NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 106 – por Manuela Degerine

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A História

As nuvens desapareceram e, embora corra uma viração, sinto a camisola molhada. Chegamos ao vale do rio Trancão quando avistamos outro andarilho. Tem uns trinta anos. Metemos conversa em inglês, percebemos que é português, evocamos as possibilidades de albergue, por isso inquiro quantos quilómetros anda por dia.

– Quarenta, cinquenta…

O Caminho de Santiago nada tem de competição, cada um sabe de si, das possibilidades, dos dias disponíveis, no entanto ao mirar o caminhante, seus ténis, seus equipamentos, tudo novo e sem pó, parece-me que vem da Sport Zone. (Mesmo quem treina a maratona não ignora que, com uma mochila às costas, é outra prova…)

Nós, quando chegamos ao Parque das Nações, sentamo-nos a mirar o sapal na maré baixa, a ponte desenhada no azul e, decorridos dez minutos, concluímos que – com as mochilas agora vazias – somos capazes de prosseguir até Santa Apolónia. Uma hora e vários quilómetros mais adiante, entramos no “Não Venhas Tarde” para comprar uma garrafa de água, lemos no ecrã da televisão que Paulo Portas se demitiu, conversamos com o Sr. Artur, adepto do Marvila e do Facebook, inquieto – como todos os portugueses – com a destruição da qualidade de vida, com o marasmo dos negócios, com o desespero dos novos e dos velhos…

– Onde é que isto vai parar?

Nunca a pergunta foi tão repetida. Evocados os doze por cento obtidos pelo CDS nas eleições, despedimo-nos do Sr. Artur, continuamos na direção de Santa Apolónia, onde o meu companheiro apanha o metro e eu começo a ascensão para Sapadores.

Ausentei-me de casa durante doze horas mas parece que estive de férias. A alvura do cordeiro, o som do vento nas gramíneas, o sabor do pão que em Alpriate comi, os encontros, as conversas, as surpresas… Oiço na rádio a euforia causada pela demissão de Paulo Portas; os portugueses acreditam que haverá eleições antecipadas. (Os momentos históricos nem sempre são o que parecem.) No dia em que Paulo Portas se demite de maneira irrevogável, eu podia ter passado o dia a escrever, podia ter andado com a minha mãe pelo SNS (a pagar taxas imoderadas), mas não… Caminhei quarenta quilómetros, salva-se ao menos isto. Outros mondaram o milho. O acontecimento histórico será no futuro construído pelos historiadores, aqui e agora há as pressões, as obrigações, as disponibilidades, a temperatura do ar, o estado do corpo, há as escolas, os hospitais, os correios a fechar, há os salários a baixar, há os amigos, a família, as incertezas, as curiosidades, há a beleza do mundo, há o livro que lemos… Há o milho a crescer. Há a variedade infinita da nossa vida quotidiana. É nela que buscamos o caminho.

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