretos e brancos, com pórticos solenes, altos palácios, conventos» (p. 77), e, não se sabe bem onde, muitas estátuas equestres. No capítulo “Capo d’Europa’, que descreve a passagem da protagonista pelo Cabo da Roca, «o último sinal da terra, o fim da Europa» (p. 80), a rapariga italiana tem a noção plena de se encontrar numa «tira de terra, apertada entre a Europa abandonada aos perseguidores e às vítimas, e o oceano que escondia, debaixo das ondas, os submarinos» (p. 79). É a mesma atmosfera que se observa em “Lettre à un Otage”, de Saint-Exupéry, e em “Arrival and Departure”, de Koestler.

E, já agora, refira-se o texto de outra escritora italiana, Joyce Lussu, que, em “Tradurre Poesia” (1967), nos deixou algumas considerações sobre as suas viagens a Lisboa, a primeira das quais precisamente em 1941 e a segunda em 1961, tendo como guia Alexandre O’Neill, esta com a intenção de recolher poemas de Agostinho Neto, então preso no Aljube, para o volume que acabou por publicar (“Com occhi asciutti”, “Com os olhos secos”) em 1963. A mulher do poeta, ao sair das visitas à cadeia, ditava-lhe os versos que tinha conseguido fixar e assim a tradutora acabou por conseguir o material suficiente para um volume.

 E eis como evoca a sua primeira viagem: «Em 1941 tinha chegado a Lisboa com Emilio Lussu [seu marido e figura destacada do PCI] de maneira aventurosa, passando as fronteiras com os contrabandistas e com nomes falsos, procurados como éramos pelas várias polícias fascistas. Fomos obrigados a ficar alguns meses em Lisboa, ilegalmente, para actividades da Resistência. Tinha aproveitado para aprender a língua e inscrever-me na universidade, com o meu nome e apelido. Fiava-me nos limites intelectuais das polícias fascistas, mesmo eficientes como a PIDE, a polícia de Salazar: de facto nunca qualquer agente pensou procurar-me nas aulas universitárias, onde até fiz exames públicos, obtendo diplomas de literatura e filologia portuguesa» (p.63). E recordava Lisboa como «uma cidade muito bela, com as suas torres e as suas cerâmicas brancas e azuis nas paredes dos edifícios, e o seu povo melancólico e gentil; e também muito hospitaleiro com os estrangeiros que não se intrometam em questões respeitantes à polícia política» (p. 63). A certa altura Joyce Lussu discorre até sobre o conceito de “saudade”, utilizando o lugar-comum da expressão intraduzível (deve ter aprendido isso nas aulas) para concluir que é uma espécie de metafísica nacional.

1 Comment

  1. Manuel
    Temos de conseguir um editor português para o livro da Angela Bianchini, “Cabo d’Europa”, Temos de falar sobre isto.
    Já agora, conhecedor da minha dificuldade em ler italiano (mas consegui ler o «Il consiglio d’Egitto», do Leonardo Sciascia, que o Mega Ferreira me emprestou, mas vi-me aflito!) conheces alguma outra edição do livro, em espanhol, por exemplo?

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