OUTRA HISTÓRIA – por Rachel Gutiérrez

Um Café na Internet

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No mesmo período, em 1992, durante  uma temporada de quatro meses na Alemanha, fiz uma espécie de  peregrinação a Göttingen  para conhecer o pied-à-terre de Lou Andreas-Salomé , a cidade universitária em que seu marido viveu e lecionou,  para onde ela sempre voltava após suas aventuras pelo mundo , onde viveu os difíceis anos que antecederam a II Guerra Mundial e onde morreu, em 1937.  Acreditava poder visitar a  casa – Loufried ( a paz de Lou)  –  em que Rilke se hospedara tantas vezes , onde, segundo Lou em sua autobiografia, os chinelos do poeta permaneciam sempre  à espera dele,  sob a escada que levava ao sobrado. Eu bem podia imaginar  essa casa no alto da colina, com muita vegetação em torno dela,  uma espécie de cottage  alemão ,  ou uma casa bávara no meio de um jardim .

  Anotei em meu segundo dia em Göttingen:

23 de setembro :

“Manhã nublada e um pouquinho chuvosa. Ah! mas que alegria de ter um quarto só para mim em um albergue moderno e bem equipado. Na mansarda! Com uma janela ou clarabóia que me mostrou as estrelas ontem à noite, as nuvens desta manhã e depois, a chuva.

Quase nada sobre ela na Biblioteca da Universidade. E quase nada dela também.

Será que eu sei o que realmente estou buscando aqui?”

 24 de setembro :

“Adiantou vir a Göttingen? Ó!  só a beleza da cidade, suas árvores, suas flores, sua idade respeitável e a fantástica conservação de tudo. É uma graça de cidade em todos os sentidos: luminosa, bonita, com muita vida na rua, cafés com  mesinhas nas calçadas e uma alegria no ar!”

 Mas a pesquisa não progredia. Onde procurar a casa de Lou? Um pouco sem saber o que fazer, entrei em uma livraria e para minha grata surpresa, encontrei um livro recente sobre ela. Comecei a folheá-lo ao acaso e deparei com o nome de um capítulo: Die Hexe von Hainberg, a bruxa de Hainberg! Os nazistas a chamavam de bruxa porque era psicanalista e amiga de judeus…  De Hainberg,  mas é claro, deve ser o nome de um bairro, o bairro onde ela morava. Coloquei o livro de volta na estante e saí à procura  de uma agência de turismo.

 –      Por favor, onde fica o bairro de Hainberg?

–      No alto da cidade. Veja, aqui. ( E o agente solícito mostrou-me o local no mapa).

–      E como se vai lá?

–      Naquele ônibus , o de n.º 11, que está passando do outro lado da rua. Faça um sinal, a senhora ainda pode alcançá-lo.

Corri para pegar o ônibus e, ofegante, entrei no que me pareceu um dos  antigos lotações do Rio de Janeiro.

Saboreando o prazer da aventura,  após  uns cinco minutos de viagem, percebi  que  já estávamos subindo. Então perguntei ao motorista:

– Diga-me, por favor,  estamos perto de  Hainberg?

Ele  murmurou alguma coisa ininteligível mas fez um gesto expressivo que queria dizer “há muito tempo!”

–      Aonde a Sra. vai? , perguntou-me um passageiro  idoso e bastante  simpático.

–      À casa de Lou Andreas-Salomé!, respondi como se todo mundo conhecesse o lugar. Então  aconteceu o milagre.

–      Ah! é lá em cima , mas a senhora deve descer aqui. (E apontou para a continuação  de uma ladeira,  do outro lado de uma pracinha onde o ônibus, como um cavalo obediente,  estacionou).

–      Danke schoen!

 Desci  e me dirigi à rua que se chama Herzberger Landstrasse. Era por volta do meio-dia. As calçadas estavam desertas mas avistei, em um jardim, um rapaz  que conversava ao telefone sem fio. Esperei que desligasse, aproximei-me e perguntei:

–      Pode me dizer se a casa de Lou Andreas-Salomé é muito longe?

–      Lou Andreas-Salomé? Nunca ouvi falar. Mas… Um momento, por favor! Vou consultar o Serviço de Informações Culturais.

E após alguns instantes:

–      Ah! (com ar de surpresa) é nesta mesma rua, o n.º 101. Eu não sabia! Deve ficar bem lá em cima.

Agradeci mais uma vez e continuei a subir  a ladeira lentamente. As casas foram se espaçando, os jardins crescendo e, de repente, diante de um estreito caminho em declive como uma picada no bosque, uma seta onde se lê Lou Andreas-Salomé Weg . Caminho de Lou Andreas-Salomé!

Desço por esse caminho e encontro um pequeno espaço sombrio, coberto de folhas e cascalho ,   limitado por uma cerca de arame além da qual há   algumas casas ajardinadas. Acima, sobre a colina, um prédio em tons de bege e laranja que destoa na paisagem. O único som é o do sussurro do bosque. E de repente,  passos. Surge junto à  cerca uma velhinha  com uma sacola de compras. Dirijo-me a ela.

–      Bom dia! A Senhora pode me informar qual dessas casas pertenceu a Lou Andreas-Salomé?

–      Naturalmente! Era ali onde está aquele edifício. Nós tivemos de vender a casa.

–      Ah!… a Senhora é da família?

–      Bem, mais ou menos… É uma história muito longa e complicada. Mas eu enterrei Andreas e enterrei Lou, disse com orgulho.

–      … Hum… e… ( meu coração estava  aos pulos! ), e a senhora conheceu o poeta Rainer Maria Rilke?

–      Sim! Mas eu era muito criança, eu não prestava muita atenção neles. (E então  acrescentou ingenuamente: ) Não sabia que iriam se tornar tão importantes. Agora, com muita freqüência chegam aqui pessoas interessadas … fazendo pesquisas.

–      Pois eu vim do Brasil.

–       Ach so!  Muito longe! Do outro lado do mundo!

Para descobrir o nome dela, disse-lhe  o meu e estendi-lhe a mão.

–      Maria Apel. Sorriu amavelmente e pediu licença, estava atrasada.

–      Muito prazer! E muito obrigada!

Esperei que ela se afastasse e procurei me recompor de tanta emoção. Maria Apel! Maria, com certeza a pequena Mariechen,  a filha de Marie, empregada de Lou e de  Andreas, com quem este tivera dois filhos, segundo H. F.  Peters: um menino,  que morreu pequeno, e Marie, cujo nascimento foi mencionado por Lou em uma carta a Rilke que eu lera dias antes, Maria, que  havia convivido com Andreas e com Lou até o fim, que conhecera Rilke…

Fui olhar de perto o prédio que se chama, como a casa,  Loufried e  em cujo jardim há uma pedra onde estão gravados versos de Lou que Nietzsche certamente teria apreciado:

Du heller Himmel über mir

Dir will ich mich vertrauen

Lass nicht von lust und leiden hier

Den Aufblick mir verbauen.

– – – – – – – – – – – – – – – – —- — – – –

Ó céu claro sobre mim

A ti quero me confiar

De  desejo e dor aqui

Não me veles o olhar.

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