Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
Nota introdutória
A Troika não se esquece dos precários, não se esquece que muitos deles ao irem para o desemprego devem levar os subsídios de desemprego reduzidos, seja em valor por mês, seja em extensão.
Mas a Troika apoiou os bancos espanhóis assim como os bancos italianos a taxas especiais e aos seus directores que aos respectivos povos, como aqui aliás, roubaram milhões, mas a esses directores, a troika esqueceu-se de exigir as devidas compensações pelos estragos feitos. Se calhar também aqui com uma cunha de Zapatero, quem sabe? Mas uma coisa se sabe, ao ler Vitor Constâncio, é de que não se deve mudar de rumo e o rumo é este que aqui se descreve. E amavelmente o jornalista pergunta se terá sido por esquecimento que se esqueceram dos para-quedas dourados, de milhões aos respectivos povos roubados. Por esquecimento… Quem pede contas à Troika, até pelos seus esquecimentos, que mais não seja?
Júlio Marques Mota
xxxxxxx
Ajudar os bancos ou os banqueiros?
Georges Ugeux
O caso de Alfredo Saenz Abad, patrão do maior banco da zona euro pelos seus activos, o Banco Santander, tem sido objecto de múltiplas crónicas, em Espanha e para lá de Espanha, também. Recorde-se que 100 mil milhões de euros foram concedidos pela Europa para recapitalizar os bancos espanhóis. O caso, neste contexto, revela aspectos profundamente embaraçosos.
Uma súbita demissão por motivos judiciais
Alfredo Sáenz renunciou duas semanas depois do muito respeitável Banco de España, ter anunciado que iria rever o caso deste banqueiro catalão de 70 anos. Esta revisão deve ser feita à luz dos critérios do banco para a direcção dos bancos quando a pessoa é objecto de procedimento penal.
O seu crime? Ter feito falsas acusações contra quatro empresários que deviam dinheiro ao banco que ele dirigia na altura, Banco Espanol de Credito (Banesto) Nada mais nada menos.
Não somente as suas declarações eram falsas e ele sabia-o, mas ele tinha-as repetido em documentos oficiais, apresentados ao Tribunal. Os quatro interessados, sobre a base destas declarações, tinham mesmo ido parar à prisão.
O governo socialista de José Luis Zapatero Rodríguez bem tinha tentado conceder-lhe uma amnistia, mas o Supremo Tribunal opôs-se-lhe. Uma lei promulgada a 12 de Abril de 2013, pelo governo conservador de Mariano Rajoy, que carrega com o peso dos excessos dos bancos ibéricos, destina-se a banir tais líderes bancários condenados por crimes de ordem penal (como é o caso Saenz, 3 meses de prisão com pena suspensa). Foi o que levou o Banco Central espanhol a actuar.
Um belo tesouro de guerra
Tudo isso não é adequado, mas o caso complica-se pois que, aquando desta demissão, que fez grande ruído, informações precisas sobre a remuneração de Alfredo Saenz e dos grandes dirigentes bancários espanhóis tinham sido objecto de grandes reportagens dos media espanhóis, retomados depois pela imprensa estrangeira, sobretudo a inglesa.
De facto, Don Alfredo não parte de bolsos vazios, sem um tostão. Na verdade, a sua pensão é estimada em 88 milhões de euros. Mas o que parece ainda mais preocupante, é que em plena crise bancária total, na mesma altura da execução do apoio da União Europeia, a remuneração do CEO do Banco Santander tenha atingido no ano anterior 8,3 milhões de euros.
Um legado duvidoso
Sem dúvida, Alfredo Saenz é considerado o arquitecto da transformação da banca espanhola, mesmo que o verdadeiro patrão continua a ser o seu presidente executivo, Emilio Botin, que continua a ser accionista – muito minoritário. A sua pensão é apenas de 25,6 milhões de euros, e o da sua filha, Ana Patricia, 24,9 milhões de euros. (Ela fez a sua carreira no banco familiar). Ele sempre defendeu que isso era um mecanismo essencial de retenção de talentos.
Este desempenho está ligado à quadruplicação da dimensão do banco, ao longo de uma década, um legado duvidoso vista a qualidade de certos dos seus activos. Isto garantia-lhe o estatuto de ser sistematicamente considerado um banco importante, tornando-se assim uma espécie protegida. O Conselho colocava este atribuído bem em destaque e expressava-lhe os seus agradecimentos e estima pelos serviços prestados.
No entanto parece que os accionistas, que, em cinco anos, perderam os dois terços do seu capital têm uma visão bem diferente desta performance. Tais pensões são frequentes nas terras de Dom Quixote.
A ligar as ajudas a uma sobriedade das remunerações
Foi o sistema bancário espanhol que colocou de joelhos o Estado espanhol, cuja dívida era exemplar até 2009. O Estado teve que intervir massivamente e sobretudo nas Cajas de Ahorro,. Esse resgate não incluía as intervenções para o Banco Santander: o seu benefício é indirecto. Sem salvar as cajas de ahorros, era todo o sistema bancário espanhol que teria feito falência .
Quando o Tesouro americano foi forçado a apoiar o sistema bancário dos Estados Unidos, uma das primeiras medidas tomadas foi a de limitar as remunerações dos executivos dos bancos assistidos. Foi uma boa decisão e um poderoso incentivo para o reembolso destas ajudas, do capital e dos juros. Não houve interrupção das remunerações em bancos saudáveis como o JP Morgan e Goldman Sachs, que se despacharam a retribuir essas ajudas com consequências desagradáveis para os seus dirigentes.
O Estado espanhol não associou o seu apoio às suas instituições financeiras espanholas a uma moderação salarial dos seus dirigentes.
Em qualquer caso, parece-me que um apoio europeu não pode ser concebido sem medidas de acompanhamento quanto à sobriedade nas remunerações,. Seria indecente que as remunerações dos banqueiros permanecessem elevadas, enquanto o dinheiro dos contribuintes europeus era, directa ou indirectamente, solicitado para apoiar a sua banca.
Não nos esqueçamos de que o Banco Central Europeu concedeu empréstimos em condições muito favoráveis, especialmente aos bancos espanhóis e italianos. Seria interessante saber quais seriam os montantes que teriam sido solicitados se eles tivessem sido acompanhados por essas restrições. Certamente muito menos do que os mil milhões de euros (1000 milhares de milhões) da facilidade a longo prazo do BCE.
Seria por esquecimento ?
Georges Ugeux, Aider les banques ou les banquiers?, Le Monde, 25 de Maio de 2013


