EDITORIAL – REVOLTAS E REVOLUÇÃO

Imagem2Na sua edição do dia 16 de Julho de 1789, o Journal de Paris começava assim a notícia sobre os factos que dois dias antes tinham agitado violentamente a cidade: “O sol nasceu às 4h08 de terça-feira, dia 14 de julho de 1789, e, apesar da luminosidade, a cidade anunciava um dia encoberto e frio naquele Verão, no qual os termómetros marcavam 12 graus pouco antes do meio-dia.” Com estas palavras a gazeta parisiense, preparva-se para descrever o dia que a História assinala como o limiar de uma nova era. Pela preocupação com o pormenor metereológico, percebe-se que o jornalista não compreendera até que ponto um dia «encoberto e frio», iria ser nos tempos futuros o símbolo do mais ardente vulcão que a História dos homens regista.

Na realidade, a Tomada da Bastilha que se considera como a eclosão da Revolução, mais não foi do que um dos elos de uma extensa cadeia de factos. Quando, em 5 de Maio, após a abertura dos Estados Gerais, o conde de Mirabeau, que chefiava o Terceiro Estado, exigiu que a contagem dos votos fosse feita por deputados e não por ordem, procedimento liminarmente recusado pelo clero  e pela nobreza, pode dizer-se que a Revolução começou. Em 17 de Junho o Terceiro Estado, na ausência dos outros dois, iniciou a elaboração de uma Constituição. No dia 20, encontrando fechada a sala onde se fazia por regra as reuniões dos Estados Gerais, reuniram no Jogo da Péla e continuaram o desmantelamento dos suportes jurídicos do Antigo Regime. Três dias depois, autoproclamaram-se Assembleia Constituinte, retirando ao rei o direito de aprovação final das leis. E aqui acabou o absolutismo em França. Em 11 de Julho, Luís XVI, responsabilizando Necker, ministro das Finanças, pelas medidas que provocavam o descontentamento popular, demitiu-o. Emenda pior que o soneto – muita gente entendia que Necker era precisamente o homem capaz de salvar a França e, interpretando a demissão, como sinal da conspiração realista, contra-atacou e no dia 14, o povo amotinado tomou a fortaleza da Bastilha, libertando os poucos presos e assassinando o governador. Facto insignificante em si, mas que foi escolhido como símbolo de uma grande transformação política e social na Europa e no Mundo.

Após a Grande Revolução de 1789, nada ficou como era e o mundo foi sendo sacudido por convulsões sucessivas – o império napoleónico e a sua tentativa violenta para hegemonizar a Europa, a queda dos regimes absolutistas, as independências latino-americanas, a Comuna, a unificação de Itália… Em menos de um século o mundo transformou-se.

Na manhã de 14 de Julho, ao acordar, ouvindo a notícia sobre os acontecimentos dada pelo duque de La Rochefoucauld-Liancourt, Luís XVI  perguntou-lhe:

– É uma revolta ?

– Não, majestade, é uma revolução – respondeu-lhe La Rochefoucauld!

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